Cultura

Nos 80 cacimbos de Manuel Rui

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Foi em 1975, que comecei a familiarizar-me com a imagem de Manuel Rui Monteiro, o ministro da Informação do Governo de Transição que, através das páginas do Jornal de Angola, me chegava a Benguela. E que tinha estudado em Coimbra, natural do Huambo, tal como vinha escrito no livro com notas biográficas dos membros desse governo, que durou até Junho de 1975.

07/11/2021  Última atualização 09H20
Manuel Rui © Fotografia por: DR
Era eu um rapaz estudante do Liceu que cultivava uma voracidade pela leitura. A minha bibliofilia cedo me levou a encontrar um livro seu nas prateleiras da Tabacaria Contacto, situada no prédio da Electra, no lado oposto da avenida onde se situava iguamente a livraria Magalhães. Corria o ano de 1976. Nas minhas habituais passagens pelas livrarias, ao fim da tarde, lá fui encontrar  o primeiro livro de Manuel Rui para a minha biblioteca. Confirmei que a imagem do autor não me era estranha, ao ver a fotografia do escritor da barbicha. Comprei o seu livro de contos. Tratava-se do "Regresso Adiado”. Lembro-me do título de um dos contos "Mulato de Sangue Azul”.


Chamou-me a atenção a ironia verrinosa de que resultava uma caricatura da personagem. Tornei-me seu leitor assíduo. Essa aquisição fazia parte de um esforço que comecei a fazer para formar a minha biblioteca da Literatura Angolana. Nessa altura começaram a chegar a Benguela outros livros de escritores angolanos. Estava tudo alinhado porque já se liam textos literários angolanos nas aulas de Português e debatia-se a interpretação de poesia e ficção narrativa angolana. Em Luanda, continuei a fazer as minhas aquisições de livros.


Quando decidi ir para o Lubango estudar Letras, tinha ouvido falar da sua presença lá, onde tinha sido director da Faculdade. Mas, associava também a sua imagem ao julgamento dos mercenários pelo Tribunal Popular Revolucionário em que ele tinha sido acusador público. Ao chegar à cidade da serra da Tundavala, os amigos que encontrei, disseram-me que na Faculdade só havia um professor, também escritor. Era o Arlindo Barbeitos de quem tive o grato prazer de ser amigo. O Manuel já estava no Lubango.

Continuei a ler todos os livros de Manuel Rui que foram saindo, poesia, romance, contos, literatura infantil. Em 1981, na revista "Hexágono” da Brigada Jovem de Literatura da Huíla de cuja equipa editorial fui membro, publiquei uma recensão sobre um livro que tinha acabado de sair em 1980, "Memória de Mar”. Mas já em Luanda, a minha integração na Brigada Jovem de Literatura foi tornando possível o convívio com alguns Mais-Velhos, especialmente porque eles nutriam uma grande simpatia pelos "miúdos”. A prova disso é aquela fotografia de 1982 que se encontra no hall de entrada da sede da União dos Escritores Angolanos. Duas equipas de futebol de salão representando o diálogo intergeracional. Manuel Rui faz parte da equipa da União e eu figuro na da Brigada.

Fui à casa do Manuel Rui pela primeira vez, em 1983, pela mão do falecido confrade Domingos Ginginha. Ficámos a conversar e ele recebia telefonemas. Mas, respondia dizendo que não podia falar, porque estava com a "malta” da Brigada. Os Mais-Velhos tinham  muita estima por nós. Nessa altura, já tinha sido publicado o livro "Quem Me Dera Ser Onda”. A propósito disso,  Manuel Rui é meu kamba mesmo. Em duas ocasiões, convidou-me a apresentar dois dos seus livros. Estou a referir-me ao "RioSeco” e "Kalunga”.


Guardo várias lembranças do convívio com Manuel Rui. Vou contar uma. Como disse, os Mais-Velhos acompanhavam-nos e queriam fazer o que lhes competia na relação que estabeleciam connosco. Quando a prestigiada Association of African Literatures (Associação de Literaturas Africanas) com sede nos Estados Unidos organizou o seu primeiro congresso em África,  que teve lugar em Dakar, o Luandino Vieira, que era o Secretário Geral da União dos Escritores Angolanos, propôs uma delegação integrada pelo Manuel Rui, E. Bonavena e eu. Todos deviam apresentar comunicações. Lá fomos os três. Foi um grande tirocínio para mim. Tenho fotografias desse mês de Março de 1989.

No momento em que o Manuel Rui celebra 80 cacimbos, não tendo podido estar presente na homenagem prestada na nossa Casa, desejo que venham mais outros cacimbos, mais "kuenyes”, mais "ndombos”. Para somarmos estrelas com luar e multiplicarmos "lombi” com "owa”.

Oh! Manuel Rui, faltou contar aquela dos lohakus que, em 1988, compraste em Benguela, no dia que inaugurámos a livraria  da União, e logo-logo andaste a passear pela cidade com o teu boné. E o lohaku era amigo do ambiente porque os pastores do Dombe Grande reciclavam e ainda reciclam os pneus para não reduzir os danos que podem causar. Demonstravas assim que é preciso conversar com o pastor nómada.

Nestes teus 80 cacimbos, confesso que aprendi muito também com Manuel Rui ensaísta, aquele que escreveu um memorável texto incluído nas teses dos angolanos à VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, realizada em Luanda em 1979.
Tambula Ovilamo, Ukulu Manuel Rui.
.

 
 * Ensaísta e professor universitário

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura