Sociedade

Novos bairros do Lubango recebem energia eléctrica

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Oriundo da encosta da linha dos Caminhos-de-Ferro de Moçâmedes, Damião João, de 50 anos, leva algumas quantidades de peixe, carne e frango num saco de plástico preto, que apresenta a imagem de um calendário, timbrada nos dois lados.

17/12/2020  Última atualização 14H40
Anciã Maria está muito satisfeita com a chegada da energia © Fotografia por: Arão Martins| Edições Novembro
Por falta de energia eléctrica no bairro Kuawa A, arredores da cidade do Lubango, na Huíla, onde vive há décadas, o camponês carrega, todas as semanas, quantidades de frescos à conservar na arca do irmão, que mora na zona da Lalula, a sete quilómetros de distância do seu local de residência.
No mesmo espaço onde construiu a residência, numa área com cerca de mil metros quadrados, o cidadão, natural do município de Caconda, cultiva milho, mandioca, feijão, tomate e cebola. "Kuawa A cresceu muito. Mas, por falta de energia, há mais de dez anos que sou forçado a recorrer à arca do meu irmão, que vive um pouco distante daqui, para conservar os frescos”, disse.
 Faltam vários serviços sociais na zona. Damião conta que, no princípio, enfrentou sérias dificuldades de adaptação. "Mas já não sinto tanto assim. Agora temos energia e a vida vai andando devagarinho”, disse.

 No bairro Tchavola B, um jovem de 40 anos, transferido de uma zona de risco, no bairro João de Almeida, partilha a moradia com a mulher e quatro filhos. Professor de profissão, Francisco dos Santos esbanja sorriso por ter sido o primeiro a receber o contrato de consumo de energia.
"Enfrentamos inúmeras dificuldades. Não foi fácil suportarmos mais de 10 anos sem energia eléctrica. Estávamos abandonados.

Ficamos muito tempo a viver nesta condição”, lamenta o professor do primeiro ciclo do ensino secundário, acrescentando que por falta de energia, comprava pilhas, para a lanterna e o rádio, e petróleo para o candeeiro. "Preparava as aulas e corrigia as provas dos alunos, à noite, com pouquíssima luz”, conta.
 De acordo com o professor Francisco dos Santos, sem energia era impossível conservar os frescos, por isso a maioria dos moradores do bairro comprava apenas a quantidade de carne, peixe ou frango a ser consumida em cada refeição, para não se estragar.

Outra moradora do Tchavola B, com mais de 65 anos, disse que, numa altura em que o mundo regista a pandemia da Covid-19, era pertinente acompanhar as notícias para melhor esclarecimento de tudo o que ocorre no mundo. "Sem energia, as noites eram muito longas e difíceis, aqui no Tchavola”, afirma a anciã Maria.
A porta da casa de adobe cru está semifechada. No interior, a anciã conversava amenamente com duas vizinhas quando, de repente, a lâmpada da sala acendeu. "Olusso yeya. Onjoy ale nhe?”, grita de alegria, na língua nacional umbundo. Em português significa: "a luz veio. Será um sonho?”

 Poucos minutos passaram. Uma caravana de viaturas parou defronte a sua residência e visivelmente assustada, correu para fora. Maria reconheceu o chefe da delegação que acabara de chegar ao bairro Kuawa A, o governador da Huíla, Luís Nunes, de quem recebeu o contrato de energia, uma geleira e um televisor. "Estou muito satisfeita. Não contava com isso. A geleira vai servir para conservar a comida, e vou ver as notícias no televisor”, disse.

