Reportagem

Novo coronavírus altera homenagem às vítimas do maior genocídio da história da África pós-colonial

O maior genocídio da História da África pós-colonial foi lembrado, esta semana, no Rwanda, de forma inesperada por conta da Covid -19. No Rwanda e na diáspora do país, a organização das comemorações do 7 de Abril de 1994 foram alteradas pelas autoridades.

10/04/2020  Última atualização 11H16
DR © Fotografia por: Memorial de Gisozi, na capital, Kigali, acolheu uma cerimónia singela para assinalar a efeméride

Na capital Kigali, o Memorial Gisozi acolheu uma cerimónia singela, que durou menos de 30 minutos por orientação da Comissão Nacional de Luta contra o Genocídio. O Presidente Paul Kagame fez um discurso, mas a tradicional “Marcha de Recordação” e a vigília, no estádio nacional de futebol Amahoro, que, geralmente, inclui o testemunho de sobreviventes, não aconteceram para evitar ajuntamentos nesta fase de combate à pandemia da Covid 19.

O ponto alto das cerimónias aconteceu quando o Presidente da República acendeu a chama da paz no Memorial de Gisozi.
Foram também canceladas as tradicionais palestras que servem para evocar a memória das vítimas do conflito étnico e conversar sobre a História.
Até o final do dia de ontem, o país registava 105 casos de contaminação da Covid 19 confirmados, sem mortes e quatro pessoas recuperadas. No dia 22 de Março, as autoridades forçaram a população a um confinamento obrigatório para tentar mitigar a propagação do vírus. As medidas de isolamento foram prorrogadas até 19 deste mês.

A França e o genocídio
Há cerca de um ano, o Presidente Emmanuel Macron criou uma comissão de historiadores para esclarecer o papel do país no Rwanda durante o genocídio de 1994.
Esta comissão de historiadores tem acesso aos arquivos da Presidência da República, Matignon, Quai d'Orsay e Ministério das Forças Armadas.
Em Abril do próximo ano, serão divulgados os resultados da investigação.
A verdade é que o Rwanda, colonizado pelos belgas, foi, depois, membro da francofonia. A seguir ao genocídio e estabelecido um Governo estável, o país virou-se para a Commonwealth, a comunidade dos países de língua inglesa.Após o genocídio, nunca mais as relações entre os dois países foram as  mesmas.

Progresso económico

O país viveu uma grande recuperação social e, hoje, apresenta um modelo de desenvolvimento que é considerado exemplar para países em desenvolvimento. Em 2009, uma reportagem da rede de notícias CNN classificou o Rwanda como tendo a história de maior sucesso do continente, alcançado estabilidade, crescimento da economia (o rendimento médio triplicou nos últimos dez anos) e integração internacional.
Em 2007, a revista “Fortune” publicou um artigo intitulado “Why CEOs Love Rwanda” (Por que os CEOs amam o Rwanda, em tradução livre).
A capital, Kigali, é a primeira cidade africana a ser galardoada com o Habitat Scroll of Honor Award, em reconhecimento da sua “limpeza, segurança e conservação do modelo urbano”.
Em 2008, o Rwanda tornou-se no primeiro país a eleger uma legislatura nacional, constituída maioritariamente por mulheres. O Rwanda aderiu à Commonwealth of Nations em 29 de Novembro de 2009 como seu quinquagésimo quarto membro, fazendo do país um dos apenas três membros sem um passado colonial britânico.

Conflitos regionais resolvidos
Angola acolheu a Cimeira Quadripartida, que juntou os Presidentes João Lourenço, Félix Tshisekedi, Paul Kagame e Yoweri Museveni, na qual foi assinado um princípio de acordo que visava a cessação da tensão militar ao longo da fronteira comum entre o Rwanda e o Uganda.
O Rwanda e o Uganda conseguiram um acordo neste sentido, através da mediação de Angola, assistida pela República Democrática do Congo.
Os dirigentes da Região dos Grandes Lagos abordaram a questão ligada à segurança regional, cooperação e ao reforço dos laços entre os quatro países, no quadro dos mecanismos de concertação multilateral.
Indiscutivelmente, a questão fulcral do novo encontro de Luanda prende-se com o dirimir do conflito latente na fronteira entre o Rwanda e o Uganda, que ameaçava incendiar, mais uma vez, aquela região africana, acto que será atentamente seguido por observadores internos e externos interessados na estabilização definitiva daquela zona do continente, que vive conflitos armados há várias décadas.
Um outro encontro na região de Katuna-Gatuna, na fronteira comum Rwanda/Uganda, reforçou os mecanismos de cooperação entre dois velhos rivais político-diplomático.

 

A história do massacre que mudou o “País das Mil Colinas”

 

Há 26 anos, a 7 de Abril, o maior genocídio no continente africano independente acontecia no Rwanda. Os comentários irresponsáveis de um locutor de uma rádio comunitária a incitar a violência dos Hutus contra a minoria Tutsi (grupos étnicos rivais) precipitava um conflito que matou cerca de 800 mil pessoas, maioritariamente da minoria étnica Tutsi, do actual Presidente Paul Kagame.

Desde 1994 que o país chora as vítimas do genocídio que já inspirou a Sétima Arte, com o filme Hotel Rwanda (com Don Chiedle e Lupita Nyongo), rodado na África do Sul. Há três anos, uma semana após a abertura das cerimónias, ainda foram registados dois ataques entre pastores de gado por causa da morte de duas vacas.
O genocídio de Rwanda, também conhecido como genocídio tutsi, foi um massacre em massa de pessoas dos grupos étnicos tutsi, twa e de hutus moderados que ocorreu entre 7 de Abril e 15 de Julho de 1994 durante a Guerra Civil.
O genocídio foi organizado por membros da elite política principal dos hutus, muitos dos quais ocupavam cargos nos níveis mais altos do Governo nacional. A maioria dos historiadores concorda que um genocídio contra os tutsis tinha sido planeado por pelo menos um ano.
No entanto, o assassinato do Presidente Juvénal Habyarimana, a 6 de Abril de 1994, criou um vazio de poder e encerrou os acordos de paz. Os assassinatos genocidas começaram no dia seguinte quando soldados, polícias e milícias executaram líderes políticos e militares tutsis e hutus moderados.
A escala e a brutalidade do massacre causaram choque em todo o mundo, mas nações ocidentais como Bélgica, França, Estados Unidos e outros são acusadas de ignorar o massacre.
A maioria das vítimas foi morta em suas próprias aldeias ou cidades, muitas pelos vizinhos e companheiros de aldeia. Grupos hutus procuravam vítimas escondidas em igrejas e edifícios escolares. A milícia assassinou vítimas à catana e espingardas. Cerca de 70 por cento da população tutsi foi dizimada. A violência sexual acompanhou o massacre. Entre 250 mil e 500 mil mulheres terão sido estupradas durante o genocídio.
O massacre terminou com a vitória militar da Frente Patriótica do Rwanda.
O genocídio teve efeitos duradouros e profundos no país e nos estados vizinhos. Actualmente, o país tem dois feriados para lamentar o genocídio, e a negação ou revisionismo histórico do genocídio é uma ofensa criminal.

 

 

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