Cultura

O Advento da Loucura*

Talvez tenha sido da afirmação de Narcisa: senti uma atmosfera sombria a percorrer a sala.

31/10/2021  Última atualização 09H35
© Fotografia por: DR
- O meu marido suicidou-se há um mês - a voz da mulher oscilava, enquanto narrava os acontecimentos do fatídico dia. - Nunca me esquecerei daquela noite. Era uma noite luminosa, linda, mas traiçoeira. Sentámo-nos na cama. Falámos da vida, das mudanças que estão a ocorrer no país. Tranquilizou-me. Disse-me que um homem como ele tinha sempre um plano B. Adormecemos, pensando no futuro. Sonhei com a felicidade. Despertei com um barulho estridente. Percebi que era um tiro. Abri os olhos e vi-me sozinha na cama.


A luz da lua iluminava o quarto. Nem sequer precisei de acender uma lâmpada. Olhei à volta, notei a porta da varanda aberta. Nem sei como não me apercebi que Aníbal havia abandonado o leito. Lembro-me de tudo o que fiz a seguir, sei que essas recordações me perseguirão pelo resto da minha vida. Corri para a varanda, afastei os cortinados. Vi Aníbal deitado no chão. A arma caída ao seu lado, o chão coberto de sangue, e eu… eu nem consegui me mover. Paralisei completamente… a olhar o meu marido, caído no chão. Não sei quanto tempo fiquei assim, parada. Depois comecei a chorar e a mexer-lhe, para ver se ele acordava. Talvez, se eu não tivesse paralisado… Talvez eu ainda pudesse…


Narcisa deixou cair a cabeça sobre as mãos. Soluçava baixinho. Tentei confortá-la.
- Tente não pensar assim. Nestes casos há muito pouco que se possa fazer. É uma tragédia, mas vai passar.
Narcisa olhou para mim.
- Não. Não vai. Não passou e por isso estou cá. Depois da morte de Aníbal, as minhas tribulações apenas começaram.
- A que se refere, exactamente?
- Depois da morte do meu marido começaram as acusações. Muitos dizem que o meu marido enlouqueceu. Desde então, eu e os meus filhos temos de conviver com isso. Com a troça impiedosa, a calúnia mordaz. Mas pior do que tudo, com a dúvida. Começo a duvidar de tudo o que sei, de tudo o que foi a minha vida.


Consegue imaginar isso, doutor? Por isso, preciso de ajuda. Tudo o que quero é saber se realmente o meu marido enlouqueceu, sem que eu tivesse dado por isso. Por favor! Diga-me que me vai ajudar.
- Isso que me conta muda tudo. O que me pede é algo muito difícil de fazer. Na verdade, não temos feito autópsias psicológicas…
- Podia abrir uma excepção.
- Não tenho as condições para tal. Precisaria de uma equipa. Além de que o tempo que já decorreu, desde o facto até o início da investigação, já deve tornar impossível encontrar evidências, que seriam essenciais num caso desta natureza.
— Mas o senhor podia…
— O que podemos lhe oferecer é ajuda, para si e para os seus familiares. Ajuda, para ultrapassarem esta fase da melhor maneira possível.
- Doutor, agradeço-lhe, mas há muita gente a chamar louco ao meu marido, e isso eu não posso aceitar. O meu marido pode ter cometido erros, mas não é um maluco. E é isso que eu preciso comprovar, com a ajuda de um especialista. É esta a ajuda de que a minha família precisa.


Olhei para o director em busca de alguma orientação. Este fez-me um sinal, indicando que deixava tudo em minhas mãos. Olhei para a mulher, que me lançava um olhar melancólico. Combati a comiseração que crescia em mim.
- Lamento não puder ajudá-la.
- Vejo que esta é a sua última palavra!
- Infelizmente, sim. Narcisa ergueu-se, suavemente.
- Obrigada pelo seu tempo. Lamento tê-lo tirado de casa a uma hora tão tardia.
Suspirei de alívio. Director Mateus não me obrigou a aceitar o trabalho. Se o fizesse, não teria como negar. A mulher despediu-se do director. Notei nela a fúria e a decepção. Partiu sem olhar para trás. Director Mateus veio ter comigo.
- Vá para a casa e descanse - falou-me, numa rara complacência.
- Não precisas vir amanhã - olhou para o relógio e viu que já era madrugada.
- Ou melhor, hoje. Tira um dia para descansares. Não. Tira antes dois. Descansa o suficiente.

Agradeci. Caminhei em lentidão para a porta de saída, quando ouvi a voz do director chamar-me uma vez mais.
- Lembra-te Lázaro, nem uma palavra sobre o que aconteceu aqui com ninguém. Esta noite nunca existiu.  
Cheguei a casa, tentando esquecer esta noite. Tentando esquecer Narcisa e o seu falecido marido. O dia despontava timidamente. O bairro estava mergulhado numa espécie de torpor. Em meio ao medo e à desconfiança, a vida leva tempo a retomar o seu curso normal.