PIIM assegura o projecto de expansão

Dez anos depois, os moradores do Tchavola e Kuawa A, dois dos mais novos bairros erguidos na sede provincial da Huíla, beneficiam, desde a semana passada, de energia eléctrica, no âmbito da implementação do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM).
 Coube ao governador da Huíla, Luís Nunes, a responsabilidade de ligar o disjuntor que manda a energia às moradias, e fazer a entrega simbólica dos primeiros contratos aos consumidores. O coordenador adjunto da zona nove do Tchavola Baixa, Maurício Marques, disse que depois de passados 10 anos, não contava ter energia antes da quadra festiva. 
"O nosso muito obrigado ao governador da Huíla, que aceitou vir aqui nesta zona fazer a inauguração do sistema de distribuição de energia. A população agradece”, ressaltou. Maurício Marques disse que a escola, em construção, e o furo de água que está a ser feito na localidade vão permitir que haja melhorias significativas na qualidade de vida dos mais de quatro mil habitantes da zona. 
"Agora sim, acreditamos em dias melhores, sobretudo para os nossos filhos, que vão poder estudar em melhores condições de acomodação e mais próximo das nossas casas”, referiu. Aquele responsável da zona nove do bairro Tchavola Baixa defendeu a expansão do projecto, para beneficiar mais famílias, e solicitou a construção de um posto médico para melhorar a assistência médica e medicamentosa destinada à população local, e, também, a abertura de um posto policial, para reduzir o índice de criminalidade que se regista na zona.
 O administrador municipal do Lubango, Armando Vieira, explicou que a electrificação das zonas urbanísticas da zona nove da Tchavola Baixa e Kuawa B só foi possível fazer com os fundos provenientes do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), para beneficiar, numa primeira fase, cerca de 900 famílias.
Segundo o administrador, para Tchavola, onde foram feitas 300 ligações domiciliares na primeira fase, foram gastos 151 milhões de kwanzas na instalação de 1.657 metros de rede de média tensão, 10 mil metros de rede de baixa tensão, dois postos de transformação de energia (PT) e 19 de média tensão.

 Avançou que na zona do Kuawa A, além da instalação de um quiosque móvel de pagamentos, foram aplicados 23 postes de média tensão, 400 postes de baixa tensão, e feitas 600 ligações domiciliares. Para facilitar as ligações, Armando Vieira informou que durante a empreitada, foram instalados 1.932 metros de rede de média tensão e 20 mil metros de ramal de baixa tensão.
 "Foram, também, colocados três postos de transformação, com um custo de 301 milhões e 733 mil kwanzas. A acção vai continuar, e inclui o sistema de iluminação pública”, acrescentou.
Zonas de risco

Tchavola, Kuawa e Tchituno são as mais novas zonas urbanísticas, criadas há 10 anos, no município do Lubango, na sequência do realojamento das famílias que viviam em zonas consideradas de risco, sobretudo ao longo da linha férrea dos Caminhos-de-Ferro de Moçâmedes, linhas de água, entre outros locais.

Vários projectos estruturantes, desenvolvidos pelo Executivo, através do Governo Provincial da Huíla, permitiram minimizar a pressão de risco em que viviam muitas famílias, que construíram moradias em zonas muito perigosas, reconheceu o administrador municipal do Lubango.  
Armando Vieira salientou que a criação da centralidade da Quilemba, numa área com cinco mil hectares, e do Eywa, com 14 mil hectares, são ganhos que estão a proporcionar condições de habitabilidade e segurança às famílias que viviam nesses locais.

"O surgimento dos bairros da Tchavola, Kuawa e Tchituno constam de uma estratégia do governo, de operacionalização de um subprograma que continua a ser desenvolvido pelo executivo, que permite melhorar a qualidade de vida das populações”, disse o administrador do Lubango, Armando Vieira.
O vice-governador da Huíla para o sector Técnico e Infra-estruturas, Nuno Mahapi Ndala, reconheceu, há dias, que, no âmbito da estratégia do subprograma de autoconstrução dirigida, a prossecução da política urbana propiciou o ordenamento e a expansão de sistemas urbanos.

 "O programa permitiu a articulação positiva entre as zonas urbanas e rurais, com o surgimento de infra-estruturas urbanísticas e equipamentos sociais colectivos, adequados aos diferentes tipos, conforme acontece, e de forma contínua, com as acções planificadas nas zonas urbanísticas da Tchavola e Kuawa”, disse.
De acordo com Nuno Ndala, o Programa Nacional do Urbanismo e Habitação define que 68,5 por cento (685.000 habitações) estão destinados ao subprograma de autoconstrução dirigida, e a Huíla é das províncias que mais lotes distribuiu, o que permitiu o surgimento de milhares de moradias nesta região do país.

