Reportagem

Novas estradas fazem sonhar em dias melhores

A requalificação de importantes ruas do casco urbano e a construção de novas estradas na cidade de Moçâmedes, num total de 90 quilómetros, estão a criar impacto sobre a vida dos seus habitantes.

02/08/2021  Última atualização 07H57
© Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
 É uma das empreitadas mais caras a nível dos 164 municípios de Angola, no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), orçada em quase oito mil milhões de kwanzas.


Não é por acaso que teve de ser o Chefe de Estado a dar luz verde, através do Despacho Presidencial 130/20, de 22 de Setembro, para que o Governo Provincial do Namibe assumisse a responsabilidade de contratar as empresas de construção e fiscalização da referida obra.

No concurso público, realizado em finais de 2020, a construtora Status saiu-se melhor, a par da fiscal Soapro, e, em Fevereiro, as duas empresas puseram mãos à obra, originando uma movimentação de homens e máquinas nunca antes vista em bairros como o da Juventude, 5 de Abril, Saidy Mingas e Valódia.

A notícia sobre o projecto de construção e requalificação de arruamentos na cidade de Moçâmedes – que inclui também dez quilómetros de estrada do casco urbano do Tômbwa – foi recebida com expectativa pelos habitantes, mas também com um misto de surpresa e até mesmo cepticismo por alguns que optam sempre pela teoria do "ver pra crer”. Porém, muitos se permitem a sonhar com dias melhores na circulação rodoviária e mobilidade urbana na capital da província.
Feliciano Tchombe reside no centro da cidade e comercializa equipamentos electrónicos no mercado do 5 de Abril há mais de quatro anos. Conta que um dos principais transtornos à sua actividade é o movimento frenético na única estrada asfaltada que liga a cidade àquele bairro periférico para chegar até ao maior mercado informal da província. "Uma vez, fui abalroado por uma moto-táxi e só não morri por sorte; agora até tenho medo de apanhar moto”, revela. Para ele, os trabalhos de arruamento e asfaltagem de novas vias de acesso vão garantir a diminuição de acidentes de viação naquela estrada.

Adélia Quissua, professora do ensino primário, ganhou uma residência na centralidade da Praia Amélia durante o último sorteio, que aconteceu a 22 de Junho. Confessa que preferia ter ganho na centralidade do 5 de Abril, porque tem receio de passar na única estrada que dá acesso à Praia Amélia. "É uma estrada estreita e antiga, bastante perigosa”, refere. Agora, ela ficou a saber que uma nova estrada está a ser construída para fazer a ligação entre a centralidade e o resto da cidade, e diz que já vai poder respirar de alívio.

A referida estrada começou a ser executada na última semana e faz parte da frente aberta no bairro Valódia. De acordo com o arquitecto Carlos Caseiro, director provincial do Gabinete de Infra-estruturas e Serviços Técnicos, esta será uma via estruturante com dois sentidos separados por um espaço de um metro, cada com duas faixas de rodagem, seis metros de largura e passeios de um metro e meio. Serão seis quilómetros e duzentos metros de estrada asfaltada, construção de passeios, aplicação de lancis e de sinalização vertical e horizontal, com início no entroncamento da Avenida 11 de Novembro, também conhecida como rua do Pavilhão Welwitschia Mirabilis, até a centralidade da Praia Amélia, atravessando o coração do periférico bairro Valódia.

"Neste momento, queremos priorizar este troço para garantir um melhor tráfego rodoviário à população que vive na Praia Amélia. Por isso, estamos a colocar já a sub-base na nova via que vai ligar a centralidade ao resto da cidade”, disse.


Os bairros abrangidos

Para o Valódia está prevista a construção de novas ruas, num total de 26 quilómetros, bem como a requalificação de ruas já existentes e trabalhos de tapa buracos em mais 4,5 quilómetros. É um dos bairros que mais cresceu na última década, período em que a administração local atribuiu vários lotes destinados à autoconstrução e ergueu infra-estruturas como escolas e postos de saúde. Projectos habitacionais como a Vila Celeste, Nosso Zimbo (condomínio das Finanças), entre outras infra-estruturas públicas e privadas, foram erguidos naquela importante zona de expansão de Moçâmedes. 


Já para o bairro 5 de Abril, considerado o mais populoso do Namibe, as obras tiveram início há mais tempo e o projecto prevê a construção de 20 quilómetros de estradas, requalificação de três quilómetros de ruas existentes e trabalhos de tapa-buraco em dois quilómetros de estrada. O bairro Saidy Mingas Dois está contemplado com nove quilómetros de estrada. Aqui, os trabalhos também estão em andamento e os moradores sentem já uma certa diferença na circulação rodoviária.

O bairro da Juventude, na localidade do Saco Mar, foi o local escolhido para o lançamento da primeira pedra do projecto de construção e requalificação de arruamentos no município de Moçâmedes, no âmbito do PIIM. Com cerca de 200 habitações, o bairro, que existe desde 2012, vai ter agora todas as ruas e avenidas asfaltadas, num total de nove quilómetros, que se estendem até ao velho Saco Mar, desembocando na estrada que dá acesso ao Porto Mineiro.
 
Além destes bairros, o projecto inclui trabalhos de tapa-buracos no casco urbano da cidade de Moçâmedes, compreendendo os bairros dos Cubanos, Saidy Mingas Um, Espírito Santo, Castanheiras, Popular, Kassanji e Mandume, com um total de 21 quilómetros, bem como a construção de novas estradas, com uma extensão de três quilómetros.
A vila piscatória do Tômbwa faz parte do pacote com a construção de cinco quilómetros de novos arruamentos, requalificação de oito quilómetros de ruas já existentes e trabalhos de tapa-buracos em dois quilómetros de estrada. O projecto contempla a aplicação de passeios em todos bairros abrangidos.


