Sociedade

Novas doenças ligadas ao desmatamento

A ocorrência regular de novos surtos, epidemias e pandemias provocadas por novos agentes endémicos ao ser humana está ligada às mudanças climáticas provocadas pela acção da nossa espécie sobre a Natureza, afirmam cientistas em todo o Mundo.

05/06/2020  Última atualização 12H52
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Novos vírus surgem e outros antes conhecidos voltam a atacar com força redobrada. As principais vítimas são populações e comunidades mais vulneráveis.

Marcio Mastrini, secretário-executivo do Observatório do Clima da Global Forest Watch, organização que usa dados da NASA, do Google e do Serviço Geológico dos Estados Unidos, em monitoramento por satélite, feito pela Universidade de Maryland (EUA), afirma que “Quanto mais avançamos na floresta, maior o risco de ter novas zoonoses”, e, atendendo ao desmatamento acentuado das florestas virgens, o surgimento de novos vírus é só uma questão de tempo.

“Não se trata de quando isso vai ocorrer se continuarmos a avançar na floresta”, disse, citado pela BBC Brasil. Em resposta às afirmações de determinados políticos daquele país, nomeadamente do Presidente Jair Bolsonaro, que chegou a considerar a Amazónia propriedade brasileira, Arsini afirmou que nada justifica ser o Brasil o maior responsável pela destavação por ter a maior floresta do Mundo.

“Ter mais florestas é um privilégio, ter mais desmatamento é um problema. Isso deprecia a nossa imagem como país”, avaliou o cientista. Segundo ele, o Brasil deveria cuidar do património. “É nosso, mas afecta o planeta inteiro. Isso é péssimo para as mudanças climáticas. Sem preservar a Amazónia, podemos perder essa luta”, lamentou o ambientalista brabileiro.

A Global Forest Watch aponta que, no ano passado, o Brasil perdeu cerca de 1,3 milhão de hectares (13.610 km²) de floresta primária tropical, área maior que a cidade australiana de Sidney. Noventa e cinco por cento da perda de florestas virgens no Brasil ocorreu na Amazónia.

No mundo, foram desmatados 3,8 milhões de hectares de florestas virgens. Em segundo lugar aparece a República Democrática do Congo, com uma redução de 475,2 hectares, e em terceiro vem a Indonésia, com 323,6 mil hectares.

O desmatamento em 2019 deveu-se, sobretudo, a incêndios, desflorestação para explorações agropecuárias e imobiliário. A Bolívia vem em quarto lugar, com 290,4 mil hectares.

Nível de desmatamento

O nível de devastação das florestas virgens tropicais em 2019, foi de um campo de futebol a cada seis segundos.Os cientistas reforçam que o desmatamento vai muito além do abate das árvores.

As florestas tropicais são os ecossistemas mais ricos do planeta. Elas abrigam cerca de metade da biodiversidade do mundo e cerca de dois terços da sua biodiversidade terrestre. Falar em conservação da biodiversidade mundial passa necessariamente pela conservação dessas florestas, frisam.

Preservar as árvores

Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, explica que “medir o desmatamento é importante, porque as florestas primárias são muito mais ricas e diversas em biodiversidade”. Uma floresta é muito mais do que as suas árvores. É o produto de todos os processos e interacções entre milhares de espécies de plantas e animais que coexistem ali.

“Muitas pessoas acham que, para compensar o que perdemos na Amazónia, basta plantar árvores noutros lugares. Mas isso está errado”, afirmouErika Berenguer, especialista em florestas tropicais da Universidade de Oxford. Uma árvore grande (com pelo menos três metros de circunferência) pode armazenar cerca de 3 a 4 toneladas de carbono, o equivalente a cerca de 10 a 12 toneladas de dióxido de carbono - ou a média que um carro de passeio emite durante quatro anos.

Actividade humana

O desmatamento, processo de desaparecimento completo e permanente de florestas, que acontece principalmente fruto de actividades humanas, acompanha a Humanidade ao longo dos anos.

Ele está ligado a outros problemas, como a pobreza, a ausência de parâmetros seguros para a posse da terra e de reconhecimento adequado das necessidades dos povos indígenas e comunidades tradicionais dependentes exclusivamente das florestas, políticas públicas inadequadas ou claramente predatórias e subvalorização dos produtos florestais e serviços ambientais.

Decorre ainda da falta de participação popular nas medidas de controle, falta de boa governação, oposição do modelo económico prevalente, contrário aos princípios do manejo sustentável, comércio ilegal, falta de meios e capacidade dos países e comunidades para reverter o quadro, ausência de cooperação internacional realmente efectiva.

António Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil, refere que “Falar só de desmatamento, quando falamos da destruição da Amazónia, é o que chamo de a grande mentira verde”.

“A perda de floresta amazónica até hoje é muito maior do que os quase 20% de desmatamento dos quais se fala nos meios de comunicação”, acrescentou.

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