Cultura

Nova edição de antologia poética finalmente lançada em Angola

Analtino Santos

Jornalista

O secretário-geral da UEA, David Capelenguela, deu as boas-vindas nos seguintes termos: “o meu muito obrigado aos autores da obra pela escolha da nossa sede, num dos momentos mais difíceis da nossa existência, com os trabalhadores há mais de 20 meses sem salário. O nosso orgulho foi a insistência do Cassé e da Irene para que o acto acontecesse aqui, o que é prestigiante para a nossa Casa”.

17/10/2021  Última atualização 09H05
Rafael Tati| edições novembro © Fotografia por: DR
"Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor” é considerada a mais abrangente, plural e livre antologia de poesia angolana. Está   dividida em três períodos: Oral, com a transcrição de poemas em umbundu, kimbundu, kikongo e kwanhama; Os Precursores, referente aos séculos XVII, XVIII e XIX; e Poetas da Modernidade e Contemporaneidade (continuidade e descontinuidade), enquadrados nos séculos XX e XXI). Foi feita uma pesquisa cuidada, com grande preocupação na ordem cronológica e comparativa, permitindo desta forma um olhar sociológico, sociocultural e outras leituras do imaginário angolano.


É possível encontrar na antologia textos poéticos de Luís Feliz Cruz, Jorge Rosa,  Agostinho Neto, Alda Lara, Viriato Cruz, Mário António, Ruy Duarte de Carvalho, Jorge Macedo, Mário Pinto de Andrade, Manuel Rui, Henrique Abranches, Lopito Feijó, Frederico Ningi, Ana Paula Tavares, Amélia da Lomba, Ana de Santana, José Luís Mendonça, Jimmy Rufino, Pombal Maria, Bendinho Freitas, Job Sipitali, Hélder Simbad, Nguimba Ngola e muitíssimos outros. Todos os movimentos literários que emergiram na história da literatura angolana estão representados. 


"Testemunhamos hoje o lançamento da segunda ou, talvez, terceira edição de uma antologia cuja estrutura e história não me são estranhas, já que na sua primeira edição, datada de 1976, a pessoa que vos fala era estudante liceal na cidade de Benguela”, começou por dizer Luís Kandjimbo. "Trata-se de uma antologia histórica, por razões que têm a ver com o facto de a professora Irene Guerra Marques, a minha amiga Irene, ser a pioneira no que diz respeito aos fundamentos metodológicos do ensino da Literatura Angolana”. 


O crítico e ensaísta acentuou que o pioneirismo de Irene Guerra Marques "tem o seu momento seminal em 1975, quando, no âmbito do processo de descolonização de Angola e dos Acordos do Alvor, foi constituído o Governo de Transição integrado pelos três movimentos de libertação (FNLA, MPLA e UNITA), tendo sido o Ministério da Educação e Cultura entregue aos cuidados do Dr. Jerónimo Wanga da UNITA. Nessa altura, Irene Guerra Marques organizou os primeiros materiais didácticos produzidos para o ensino da língua portuguesa e da literatura angolana no ensino secundário”.

Naquele contexto, prosseguiu, "a obrigatoriedade de leitura dos textos seleccionados tornava insubstituíveis as propostas de Irene Guerra Marques e sua equipa”, pelo que era com esses textos que "a maioria dos estudantes do ensino secundário fazia a sua iniciação à leitura de textos literários angolanos”.
O contacto com esses textos, segundo Kandjimbo, viria a revelar-se decisivo, "na medida em que com a proclamação da independência em Novembro de 1975 e a constituição da União dos Escritores Angolanos em Dezembro do mesmo ano, a Literatura Angolana registaria o seu primeiro boom editorial”.


Em 1976, sublinhou, "com o espectro da guerra afastado das grandes cidades, autonomizava-se o pelouro da Cultura no segundo governo de Agostinho Neto, chegavam às livrarias do país as primeiras edições da União dos Escritores Angolanos e de outras editoras portuguesas, por exemplo, a Sá da Costa. Data dessa época a primeira edição da ‘Poesia de Angola’, a antologia de Irene Guerra Marques. Tratava-se de uma antologia de poesia com uma capa preta, ilustrada com desenho do pintor e escultor José Rodrigues.  (...) Portanto, a antologia de Irene Guerra Marques é a primeira que, imediatamente a seguir à independência, nascia com a vocação didáctica para trabalho em sala de aula. Define-se então o primeiro cânone pedagógico  oficial”.


Na edição ora apresentada, segundo Kandjimbo,  Irene Guerra Marques conta "com a colaboração  de um dos mais representativos membros da primeira geração do período pós-independência. Trata-se do Carlos Ferreira "Cassé” (...) que empresta o seu capital de experiência geracional para que o largo espectro de representatividade da antologia corresponda aos desafios”.

"A Irene Guerra Marques e o Carlos Ferreira quiseram dar respostas ao desafio que diz respeito à periodização da História da Literatura Angolana e elaboração da lista de autores e selecção de textos que podem constituir o cânone literário da poesia, cobrindo diferentes gerações, até às vozes emergentes nas primeiras décadas do século XXI”, concluiu Luís Kandjimbo, apelando às autoridades a adoptarem a antologia nos manuais escolares e que as instituições de ensino superior a aproveitem nos cursos de mestrado e doutoramento. O apresentador   não deixou de citar iniciativas similares, como as de Lopito Feijó e do estudioso português Pires Laranjeira.


A professora Irene Guerra Marques disse: "esta é a celebração da poesia angolana e sai dez anos depois da primeira edição em 2011. Está revista, acrescentada e actualizada, o que a torna mais abrangente e é uma homenagem a todos os poetas”.
Arlindo Isabel, da editora Mayamba, foi igualmente curto: "hoje o dia é para homenagear os poetas e os editores não podem falar”.
O livro tem ilustrações do pintor José Rodrigues, irmão da autora, numa colaboração que remonta à primeira edição. 


Animação cultural
A música e a declamação de poemas dos vários períodos retratados na obra marcaram o lançamento de "Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor”.
A poesia de tradição oral esteve presente em "Madia Candimba”, levada para o cancioneiro popular pelos Ngola Ritmos; poemas declamados em kwanhama e em português prenderam as atenções dos presentes e foram o indicativo da diversidade e da magia da poesia, tratada como flor pela dupla Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira "Cassé”, ambos membros da União dos Escritores Angolanos, a primeira honorária e o segundo efectivo.


Irene Guerra Marques, natural de Luanda, é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Entre 1965 e 1975 foi professora de Língua Francesa e de Língua e Literatura Portuguesa. Foi coordenadora nacional de Língua Portuguesa e Literatura Angolana no Centro de Investigação Pedagógica (CIP, CIPIE) do Ministério da Educação entre os anos de 1976 e 1982. Desde 1983 até 1988, dirigiu o Instituto de Línguas Nacionais tendo posteriormente, entre 1988 e 2000, sido directora do Instituto Nacional de Formação Artística e Cultural. De 2001 a 2002, desempenhou as funções de assessora principal do vice-ministro da Educação e Cultura para a Reforma Educativa e, entre 2003 e 2010, foi consultora dos ministros da Cultura.


Entre 2002 e 2019, foi docente das cadeiras de Língua Portuguesa e de Literatura Angolana na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, onde exerceu, de 2010 a 2015, o cargo de chefe de Departamento de Língua Portuguesa. Participou ainda nos trabalhos de reestruturação do ensino secundário, de reformulação do ensino superior e na organização do ensino artístico em Angola. É autora da primeira antologia de literatura angolana, Poesia de Angola (1976), e das primeiras colectâneas intituladas Textos Africanos de Expressão Portuguesa (1976) criadas para o sistema de ensino angolano e que marcaram indelevelmente várias gerações de estudantes.
Carlos Ferreira "Cassé”, natural é Luanda, é poeta, jornalista e compositor musical. Actualmente é adido de imprensa em França.

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