Cultura

Novo Romance de Jacques dos Santos: “República de Santa Bárbara”

“Chamo-me Enrico Rizzo da Vicência da Boa Morte. Um nome invulgar, sem dúvida alguma.

31/07/2022  Última atualização 11H02
© Fotografia por: DR

"Chamo-me Enrico Rizzo da Vicência da Boa Morte. Um nome invulgar, sem dúvida alguma. Não obstante, prefiro-o ao outro, utilizado durante muitos anos. Chamava-me então Henrique Órfão. O apelido era atribuído a filho de chocadeira, melhor dito, a filho de pai desconhecido. Nada, coisa nenhuma, nem a mudança de nome, me libertaria da condição de incógnito, mas ter Órfão como apelido causava-me enorme sofrimento, era uma sorte imerecida, maldade imperdoável. O sobrenome incomodativo levou-me à firme ideia de o deixar, fosse de que maneira fosse.

Nessas circunstâncias, preferi adoptar o nome da minha mãe como apelido. Com difícil anuência dos serviços do registo civil, uso agora nessa posição o seu nome completo. Não me livrei das críticas maldosas da família, que não era grande, mas pouco magnânima, embora houvesse, entre os seus membros, uma ou outra pessoa bondosa. Os radicais desapreciaram a ideia meio louca, inclusivamente a minha mãe, a senhora dona Xexa, que raramente me contrariava. Contudo, decidi, ficou decidido. Antes, pesquisei um dicionário de nomes masculinos. Rebuscando, vi que, em relação a Henrique, se explicava o significado do nome. Igual a "príncipe do lar”, uma outra iniquidade. Antimonárquico que passei a ser, não exactamente por esse motivo, mas movido pela falta de simpatia alimentada por reis, duques ou princesas, mais arreigada e tendenciosa ficou a necessidade da troca do meu nome de baptismo.

Explicarei adiante como aconteceu a pouco usada mudança. Antes devo avisar que, na terra nobre de Santa Bárbara, os homens e mulheres de verbo fácil e transparente, as pessoas que gostavam de falar claro, as sinceras que olhavam os olhos dos outros, se explicavam bem e não se acobardavam a falar, nunca tinham sido bem vistas.”

Excerto do prólogo. O romance, com dupla chancela editorial da angolana Chá de Caxinde e da portuguesa Guerra e Paz, foi lançado na última quinta-feira, 28/07, na sede da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde. Escritor e cronista, Jacques Arlindo dos Santos nasceu a 6 de janeiro de 1943, em Dala-Uzo, no Libolo, Kwanza-Sul. Foi director administrativo e director técnico da ENSA - Empresa Nacional de Seguros e Resseguros de Angola e deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA entre 1994 e 1995. É sócio fundador da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, bem como da editora com o mesmo nome. Publicou os livros: "Casseca - Cenas da vida em Calulo”; "Chove na Grande Kitanda”; "ABC do Bê Ó”;  "Berta Ynari ou Pretérito Imperfeito da Vida” e "Subitamente no Cacimbo”. 

 

Esgravatar o chão da alma angolana

Com o olhar atento de anos a observar a sociedade angolana, Jacques dos Santos apresenta-nos o seu relatório, um livro que esgravata o chão da alma angolana, com a coragem e paciência de um miliciano e a elegância de um pianista. O resultado é um livro magistral, com linguagem diáfana e muito agradável de se ler, às vezes irónico quanto baste, sarcástico nos momentos em que a realidade pungente desafia os limites da imaginação e melancólico sem se render à impotência. Poucos livros nos últimos anos escritos por angolanos foram tão incisivos no modo como se olha o país e, ao mesmo tempo, com uma imaginação deliciosa e hilariante. É um relatório sobre Santa Bárbara, mas não deixa de ser um relato sobre o quotidiano das suas gentes, seus sonhos e dramas, suas grandezas e mediocridade, os seus contrastes. Às vezes, parece um relatório apenas, outras vezes, um mero relato, mas sempre como que um testamento de um homem que ama e amou profundamente a sua "Santa Bárbara”.

 Paulo Inglês


Um livro que obriga a olhar e pensar

Não é fácil nem agradável deixar escritas algumas palavras sobre esta nova aventura literária de Jacques dos Santos. Como difícil e doloroso terá sido para o Autor esta experiência nova de transpor para ficção uma realidade paralela que se abre à nossa frente, na cidade capital da República de Santa Bárbara e num "relato particular sobre a cidade capital”, como é sub-titulado o romance. Sempre coincidente com o papel fundamental que a Literatura Angolana foi exercendo ao longo dos séculos - no realismo, na denúncia, no humanismo, na coragem, sempre que foi necessário tomar posição, Jacques dos Santos está mais uma vez do lado da sua (nossa) Terra, da sua imensa maioria. Num traço que muitas vezes parece deitar mão à fotografia, este livro deve obrigar-nos a olhar, a pensar, a raciocinar e a voltar ao começo, enquanto a esperança e o tempo não se diluem na vida acelerada que passa à nossa frente. Que todos nos habituámos a conduzir e que, por um lapso histórico momentâneo - que pode estender-se por décadas, nos faz permanecer macambúzios, dependentes, irreversivelmente(?) pessimistas e esquecidos do que fizemos, do que fomos e do que ainda podemos vir a ser.

Irene Guerra Marques

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