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“Nova Arte da Guerra”

Este texto é sobre o livro “Nova Arte da Guerra” de Sun Bin, que é considerado discípulo de Sun Tzu. Ele é um clássico da estratégia militar e do pensamento estratégico. Publicou o referido livro no período dos Reinos Combatentes, na China, sendo os seus escritos uma sequência directa da obra de Sun Tzu. Diante da importância da reflexão do autor, no contexto geral dos estudos estratégicos, vamos destacar aqui algumas das suas ideias

22/08/2021  Última atualização 16H16
© Fotografia por: DR
Sun Bin participou em campanhas militares e estudou a arte da guerra. Com o tempo, ele converteu-se num importante chefe militar e valorizou o estudo da estratégia no contexto da guerra. Alcançou o grau militar de general e comandou uma província. Mas acabou por ser proscrito das suas funções devido a rivalidades com os seus pares. Apesar disso, ele prestou serviços como conselheiro militar no domínio da estratégia e auxiliou o reino de Wey a enfrentar o reino de Qi. Aliás, este reino era comandado pelo seu arqui-rival, o general Pang Juan. Por sinal, o general que lhe colocou na condição de proscrito.

Nessa empreitada da guerra, Sun Bin, baseando-se na sua perspicácia estratégica, atraiu o exército inimigo e criou uma condição vantajosa para as suas forças. Mediante golpes rudes e demolidores, as forças de Sun Bin aniquilaram o exército do reino de Qi. Por força dessa derrota, o general Pang Juan suicidou-se. Essa vitória consagrou Sun Bin como um excelente general, conselheiro e mestre da estratégia. Os seus ensinamentos passaram a ser considerados como essenciais para a guerra e constituíram-se, assim, em princípios importantes para uma estratégia vitoriosa. Pela importância dos seus ensinamentos, a sua obra tem sido referenciada em vários campos do saber.  Tanto mais que os feitos de Sun Bin se encaixam bem na visão taoista da vida e do mundo, baseando-se na compreensão da dinâmica social e no princípio universal do caminho.

No decurso da sua carreira de conselheiro, Sun Bin notabilizou-se devido à forma sábia como aconselhava o soberano para o qual trabalhava. Esses conselhos estratégicos resultavam de movimentos estratégicos bem elaborados. Aliás, segundo ele, a vitória não pode ser o objectivo último de uma guerra pois o afã da vitória pode criar uma situação de desgraça. Sun Bin aprendeu imenso com o estudo das situações de guerra e com as ofensivas vitoriosas que culminaram com a ocupação de alguns territórios. Para ele, a principal lição da vida é que precisamos de virtude, capacidade e sabedoria, mesmo que a nossa intenção seja a de governar com sentido de humanidade, justiça e de forma pacífica. E o substracto dessa visão sábia é o recurso aos guerreiros, visto que eles ajudam a inverter algumas situações em determinadas circunstâncias.

Fruto da experiência acumulada no domínio da estratégia militar, Sun Bin menciona que quando dois grandes exércitos são equivalentes, é indispensável criar uma situação de desaire e de seguida criar uma "frente oculta”. Segundo ele, esse tipo de frente produz muitos bons resultados. Outro conselho que ele dá consiste no seguinte. Possuindo um exército grande e bem-equipado, isto simboliza a segurança da nação. Mas para enfrentar um exército com a mesma capacidade e assegurar a vitória, é preciso "forças auxiliares” e "formações”. E estas devem ser empregues no começo, para tornar o exército inimigo complacente. Essa visão ajuda a travar uma batalha.

Sun Bin destaca a importância da estratégia, porquanto ela é um meio de que se faz recurso a fim de surpreender os "oponentes desprevenidos”. No decurso da sua vida como conselheiro de soberanos, ele dialogou imenso com eles e transmitiu-os inúmeros conselhos sobre a organização dos exércitos e a respeito do emprego das forças militares de modo a enfrentar oponentes poderosos. Na sua linha de pensamento, Sun Bin valorizou também os seguintes aspectos: o ânimo no seio das forças, a coesão de grupo e a rigorosa probidade. Apesar dessa explicação, a vitória numa guerra depende imenso de "governantes esclarecidos” e "comandantes inteligentes”.

Ele menciona várias questões que asseguram a vitória de um exército. Destacando, para o efeito, os seguintes pontos: ordem, configuração, energia, confiança, liderança e integridade. Outros aspectos que contribuem para a vitória são, nomeadamente: comando com autoridade, conhecimento do caminho, conquista de muitos adeptos, harmonia no seio dos colaboradores, avaliação do inimigo e antevisão das dificuldades. Essas e outras qualidades reunidas asseguram a vitória. Ainda assim destaca o valor de um comando, decorrendo essa qualidade da "capacidade de liderança”. Mas esta capacidade interliga-se a três elementos importantes, a saber: confiança, lealdade e vontade. O que implica ser leal a um governo, ter confiança em relação a recompensas e vontade de banir o mal no seio de uma organização. Do ponto de vista militar, estes são alguns dos aspectos a que Sun Bin dá destaque. 

Ainda assim aconselha que só se deve travar uma batalha quando há alternativas e sendo necessário possuir um método, porque não é aconselhável vencer batalhas por via da erosão. Na vida não precisamos de vencer todas as batalhas. Vencer muitas batalhas, como regra, dá lugar à "calamidade”.      


Ideias estratégicas 

Na sua obra Sun Bin articula, em simultâneo, questões militares, de segurança e estratégia militar. Mas, ao mesmo tempo, algumas das suas ideias se enquadram no puro pensamento estratégico. Deste modo, a primeira questão de carácter estratégico que ele levanta prende-se com o valor de um líder conhecer o caminho. Este aspecto é central, no contexto da segurança de um país, porque só se salvaguarda um país mediante o conhecimento do caminho.

Nesse sentido e de modo a dar relevância desejada à questão do caminho, Sun Bin valoriza o clima e a configuração geográfica do terreno. Destaca o valor da conquista dos corações das pessoas e do conhecimento perfeito do inimigo, bem como aconselha a travar uma batalha em condições favoráveis. Na ausência dessas condições, é preferível manter a paz. 

Segundo Sun Bin, "um soberano bem-sucedido” tem de possuir essa visão. Também considera que um líder prudente tem de possuir planos estratégicos. Ainda do ponto de vista estratégico, este pensador clássico dá grande importância às acções estratégicas no contexto de uma guerra, destacando que a "guerra é uma questão de competição formal para alcançar a vitória”. Também alerta para o facto de que a vitória depende apenas de várias formas de actuação. Ele diz que as "variantes da forma e da vitória são infinitas”.

Os líderes hábeis em questões de guerra valorizam os pontos fortes do inimigo e conhecem as suas fraquezas, bem como identificam carências e excedentes. Assim, esses líderes "vêem o Sol e a Lua; alcançam a vitória como a água vence o fogo”. Ainda do ponto de vista estratégico, desaconselha a contra-atacar com a mesma forma porque isto equivale a agir directamente. Às vezes, é preferível agir sem forma. Isto é, há que valorizar a acção de surpresa. Para valorizar esse ponto de vista, destaca o seguinte: "As acções directas e de surpresa são infinitas, tendo cada uma o seu lugar”. 
            Conclusões

Espelhámos as principais linhas do pensamento militar e estratégico de Sun Bin. As ideias deste pensador chinês são o reflexo de experiências adquiridas nos campos de batalha. O seu pensamento reflecte o conhecimento obtido nos contactos com soberanos, generais e soldados.
Miguel Júnior | 

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