Opinião

Nós & a dormência das três cabeças

O apocalipse zumbie que aconteceu com a dormência, apagão mundial por um par de horas da trindade ou das três cabeças unidas (Facebook, Whatsapp e Instagram) do todo-poderoso são Mark(os) Zuckerberg me fez lembrar “Os Vivos e os Outros” de José Eduardo Agualusa.

10/10/2021  Última atualização 10H45
Um romance "apocalíptico” lançado pela Quetzal, cuja acção da trama decorre numa ilha de Moçambique. A maravilhosa ilha é palco de um festival literário onde estão reunidos aproximadamente três dezenas de escritores africanos, mas fruto de uma violenta tempestade no continente permanecem durante sete dias seguidos totalmente isolados, sem contacto com o mundo externo, sem rede, sem acesso à internet.

Mas uma teia de acontecimentos misteriosos vai acontecendo enquanto decorre o festival literário.
A fronteira entre realidade e ficção, passado e futuro, vida e morte inquietam não só os escritores como também a população local.
Só agora percebi a passagem "toda realidade é fantástica”. Hoje as redes sociais são como pontes, como estradas que não só conectam  às cidades, como também às pessoas. Basta a ponte, a estrada desabar ou estar interdita para o caos tomar a dianteira, para a tempestade violenta, o apocalipse zumbie agitar e a amedrontar as pessoas.

Pelos vistos sem as redes nos parecemos uma nulidade, um vazio, uma não-civilização à mercê de um espectáculo maior de consequências nefastas.
Parece que a nossa existência é legitimada pelas mídias sociais. Um segundo sem as mesmas começa a nascer em nós sentimentos estranhos e confusos, uma perda de sentido muito grande começa a conquistar "colonatos”. 

Diz-me então se tudo isto é ou não é fantástico, mágico?
Nós somos porque consumimos. Sem o consumo em pequena ou grande escala nada somos, mas quanto mais consumimos nos sentimos valorizados.

Consumir é também uma evasiva, um tubo com vários escapes.
Nos tempos de exílio académico, de  universidade, uma colega minha quando não se sentia desejada, quando não entendia as matérias, quando ficava triste, estressada visitava os vários shoppings nos arredores ou mesmo distante do campus universitário, canalizava toda frustração, depressão, desentendimento entre ela e as matérias ou com o seu meio envolvente da véspera comprando coisas.

O consumo nos dá essa sensação de liberdade, nos torna desejados, no centro das atenções, mas o seu doce efeito sabe à pastilha, é efémero.  
Com a dormência, com o apagão das três cabeças unidas pude perceber que é farsa a tão propalada ideia que a liberdade é fazer tudo que nos apetece sem restrições, sem intromissões de outrem.

Liberdade é privilégio, não só depende da nossa boa vontade, ela estimula e legitima diferenças sociais. Só existe liberdade quando existe um outro, em total dependência. Alguém precisa estar privado disto ou daquilo para sermos livres. Só existe dois porque existe um. O mesmo sucede com a liberdade.

Com os servidores em baixo da santa trindade, das três cabeças quem são os vivos e quem são os outros?!
Se o nosso "fim” for mesmo um advento apocalíptico recomeçaremos em algum outro lugar?! Gostaria de ter a esperança, o entusiasmo ou o optimismo de um dos  personagens dos Vivos e os Outros de Agualusa: "depois do fim, depois que o mundo acabar, recomeçará nas ilhas”.

Pedro Kamorroto

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