Sociedade

Novas ligações levam água a milhares de cidadãos no Uíge

António Capitão | Uíge

Jornalista

Um amontoado de roupa no chão. Morneza Lufuankenda prepara-se para “trumunar a vestimenta. Já tem disponível uma tábua de lavar, banheiras com água, detergentes em pó e sabão.

25/11/2020  Última atualização 19H45
O município do Uíge, vai ter 50 mil novos consumidores © Fotografia por: António Capitão | Edições Novembro
A jovem está satisfeita, porque a água vai deixar de ser um problema para os moradores da zona 2 do bairro Papelão.  "Não imaginam o quanto é difícil lavar a roupa. Primeiro tenho de encher o tambor com água, num enorme sacrifício de ida e volta, com a banheira à cabeça, até à cacimba, e depois fico o resto do dia a lavar na tábua. 
Mas agora que vamos ter água ao domicílio, esta tarefa vai ficar bem mais facilitada", referiu. Segundo a moradora, além da implementação do projecto ter demorado muito a chegar ao seu bairro, o mais importante é ver que o Executivo continua atento aos reais problemas que afectam as populações locais.
Outra moradora do Papelão, Margarida Marques, saltava de alegria com a presença de técnicos da Empresa de Águas e Saneamento do Uíge (EASU-EP) no bairro. A jovem de 26 anos é a que mais sofre com a falta de água em casa. Diariamente, enche um reservatório de 60 litros. 
A cacimba, onde busca o precioso líquido, fica a quase um quilómetro da sua residência. "Há mais de 16 anos que sou a responsável por colocar água em casa. Sou a menina mais velha de todas. Com as ligações que estão a fazer, meu sofrimento vai acabar", anunciou.

Residente no bloco 3 da Zona 2 do bairro Papelão, o taxista João Ambrósio, 40 anos, arranja sempre algum tempo para ir à casa do irmão, no bairro Dunga, onde abastece em média quatro bidões de 20 litros de água cada, para cozinhar, cuidar da higiene corporal, limpeza da residência e dos utensílios domésticos.
"Para não castigar as crianças a percorrerem longas distâncias para acarretarem água nas cacimbas, tenho de interromper, todos os dias, por um período de duas horas, a minha actividade de táxi, para ir buscar água na casa do meu irmão, que vive no Bairro Popular", disse.
Em 2012, na cidade do Uíge e arredores, o Ministério da Energia e Águas deu início a um projecto de melhoria do abastecimento de água à população, com a modernização da estação de captação, tratamento e distribuição, e a instalação de 19 mil ligações domiciliárias.

Nos bairros onde o projecto já foi implementado, como o Popular, Candombe Velho, Candombe Novo, Mbemba Ngango, Pedreira, Popular, e no centro da cidade do Uíge, a vida dos moradores melhorou significativamente. Hoje, as distâncias que percorriam para acarretar água nas cacimbas fazem parte do passado. Acabou o sofrimento.
Agora, tudo está a ser feito para que o produto chegue a mais localidades do município do Uíge, nomeadamente, nos bairros Novo, Tomessa, Quimacungo, Caquiúia, Papelão e na zona suburbana do Mbemba Ngango, que não foram contempladas na primeira fase, por insuficiência de recursos financeiros.

Na zona 2 do bairro Papelão, o soba da localidade, Baptista Basílio, destacou a implementação do projecto de 662 ligações, para o fornecimento de água potável na localidade. "Este projecto é bem-vindo, porque vai beneficiar a população desta zona e de outros bairros onde o mesmo será implementado. A água das cacimbas provoca várias doenças e mortes, sobretudo quando surge a cólera”, referiu.

  Projecto para mais de 50 mil habitantes

O governador provincial do Uíge, José Carvalho da Rocha, procedeu, há dias, ao lançamento da empreitada que visa expandir 100 quilómetros da rede de distribuição de água nos bairros Novo, Tomessa, Quimacungo, Caquiúia, Quilala, Catapa, Papelão, e na zona suburbana do bairro Mbemba Ngango, onde serão efectuadas 10 mil ligações domiciliárias para beneficiar 52 mil habitantes.
No bairro Novo, vão ser feitas 567 ligações, no Tomessa de Kimakungo 776, Caquiúia 662, Papelão 3.307, Mbemba Ngango 2.457, Quilala 1.035, e Catapa 1.196.  A empreitada, orçada em mais de 1,6 mil milhões de kwanzas, além dos trabalhos de construção da rede de distribuição e ligações domiciliárias em áreas periurbanas da cidade do Uíge, contempla, também, acções de abertura de valas e movimentação de terras, soldadura e ligação de tubagens, instalação decontadores, betonagem e caixas de visitas, limpeza e desinfecção dos tubos. 
"Vamos, com este acto, procurar resolver um dos problemas mais candentes da população. Sabemos que a água é vida e, quando se aposta numa produção e distribuição de qualidade, estaremos a evitar muitas doenças", sublinhou o governador do Uíge, pedindo de seguida maior fiscalização das obras, por parte dos moradores destes bairros, no sentido de não permitirem que os equipamentos instalados sejam vandalizados.

A Presidente do Conselho de Administração da Empresa de Águas e Saneamento do Uíge (EASU-EP), Emília Dias Fernandes, disse que as 10 mil novas ligações domiciliares a serem implementadas em vários bairros da sede provincial do Uíge, fazem parte do projecto iniciado em 2012, que previa 30 mil ramificações em moradias. Apenas 19 mil ficaram concluídas até finais de 2016.
Segundo a responsável as primeiras 700 ligações domiciliares, do total de 10 mil, podem ficar concluídas em Março ou Abril do próximo ano. Com estes trabalhos, disse, estamos a concluir a nossa meta de colocar água potável em todos os bairros do município do Uíge, para permitir que o produto chegue em melhores condições a mais de 50 mil habitantes.

Sistema de captação

Emília Dias Fernandes anunciou que está em curso a realização de um concurso público para a construção de um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água à cidade do Uíge. O actual sistema não suporta a demanda, devido ao crescimento exponencial da população e o surgimento de novos bairros.
O novo sistema de captação, tratamento e distribuição à cidade vai poder transportar, a partir da fonte, e armazenar na Estação de Tratamento de Água (ETA) cerca de 15 milhões de metros cúbicos de água, contra os actuais 600 mil metros cúbicos da capacidade existente.

"O número de habitantes, na cidade do Uíge, tem crescido muito, e os cerca de 600 mil metros cúbicos produzidos já não são suficientes para atender a demanda populacional. Por isso, lançamos um concurso público para a contratação da empresa que vai construir um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água, com capacidade para 15 milhões de metros cúbicos", confirmou.

Emília Fernandes disse que a EASU-EP, em parceria com a Empresa Interbancária de Serviços (EMIS) vai lançar, nos próximos dias, o pagamento do consumo de água na rede multicaixa, evitando, desta forma, as enchentes de clientes no único balcão de atendimento ao público, e conferir maior disponibilidade, poupança de tempo e forma alternativa de pagamento aos consumidores.
Para que a EASU-EP continue a implementar novos projectos que permitam fazer chegar a água potável a mais localidades da província do Uíge, a Presidente do Conselho de Administração da empresa pública de águas disse ser necessário que os clientes cultivem o hábito de pagamento das suas facturas, permitindo assim que o Estado arrecade mais receitas, a fim de melhorar a qualidade e aumentar a quantidade de água a ser fornecida às populações locais.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Sociedade