A abundante presença dos militares, a palmilhar as ruas a todo o instante, nos inibe e aprisiona. O recolher obrigatório é levantado às cinco da manhã, mas quando o relógio marca a hora ninguém se atreve a segui-lo. É neste vazio que me movimento.
Nas janelas das casas vizinhas, mãos discretas afastam leves cortinas, olhares curiosos acompanham os meus passos. São pessoas a espiar a vida cá fora, como que à espera da autorização para começar a viver. Não os condeno, eu próprio faço o mesmo, antes de enfrentar as ruas em horas tão impróprias, embora sinta que se calhar as ruas nunca estiveram tão seguras quanto agora, com tantos militares e polícias em patrulha.


Ao ver-me cruzar a rua, alguns vizinhos vão saindo apressados. Olham para todos os lados, antes de entrarem nas suas próprias viaturas. Uma carrinha militar passa por nós, lentamente. Vai cheia. Os militares vão de armas em riste. O seu efeito é paralisante. Qualquer movimento, por mais leve que seja, pode ser interpretado como uma provocação, ou como um atentado. Mantemo-nos estáticos, em sinal de resignação. Os militares não descem, apenas exibem a sua presença, o seu poder de fogo, e é tudo quanto basta. É tudo quanto pretendem. A carrinha continua a sua marcha, lenta mas decidida. Entrei apressado no quintal.


A casa em que habito é um pequeno anexo, de uma casa ligeiramente maior, pertencente a uma mulher de idade a quem aluguei o anexo por um preço que ainda hoje me parece exorbitante. Tivemos uma negociação difícil, que só terminou quando a velha, com ar decidido, determinou: "Se não quiser, pode procurar outro sítio. A casa é minha, o dinheiro é teu.” Cansado da extenuante procura, aceitei, sem que um cêntimo tivesse sido retirado do preço inicial. Odiei a mulher. Um ódio que não passaria, no entanto, de apenas algumas semanas.


Velha Esperança correu para mim, tão logo viu-me entrar no quintal. Era quase rotina. A mulher andava meio encurvada, mas tinha uma passada larga, apesar da idade. Muitas vezes tento sem sucesso escapar da perseguição que me está reservada diariamente. Tento entrar no quintal discretamente, abrindo e fechando o portão de ferro em silêncio, e corro na ponta dos pés para alcançar a casa sem ser notado. Sei que me tornei na sua quase única companhia.


Velha Esperança passa os dias trancada em casa, juntamente com uma neta, ou filha, ou sobrinha… é difícil de saber, uma vez que ela usa os três nomes para se referir à jovem moça com quem vive. Esmeralda, é assim que se chama a moça, que pode muito bem ser filha, sobrinha, neta, ou apenas uma rapariga aos cuidados de uma velha mulher, que precisa muito mais de cuidados do que a primeira.


Velha Esperança aproximou-se e agarrou-me no braço, como quem precisa de apoio para não cair. Olhou-me nos olhos com um ar de preocupação.
- Doutor. Eu ouvi o doutor a sair de noite. É o quê? É problema? Tentei fazer um sorriso tranquilizador.
- Não. Mamã Esperança. Não é problema. Foi apenas uma situação lá no hospital.
- Ééé… Àquela hora?! Não podiam esperar até de manhã?
- Não, mamã. Era uma emergência.
- Ai doutor, não começa a fazer isso. As ruas não estão boas. O doutor não anda a ver as coisas como estão?
- Vejo sim.
- Então? Estão a dizer é guerra que está a vir aí… - Não, mamã Esperança. Não vai haver mais guerra.
- E esses militares todos na rua? Não é guerra, isso?
- Os militares só estão na rua para manter a ordem.
- Não sei, meu filho. Vocês é que sabem das coisas. Eu estou velha e já não sei mais nada.
Tentei confortar a senhora afagando-lhe o braço que ainda me prendia. A velha tremia. Não sei se era de medo, de idade ou de doença. Olhei para ela, para tentar perceber. Velha Esperança soltou o meu braço e começou a afastar-se para a sua casa. Retirava-se numa rouca murmuração. Caminhou alguns metros naquela sua passada acelerada, mas depois deteve-se e voltou-se novamente para mim.
- O doutor já matabichou?
Quis dizer-lhe que sim, mas sabia que era inútil. Sempre que estivesse em casa, a mulher mandava-me alguma coisa para comer.
- Ainda não, mamã Esperança - a verdade brota de mim, indomável.
- Vou mandar a Esmeralda trazer um matabicho para o doutor.


*Romance de Sérgio Fernandes, com chancela da editora Asas de Papel, a ser lançado no próximo dia 10 de Novembro na Praça da Unidade Africana, ao Miramar, em Luanda. O autor nasceu a 4 de Março de 1984, em Luanda. Formou-se em Política Internacional em Monterey, California, EUA, através da bolsa Fulbright. Estreou-se na Literatura em 2019, com a obra "O Último dos Sonhadores”. Participou na colectânea de textos "Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia”, organizada pela UCCLA.


Sérgio Fernandes

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