Opinião

Novas formas de formação

Sousa Jamba

Jornalista

A formação dos jovens está a ser levada muito a sério em vários países africanos. Estou na Zâmbia, na cidade de Kitwe, perto da fronteira com a República Democrática do Congo (RDC). No outro dia, num centro comercial, notei a presença de muitos jovens a falarem em francês e Inglês; soube que são filhos de congoleses enviados para a Zâmbia por causa do seu sistema de educação, que é muito melhor que o da RDC.

11/09/2021  Última atualização 05H35
Só nos últimos dez anos, a Zâmbia teve sete novas universidades; há departamentos dessas universidades — Engenharia, Medicina, Arquitectura — que são tão bons que têm formado pessoal que são empregados em várias partes do mundo.

Não é apenas uma questão de formados que vieram de universidades; existe também a questão de uma cultura que valoriza a divulgação do conhecimento ou do saber. Encontrei-me recentemente com uma senhora aqui na Zâmbia que tinha cebolas que poderiam ganhar prémios numa feira de agricultura. Ela disse-me que cultivava a cebola no seu quintal, usando esterco de galinha; no seu celular havia vários clipes de várias partes do mundo de como cultivar cebola, tomate, pimenta, etc.

Não longe daquele local havia um pequeno restaurante famoso pela sua galinha fumada; a senhora me disse que tinha aprendido a fórmula de uma senhora no Sul dos Estados Unidos, que postava as suas criações culinárias no Youtube.
 Em Angola, vamos ter que superar as limitações que o português impõe, dando ênfase na formação do Inglês; as crianças vão ter que aprender muito cedo a língua de Shakespeare, como nos países escandinavos.

Viajei recentemente pelo Leste de Angola (Luena, Lumbala Nguimbo, Ninda) e notei,  que mesmo nas aldeias remotas as pessoas tinham parabólicas. Curiosamente, havia, também, cabos de fibra óptica da UNITEL; o cabo da UNITEL vai até Malundo, na fronteira com a Zâmbia. Quando vi a presença da UNITEL naquelas aldeias, a minha primeira impressão é que as coisas não estavam certas. Estávamos numa aldeia sem escola, sem posto médico, sem uma estrada digna desse nome, mas com fibra óptica da UNITEL. Depois de alguma reflexão ocorreu-me que isso poderia, também, representar uma grande oportunidade , como ficou bem clara na Zâmbia.

Aqui, a internet é barata; os zambianos lamentam que no Rwanda a internet  seja mais acessível e que quase noventa e cinco por cento da população têm acesso à internet 4G. Estamos a falar de um nível de acessibilidade que se encontra nos países Bálticos.
E isso traz-me à memória a questão da formação usando as novas tecnologias. Na Aldeia Camela Amões, onde eu estava envolvido num programa de formação de jovens das aldeias circundantes, tínhamos o plano de dar celulares para cada aldeia.

O professor gravava a lição num local, enviava a mesma através do WhatsApp, e de vez em quando os alunos iriam juntar-se num local para discutir a matéria. O ensino da Matemática, por exemplo, tinha mesmo que ser prático; os aldeões tinham que ver como o conhecimento desta disciplina iria melhorar a sua qualidade de vida. Claro que para isso os aldeões tinham, também, que estar envolvidos — o que não é fácil. Um dos problemas é o conservadorismo das aldeias; os sobas, os mais velhos e outros nem sempre estão confortáveis com iniciativas que, no seu ponto de vista, podem minar a sua autoridade.

A introdução do ensino nas aldeias, através das novas tecnologias, poderia, por exemplo, ser efectuado por intermédio de organizações religiosas. Em Saurimo, na Lunda-Sul, assisti a um culto numa aldeia em que todos estavam sentados em troncos e eu (sendo um VIP corpulento) por cima de duas cadeiras de plástico.

O pregador citou um livro na Bíblia e eu tirei o meu celular; o resto da congregação tinha que seguir ouvindo, porque muitos não sabiam ler. Senti-me muito mal. Interroguei-me na altura porque razão é que não se podia inventar um aplicativo para alfabetização em várias línguas? Para isso ser possível, haveria a necessidade do envolvimento de várias partes interessadas. Também haveria a necessidade de um diálogo honesto e criativo.

A grande falha nisso tudo é que tem havido alguma ilusão de certas pessoas que pensam que podem resolver tudo. Construir um gigantesco edifício numa área rural e designar a mesma como escola não resulta, necessariamente, na elevação académica do povo da aldeia. Entretanto, um programa de alfabetização bem pensado e criativo pode servir como uma base sólida para estimular uma cultura que preza o saber.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião