Opinião

Novembro lê e escuta

Luciano Rocha

Jornalista

Novembro, mês de todas as esperanças, finado, ontem, em termos de folhas de calendário, arrancadas, uma a uma, durante trinta dias, ouviu e leu coisas acertadas, mas, também, dispensáveis que o fizeram corar.

01/12/2022  Última atualização 06H00
O cenário repete-se ciclicamente desde a noite em que "a África e o mundo” foram informados  do nascimento de um país chamado Angola fruto de doloroso parto, tantas foram as tentativas de aborto.

O Novembro voltou, ontem, a recolher-se, como faz, ciclicamente, desde aquela noite mágica de todas as nossas esperanças. Na altura, a maioria de nós sequer se deu tempo para pensar nos contratempos guardados para nos pôr à prova. Por isso não os vimos - "pior cego é o que não quer  ver” -, apesar das evidências que nos cercavam. Sublimes, talvez, mas já presentes: bajulação, culto da mediocridade, enfatuamento, egocentrismo, egoísmo, favoritismo, nepotismo, oportunismo, racismo. Enfim, tudo o que contrariava o princípio basilar "de Cabinda ao Cunene, do Mar ao Leste, um só Povo, uma só Nação”.Interiorizado e defendido, desde as ocupações estrangeiras, por tantos dos nossos combatentes da liberdade. Nas matas e savanas, essencialmente, com armas na mão ; nas cidades e vilas através da consciencialização política em reuniões clandestinas, encontros aparentemente ao acaso, distribuição de panfletos, palavras de ordem pintadas nas paredes. 

Aquela máxima - "de Cabinda ao Cunene, do Mar ao Lesta, um só Povo, uma só Nação " - foi fundamental, em ocasiões e inimigos diferentes , para a manutenção da integridade nacional, mas, por si só, insuficiente para concretização do resto do sonho da construção da Pátria sonhada, na qual as pessoas não se dividem em ricos e pobres. Já tínhamos Bandeira e Hino próprios, mas faltava o resto, o fim das diferenças sociais. Já então, tido como algo de somenos por uns quantos. Não tantos como agora, é facto, mas já com trejeitos  a revelarem egoísmos e vontades de substituírem os ex-ocupantes mais endinheirados. Não lhes interessava como. Talvez por isso, Agostinho Neto, pouco tempo antes de morrer, deixou, em jeito de "testamento”, o alerta: "o mais importante é  resolver os problemas do povo”. 

 Ocorrências diversas, como as guerras que se arrastaram, consentiram o despontar de desejos antigos: assaltos ao erário, bajulações, egocentrismos, indiferenças face à miséria, necessidades doentias "de aparecer”, palavreados sem nexo,  promoções do culto de mediocridades e do nepotismo em resumo, entraves ao desenvolvimento.

Neste Novembro terminado, ontem, em termos de calendário, também dedicado a Neto, disseram-se e fizeram-se, insista-se, em abono da verdade, coisas acertadas, mas outrossim, dispensáveis por revelarem falta de conhecimentos básicos sobre as comemorações em si, a temas alheios ao mês e ao homenageado. A vontade doentia de aparecer, dar nas vistas custe o que custar, mostrou à evidência as fragilidades, a todos os níveis, do nosso ensino.

Neste mês finado ontem, ao cair da última folha do calendário que lhe limita o tempo, disseram-se, repita-se para evitar interpretações avulsas mal-intencionadas, coisas acertadas, mas, também absurdas. Novembro não merecia isso. Sequer Neto, o Chefe de Estado, tão-pouco o intelectual, que também era, o poeta ou o combatente pela liberdade.      

Novembro volta à ribalta daqui a um ano. Espera-se que, entretanto, os problemas do povo ainda existentes tenham desaparecido. Até por não exigirem verbas avultadas, apenas boa vontade e senso de igual dimensão. Dispensam-se actos de violência, conferências de imprensa a anunciar o que já devia - podia - ter sido feito, cortejos, festas, entrevistas, fotos, filmagens. Plagiando o segundo Presidente angolano depois de Neto, o tempo "é de trabalhar mais e falar menos”.

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