Sociedade

O adeus é para sempre!

Yara Simão

Jornalista

Carlos Alberto, ou Cacá, algumas vezes Carlão. Nunca pensei que fosse querer escrever sobre você depois de morto. O que invade a minha alma, agora, é um misto de sentimentos que não consigo explicar. Mas transmite um pouco de quem tu eras, um homem quieto, de poucas palavras, mas de muito trabalho.

15/06/2024  Última atualização 11H35

A hora em que escrevo, estas palavras cruzadas, reforço, cruzadas, não difere do horário em que te vi pela primeira vez. Foi no dia 23 de Maio de 2003. Vinhas tu para a sala do Caetano Júnior, na altura chefe de Redacção, usando uma calça jeans azul e uma t-shirt cinza às riscas azuis, e calçavas umas sandálias, e arrastavas os pés ao andar.

Teus óculos eram impressionantes, já pareciam lupas, e teu rosto redondo e barbudo, transformava-te no chefe "mau, mau”, mas, não foi difícil descobrir que era apenas impressão, pois a tua voz fina e meiga, denunciava o teu coração, manso e quieto.

Em parcas palavras, quero lembrar-me das nossas memórias, porque foi mais de uma década juntos, numa relação laboral harmoniosa e salutar. Dói-me saber que já não estás entre nós. E que apenas te lembraremos pelos milhares de textos publicados no Jornal de Angola. 

Carlos Alberto era um daqueles profissionais de pena, uma notícia era feita em minutos, brincava com as técnicas do jornalista que se de ouvir contar ninguém acredita. O Carlão empurrava umas birras no Pingão e quando voltava à Redacção, só se ouvia o som das teclas que sofriam com o toque dos seus dedos.

Era tão expert no que fazia, que lhe foi atribuída a responsabilidade de reportar para os nossos leitores em todo o mundo, sobre a morte do Jonas Malheiro Savimbi, isto em 22 de Fevereiro de 2002 na província do Moxico, ao lado do malogrado Maurício Makemba. Lembro-me, que quando foi exonerado do cargo de subchefe da Reportagem, e colocado na editoria de Sociedade como repórter com baixa categoria, ao ponto de ser agendado para uma cobertura de entrega de brinquedos, não se envergonhou.

Foste um chefe exigente, que tinhas agenda da Reportagem muito organizada e não permitias que os repórteres ficassem a desfilar na Redacção de um lado para o outro, ou focados na internet. Havia "linguado” para todos fazerem o "Falou & Disse”.

Ah! Carlos Alberto! Estou a chegar ao fim das linhas. O que mais lembro de ti é do peixe frito com feijão frade e salada do Pingão e das vezes que me apresentavas aqueles teus "amigos do copo” no Sambizanga, como sua sobrinha, ou das vezes que me obrigavas a fazer dois a três "Falou & Disse”?

Resta-me apenas dizer obrigada. Foi bom o tempo, foi uma boa experiência, conviver e aprender crónicas e reportagens. Muitos de nós, hoje, somos os verdadeiros substitutos na profissão. As palavras não morrem, e os teus escritos também não.

Respondeste sim ao chamado. Desapareceu o teu corpo, foi-se a tua alma e o teu espírito, mas o teu nome continuará na história do Jornalismo angolano. Os teus escritos jamais se apagarão. E dos que se adiantaram também não, como José Cristóvão ("Você não é nada”), José Meireles ("Grande pimpeiro”) e Amândio Clemente, o homem das mil e uma reclamações.

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