Asfalto mais barato

Os trabalhos de construção e resselagem de estradas nos municípios de Moçâmedes e do Tômbwa estão a ser executados em TSD (tratamento superficial duplo) que, de acordo com o director provincial de Infra-estruturas e Serviços Técnicos, é menos oneroso e o que melhor se adapta às condições ambientais das referidas localidades.

"O tratamento superficial duplo, ou TSD, é tão eficaz como o asfalto a quente e adapta-se bem a terrenos como este. A grande diferença está no preço: O TSD é muito mais barato, quer na sua aplicação, quer nos trabalhos de manutenção da mesma”, disse, explicando que este tipo de pavimentação consiste em duas aplicações de ligantes asfálticos e agregados minerais na pista, submetidas à compactação.

A construção dos novos arruamentos, de acordo com dados fornecidos pelo dono da obra, inclui trabalhos de aplicação de camada de sub-base e base em tout-venant natural, numa espessura média de 15 centímetros, incluindo transporte, aplicação, espalhamento, rega, compactação e TSD, com aplicação de rega de impregnação com asfalto diluído MC-30, à taxa de 1,2 litros por metro quadrado.


Já os trabalhos de tapa buracos compreendem a aplicação de uma camada de revestimento betuminoso impermeabilizante, conhecido como "Slurry Seal”, à taxa de oito quilogramas por metro quadrado, com aplicação de emulsão ECL2, pó de pedra, cimento, água e aditivo.

 Drenagem de águas pluviais

Sobre esta empreitada, a engenheira de construção civil, Celênia Carmén, considera importante que haja vias alternativas para os automobilistas, evitando que estes, sobretudo os taxistas, continuem a circular nas ruas em que se encontra o empreiteiro, prejudicando todo o trabalho. Defende também que haja mais placas de sinalização nas frentes em que decorrem os trabalhos, referindo que existe pouca informação disponível aos cidadãos sobre o referido projecto.

Especialista em infra-estruturas rodoviárias, Celênia Carmén disse estar preocupada com a ausência, neste projecto, de uma solução concreta para a drenagem das águas residuais e pluviais. "O facto de chover pouco nesta região não deve ser visto como uma desculpa para não incluir no projecto a construção de valetas ou esgotos”, refere, criticando igualmente a falta de um plano de arborização na mesma empreitada.

    
O director provincial de Infra-estruturas e Serviços Técnicos, Carlos Caseiro, desdramatizou o assunto, referindo que há vários tipos de drenagem e que as inclinações das estradas em construção vão garantir o escoamento das águas pluviais.


"O que estamos a fazer é seguir a morfologia do terreno; o mais importante é garantir que as águas não sejam acumuladas num determinado ponto. Em situações extremas, aí sim, teremos de fazer outro tipo de drenagem”, disse, referindo que a drenagem subterrânea para esta região arenosa tem-se revelado ineficaz, porque as tubagens ficam entupidas de areia.


Carlos Caseiro recordou que foram construídas estações de tratamento de águas residuais em algumas zonas, como nas centralidades da Praia Amélia e do 5 de Abril, referindo que futuramente todos os bairros estarão conectados com as referidas infra-estruturas.


Quanto à arborização, o arquitecto disse que optou-se por deixar espaço fora dos passeios para que os moradores, apoiados pela administração local, Instituto de Desenvolvimento Florestal e outras entidades afins, façam a plantação de árvores. "Em todas as vias, temos um espaço enorme nas laterais para plantação de árvores, aplicação de postes de iluminação pública, passagem de fibra óptica e demais redes técnicas”, referiu.

Perigo de acidentes
O sociólogo Ildeberto Madeira apelou aos automobilistas de Moçâmedes a fazerem uso correcto das vias rodoviárias, advertindo para um risco de aumento de acidentes de viação com a construção de novas estradas.

Contactado pela nossa reportagem, Ildeberto Madeira disse reconhecer que existem muitas lacunas no que toca à formação de condutores no país, o que origina desobediência às regras de trânsito, e, associada a isso, está a fraca capacidade de fiscalização por parte da Polícia de Viação e Trânsito.
Activista dos direitos humanos e ambientais, Ildeberto Madeira é de opinião que se façam testes psicológicos por ocasião dos exames para obtenção da carta de condução, para que se reduzam os altos índices de acidentes nas estradas de Angola. Por outro lado, defende que os novos arruamentos devem garantir espaço suficiente para que os camiões de recolha de lixo possam fazer o seu trabalho sem grandes constrangimentos.

"Deve-se fazer uma análise de como se vai recolher o lixo; será que as estradas em construção nos bairros periféricos vão ter largura suficiente para deixar passar os camiões de lixo?”, questionou.

Outro assunto levantado pelo sociólogo, de 78 anos, tem a ver com a toponímia da capital do Namibe, com ruas dos novos bairros periféricos sem qualquer denominação e outras do casco urbano com nomes que prestam homenagem a figuras coloniais.

"Não se compreende o porquê de voltar a dar o nome de Moçâmedes a esta cidade, quando se sabe que o tal Barão de Mossâmedes foi um colono que levou milhares de angolanos como escravos para trabalhar nos campos de cultivo do Brasil”, lamentou, referindo que o nome de Namibe para a capital da província, em homenagem ao deserto mais antigo do mundo, estava melhor aplicado.

Vladimir Prata | Moçâmedes

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