Cultura

Novo Rei do Ndongo e Matamba Diba Njungo reitera apoio ao Governo

Venâncio Victor | Malanje

Jornalista

O novo Rei do Ndongo e Matamba, Luís Ngola “Diba Njungo”, 68 anos, entronizado a 16 de Setembro do ano passado, foi sexta-feira oficialmente apresentado, na cidade de Malanje, ao público e autoridades governamentais.

17/06/2024  Última atualização 09H19
Rei Diba Njungo no centro com membros da Corte Real vai trabalhar para elevar a qualidade do poder tradicional © Fotografia por: Cedida

Durante a cerimónia, o Rei Diba Njungo considerou a paz, a democracia e a Independência Nacional como um património do povo angolano que deve ser preservado por todos.

O 45º soberano do Ndongo e Matamba, que substitui Buba Nvula Dala Mana "Rei Cabombo”, falecido a 8 de Setembro do ano passado, disse ainda que os demais reis não vão mais deixar que nas sanzalas, províncias ou municípios haja pessoas que possam fomentar instabilidade e agitar o povo contra as instituições do país.

Diba Njungo acrescentou que, neste momento, o país tem constituído um Governo legítimo saído de eleições democráticas e que tem rituais que partem dos costumes dos seus ancestrais, daí que deve ser respeitado por todas as autoridades tradicionais.

"Este Governo deve ser respeitado porque o rei e o soba, se não respeitarem este Governo, também não serão respeitados, porque estão lá para continuar com a luta iniciada pelos reis ancestrais de Angola”, disse, destacando o apoio que tem sido prestado às autoridades tradicionais pelo Governo Provincial de Malanje e pelas administrações municipais.

O soberano afirmou ter trazido inovações ao Reino do Ndongo e Matamba, com a revitalização e aumento do número de membros da corte real, que passou de 48 para 85 elementos, e que vão trabalhar para elevar a qualidade do poder tradicional e para apoiar localmente o Governo.

Para que isso aconteça, frisou, já começou com a criação de gabinetes de serviços administrativos da corte em todos os municípios da província. Explicou que as linhas de força apresentadas são o caminho certo para apoiar as acções do Governo em todo o país.

"Vamos convidar os reis do país inteiro, que estão aqui na cerimónia de entronização e partirmos para uma única frente, porque tem que se levar em conta que a geração de Angola é uma geração vinda dos sobas e reis, pois foi com a iniciativa e bravura dos nossos ancestrais que os filhos de Angola, entre bisnetos, netos, sobrinhos, criaram os movimentos de libertação para correr com os dominadores portugueses”, ressaltou.

"Não podemos perder o nosso ponto de vista de trabalharmos juntos com o Governo”, recomendou Diba Njungo, anunciando para os próximos tempos visitar todos os reis para o reforço do diálogo para o alcance deste desiderato. "Com isso, vamos coordenar todas as acções que vão determinar o bom caminho a seguir", reforçou.

Apontou como principais linhas de força do seu reinado trabalhar em prol das acções voltadas aos sectores da Educação e Saúde, bem como ser um parceiro seguro e confiável do Governo, procurando trabalhar sempre em sintonia para contribuir no processo de desenvolvimento económico e social das populações da região, em particular, e do país, em geral.

Tornar a localidade de Muculo a Ngola, onde jazem os corpos do Rei Ngola Kiluanje e da filha, a Rainha Njinga Mbande, num verdadeiro mausoléu da História de Angola, constitui outra linha de força das acções a realizar pelo soberano.

Aquela autoridade tradicional apontou ainda como prioridade do seu reinado o fortalecimento das relações de trabalho com as comunidades, assim como com todas as instituições do Estado angolano. O Rei Luís Ngola insistiu na necessidade de unificação do reinado, bem como exigiu maior respeito aos órgãos de soberania.

Na oportunidade, o governador provincial de Malanje, Marcos Nhunga, fez uma incursão sobre a história do Reino do Ndongo e da Matamba, que considerou uma rica história de resistência ao colonialismo português, uma narrativa que jamais será apagada porque identifica e fortalece os ideais de todo um povo, que procura reforçar os laços de irmandade.

Destacou que o Reino do Ndongo e Matamba jogou um papel preponderante na História do país e de África, por se firmar como uma instituição exemplar de resistência à penetração colonial e que lutaram para a preservação da identidade e dos costumes do povo angolano dentro e além-fronteiras.

"O Reino do Ndongo é uma instituição tradicional que deve ser honrada e respeitada, não apenas pelo seu papel na luta contra o colonialismo, mas também pelo seu poder de união como um só povo em diferentes fases e épocas da História do país”, frisou o governador de Malanje.

Por isso, acrescentou Marcos Nhunga, é inegável o seu papel para a resolução de quaisquer questões, quer sejam de origem étnica, política, social ou geográfica, como o tribalismo, o regionalismo e outros preconceitos. Marcos Nhunga valorizou o papel das autoridades tradicionais na preservação dos valores e tradições locais, assim como a promoção da identidade nacional e do património cultural.