Os ganhos, salientou, apesar das dificuldades próprias ao actual contexto, são sinais de avanços. À semelhança do que aconteceu pelo país, a partir do ano de 2009, logo após a aprovação do Programa Nacional de Urbanismo e Habitação (PNUH), na província da Huíla, empreendeu-se um trabalho de identificação e constituição de reservas fundiárias urbanizáveis.
 O vice-governador da província acrescentou que, no âmbito das políticas públicas de distribuição da população, de segurança e de desenvolvimento socioeconómico, o PNUH permitiu a criação de infra-estruturas urbanísticas e equipamentos sociais colectivos mais adequados.

 Explicou que, na identificação das reservas fundiárias, foram tidas em conta a proximidade da água, energia e da malha urbana, e elaborados planos urbanísticos. Nuno Ndala referiu que 70 por cento das reservas fundiárias estão destinados ao programa de autoconstrução dirigida, que permite minimizar o défice habitacional e possibilitar às pessoas, com menos recursos, construir, com ajuda do Governo, o sonho da casa própria.
 "O programa de autoconstrução dirigida destaca-se pela transversalidade que apresenta, por conter serviços de energia e água, justiça e direitos humanos”, sublinhou o responsável.
Mais consumidores

O governador da Huíla, Luís Nunes, anunciou que o número de consumidores de energia eléctrica vai aumentar, no próximo ano, com a entrada em funcionamento de duas turbinas de 50 Megawatts. "Contávamos concluir o programa até o fim deste ano, o que já não vai acontecer, devido a alguns contratempos. Mas estamos a trabalhar para colocar em funcionamento até antes do final do primeiro trimestre de 2021”, disse.

 De acordo com o governador, actualmente está a ser feito um esforço conjunto, entre o Governo da Huíla e o Ministério da Energia e Águas, para a montagem de uma turbina de 15 ou 16 Megawatts na central da Canguinda, arredores da cidade do Lubango, com o objectivo de reforçar o abastecimento de energia durante a quadra festiva.

 Luís Nunes destacou a entrada em funcionamento de um novo sistema de distribuição de energia, que permitiu que fossem realizadas ligações domiciliares nos bairros da Tchavola e Kuawa, e da subestação eléctrica da Humpata, com capacidade para 7000 novas ligações, que vai beneficiar não só os habitantes da municipalidade, mas também os da Chibia e do Lubango.

 "Estamos a construir bens públicos para melhorar as condições de vida das nossas populações, mas, infelizmente, há uma onda grande de vandalização”, lamentou o governante, para sublinhar que, em vários municípios da província, estão a ser roubados cabos eléctricos, electrobombas, contadores de água e outros equipamentos.

 Luís Nunes exortou a população a denunciar todos os que praticam tais actos, pois "devemos todos preservar os bens públicos, para garantir o bem-estar das nossas populações e das gerações futuras”.
 Destacou que no quadro da resolução dos problemas do povo, está em curso a implementação do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios, que decorre a bom ritmo. O governador da Huíla afirmou que as acções do PIIM resultam em projectos traduzidos numa ampla e integrada plataforma, para a resolução de vários problemas de natureza social, com a finalidade imediata de alavancar o desenvolvimento económico, aumento da oferta, melhoria dos serviços públicos e da empregabilidade.

 No âmbito do PIIM, na Huíla, está em curso a implementação de 184 projectos, dos quais 148 já estão em execução, o que corresponde a 80 por cento. Na província, decorrem várias obras de construção de escolas, centros médicos, hospitais, reabilitação dos sistemas de produção e distribuição de energia e água, asfaltagem de algumas sedes municipais e reabilitação das vias de acesso às zonas produtivas.

 Até agora já foram inaugurados 26 projectos, dentre os quais 11 escolas devidamente apetrechadas nos municípios do Lubango, Humpata e Chibia, dois postos de saúde, dois centros médicos e uma loja de registo.  "Com a implementação dos projectos do PIIM, mais de 500 mil pessoas viram melhoradas as suas condições de vida, sobretudo depois da abertura do Hospital Municipal da Humpata”, disse o governador Luís Nunes.

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