Opinião

Nostalgia

Arsénio Chilala

Quando, em encontros familiares ou de amigos, tento contar aos ndengues as façanhas ou aventuras da minha infância, os mais novos, quase sempre, não acreditam em mim. Me chamam de mbilingueiro. Para os convencer, tenho que recorrer ao testemunho de um contemporâneo que tenha assistido ou acompanhado como de facto se passaram as coisas.

23/10/2022  Última atualização 06H15

No domingo, por exemplo, os meus sobrinhos "se mataram de rir” quando lhes contei que em meados dos anos oitenta, eu era o melhor jogador da minha equipa, o Desportivo do Alto-Fresco, cujo treinador era o mano João. Tive de fazer uma chamada de emergência para o meu amigo França, a fim de este confirmar a veracidade dos factos. Mas, nem com isso, os miúdos acreditaram. Esses miúdos desta era das tecnologia são que nem São Tomé. Só acreditam vendo. Incrédulos duma...

Pois é... comecei por lhes dizer que naquele tempo, em todos os bairros, havia um campo de terra batida para as crianças baterem uma peladinha depois da escola. Eram trumunos que duravam o dia todo, sendo que, muitas vezes, era preciso as mães aparecerem com chicotes em punho para pôr fim ao jogo.

De 1984 a 1989, tínhamos, na zona alta do Lobito, o campeonato infanto-juvenil, organizado pelo mano Ngoleka. As equipas eram formadas a partir dos bairros e, portanto, a criança só podia jogar pelo time da sua área de residência. Posso arriscar, com a devida margem de erro, que a adesão era tão grande que devem ter participado naquela competição mais de 250 crianças e adolescentes.

Eu, modéstia a parte, fui dos melhores craques desse tempo, tendo sido melhor marcador de uma das épocas com 18 golos. Foi nessa altura que me deram a alcunha de Iuri Gagarin, porque apesar da minha estatura, era bom no jogo aéreo.

Miúdos como o Mbolela, o Mako, o Picas ou o Nelito, só para citar esses, tinham um tal domínio de bola que só não chegaram às grandes equipas ou até mesmo à selecção nacional, porque o nosso país nunca soube aproveitar os talentos que sempre teve.

Por isso, uma estranha melancolia se apodera da minha pessoa, sempre que vejo miúdos a jogar à bola na estrada, sendo obrigados a parar uma jogada sempre que uma viatura se aproxima. E, há, obviamente, automobilistas, que não compreendendo não ser culpa das crianças a prática de desporto em plena via pública, partem para os insultos e quando os canucos respondem pela mesma via, gera-se um daqueles conflitos que termina na esquadra ou até, na pior da hipóteses, no banco de urgência de um hospital.

Infelizmente para nossa desgraça, os que desenharam e continuam a desenhar as nossas "(des)centralidades”, ou não sabem que as crianças precisam de espaços para brincarem, ou, se calhar, já lhes nasceram adultos e não sabem o que é ser criança... Pronto falei.

Catê mais.

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