O governador de Malanje defendeu a necessidade do fortalecimento das relações entre as entidades representativas do Reino do Ndongo e o Estado angolano para o desenvolvimento inclusivo das comunidades.

Soberano do Bailundo

Por sua vez, o soberano do Bailundo, Rei Ekuikui VI, Tchongolola Tchongonga, que falou em representação dos demais reis do país presentes na cerimónia de entronização do Rei Diba Njungo, realçou que o Reino do Ndongo e Matamba foi e continua a ser um reino estratégico de Angola e que com sucesso sempre resistiu à penetração e à opressão colonial.

Sublinhou que os reinos de Angola estão engajados em tarefas profundas, como as de devolver a hegemonia cultural tradicional, bem como os hábitos e costumes, focando-se em quatro eixos, nomeadamente resgate, preservação, valorização e divulgação da identidade cultural de Angola.

"O Reino do Ndongo não foge à regra de continuar com o seu trabalho unindo o povo ambundo, manter a boa relação com todas as instituições de Malanje e não só e continuar com o legado dos ancestrais, a exemplo da Rainha Njinga Mbande e do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto”, rematou.

A secretária de Estado para a Cultura, Maria de Jesus, que representou o ministro Filipe Zau na cerimónia, realçou que o acto representa a parceria entre o Estado e as autoridades tradicionais, que são os guardiões da cultura e identidade nacional, que devem passar os conhecimentos tradicionais e criar harmonia nas comunidades onde os reinos estão instalados. A governante destacou o papel deste reino no passado, acrescentando que o lema do Reino do Ndongo e Matamba, traduzido em unidade, implica desenvolvimento e liberdade para a sobrevivência humana.

Por sua vez, o director nacional da Cultura para as Comunidades e Instituições do Poder Tradicional, Albano Cufuna, disse que a partir deste evento fica definido que apenas existe um rei a nível do Reino do Ndongo e Matamba. Para o responsável, o evento reveste-se de extrema importância e de um elevado significado, porquanto decorreu em simultâneo a sua entronização e apresentação oficial, tendo deixado uma menssagem de esperança e de tranquilidade, porque o reino é antigo e esperava-se a entronização legal do rei e com isso pôr fim às contradições que existiam da existência de outros reis do Ndongo e Matamba.

Disse que consta da lista de projectos da instituição a capacitação dos sobas para elevarem os conhecimentos e melhor trabalharem com as comunidades das áreas sob sua jurisdição.

 Explicou que a nível do país há o registo de mais de 40 mil autoridades tradicionais, entre reis, sobas, sobetas, seculos e regedores.

Principais momentos da cerimónia

O acto da apresentação pública do soberano do Ndongo e Matamba teve momentos marcantes, que têm a ver com o simbolismo do poder tradicional, como as indumentárias que foram apresentadas e os instrumentos representativos da realeza, que são um conjunto do armamento da fortaleza do Reino do Ndongo e Matamba, como a flecha, canjavite, canhangulo, entre outros.

O acto foi ainda marcado pela incursão à história de resistência à penetração colonial portuguesa e a sua influência a nível da África Central.

A entronização do Rei Diba Njungo foi testemunhado pelo soberano Lunda-Cokwe, Muene Muatxissengue Watembo, Rei Ekuikui VI Tchongolola Tchongonga, do Bailundo, Ngana Lungo, do Reino do Amboim, e do soba grande da região de Seles, entre sobas, regedores e sobetas de diversos pontos do país, autoridades religiosas, políticos e população em geral.

O novo soberano

O Rei Diba Njungo nasceu a 23 de Dezembro de 1955, na aldeia de Quizela, no município de Cahombo, província de Malanje.

É filho de António Ngola e de Rosa Manuel, pertencente à família real de Ngola Kiluanje e foi eleito através da linhagem materna e pertence à tribo de Mudile a Ndombo a Mana.

Estes e outros requisitos pela parte materna, levaram-no a ser entronizado em cerimónia restrita e tradicional a 16 de Setembro do ano passado, no sector de Cabombo, aldeia de Ngumba, tornando-se o 45º Rei da linhagem de Ngola  Kiluanje kya Samba a exercer a liderança do Reino do Ndongo e da Matamba.

Considerando que a liderança do Reino do Ndongo e Matamba é geracional, Luís Ngola assume o poder no direito de sucessão de Mudile a Ndombo a Mana, uma das cinco mães da linhagem dos Ngola, nomeadamente Njinga Mana, Cambo Camana, Catala Camana, Mudile a Ndombo a Mana e  Cassenda Camana.

O novo Rei do Ndongo e Matamba tem o curso médio de Formação de Professores e já foi deputado da então Assembleia Popular de Malanje, no período de 1986 a 1991.

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