Política

Nome do general “Kamorteiro” fica para sempre ligado ao fim do conflito militar

Edna Dala

Jornalista

O Presidente da República, João Lourenço, sublinhou, esta segunda-feira, em reação à morte do general Abreu Muhengo Ukwachitembo “Kamorteiro”, que “o seu nome fica para sempre indelevelmente ligado ao fim definitivo do conflito militar em Angola, por ter sido, em nome da UNITA, um dos signatários do Acordo de Paz para Angola, a 4 de Abril de 2002”.

29/11/2022  Última atualização 08H51
Oficial general foi um dos co-signatários do Acordo de Paz, celebrado a 4 de Abril de 2002 © Fotografia por: DR

Na mensagem, João Lourenço refere que, a partir dessa altura, o general "Kamorteiro”, enquadrado em cargos de chefia nas Forças Armadas Angolanas, desenvolveu uma acção meritória a favor da pacificação e desenvolvimento do país.

O Presidente da República e Comandante-Em-Chefe das Forças Armadas Angolanas realça que foi com profundo sentimento de pesar que "tomei conhecimento do prematuro falecimento, por doença, do general Abreu Uakwachitembo Kamorteiro, que desempenhava actuamente o cargo de chefe do Estado Maior-General Adjunto das Forças Armadas Angolanas”.

Nesta hora de dor e luto, o Presidente da República "expressa à família enlutada as profundas condolências, extensivas a todos os seus amigos e companheiros de luta”.       

 

Homem da Ciência e Arte Militar

Em reacção à morte do general Abreu Muhengo Ukwatchitembo "Kamorteiro”, ocorrida nas primeiras horas de ontem, no Hospital Militar Principal de Luanda, o ministro da Defesa e Veterano da Pátria afirmou que o país perde "um exímio estudioso da Ciência e Arte Militar”.

João Ernesto dos Santos "Liberdade” sublinha, numa nota de condolências, que "o país e as Forças Armadas Angolanas, em particular, perdem um valente profissional político-militar e um exímio estudioso da ciência e arte militar, que muito ainda tinha a dar no processo de consolidação da jovem instituição militar”.

O malogrado, realça, foi um profissional militar de elevada e exemplar qualidade, que teve a sua trajectória político-militar iniciada nas fileiras da UNITA, no processo da Luta de Libertação para a Independência contra o colonialismo português, tendo, por mérito próprio, exercido os mais altos cargos da hierarquia militar das FALA, facto que lhe permitiu ter sido um dos co-signatários dos Acordos de Paz e Reconciliação Nacional rubricados a 4 de Abril de 2002 entre o Governo angolano e a UNITA.

 A assinatura dos Acordos de Paz, refere a mensagem, foi antecedido da assinatura do Memorando de Entendimento do Luena. Acto contínuo, o malogrado exerceu importantes cargos na hierarquia das Forças Armadas Angolanas, em que se destacam os de vice-chefe do Estado Maior para a Logística e Infra-estruturas e, por último, o de chefe de Estado– Maior General adjunto para Área Operativa e de Desenvolvimento.

Nesta hora de dor e luto a que me associo, em nome do Ministério da Defesa Na-cional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, e no meu próprio, "curvo-me perante a memória do malogrado e apresento ao Estado–Maior General das FAA e à família enlutada a expressão dos meus sentidos pêsames pelo infausto acontecimento”.

O ministro João Ernesto dos Santos "Liberdade” sublinha que foi com a mais profunda consternação que tomou conhecimento do passamento físico do general "Kamorteiro”.

Noutra mensagem, o Estado–Maior General das Forças Armadas Angolanas, faz saber que, nesta hora de dor e luto, "inclina-se perante a memória do malogrado e apresenta os seus profundos sentimentos de pesar à família enlutada”.

No mesmo documento, afirma que o general Kamorteiro perdeu a vida no Hospital Militar Principal-Instituto Superior, vítima de doença. O general Geraldo Abreu Muhengo Ukwachitembo "Kamorteiro” nasceu no município do Andulo, Bié, a 28 de Março de 1958. Iniciou a carreira militar em Fevereiro de 1975, as ex-FALA.

Após o país tomar conhecimento da morte do general, que assinou o Acordo de Paz de 4 Abril de 2002, pela UNITA, com o chefe do Estado-Maior General da FAA, na altura o general Armando da Cruz Neto, pelo Governo Angolano, mereceu as mais sentidas reacções.

Assim, várias personalidades políticas e militares destacaram as suas qualidades, sublinhando que o malogrado foi uma figura com "inteligência extraordinária e grande sentido de Estado”.

 A noticia da sua morte deixou muitos dos seus pares com a moral baixa que, uma vez solicitados pela reportagem do Jornal de Angola, preferiram remeter-se ao silêncio, enquanto uns co-mentaram sob anonimato. Para muitos, Abreu Ukwatchitembo Mohengo "Kamorteiro”, foi um homem de educação ímpar e um verdadeiro "comando”, que conseguia "cativar  qualquer pessoa ao seu redor, com o seu gesto sereno”.

Para Francisco Pedro António, conhecido como coronel "Norton”, oficial operativo do malogrado chefe de Estado–Maior General adjunto, o general "Kamorteiro” , além de ter sido um líder de renome, tinha uma capacidade excecional de interagir com todos.

"Gostava muito de conversar, e não ficava parado. Sempre disposto e disponível para trabalhar, dizia eu sou comando, e comandante não pode ficar parado”. Com a sua morte, o país perdeu um grande quadro, destacou.

O coronel Norton, que tinha a responsabilidade de cuidar e acompanhar a agen-da do malogrado, pontualizou, que, até ao último domingo, o "general Kamorteiro estava bem, sem qualquer indício de mal-estar”. No mesmo dia, continua, depois de praticar atividades físicas, como era habitual, "dispensou-me, adiantando que pretendia descansar e assistir aos jogos do mundial, porque teria uma reunião no dia seguinte”.

De acordo com a família do malogrado, disse, depois do jantar e acompanhar os jogos, decidiu ir mais cedo para a cama. "Quando a esposa foi descansar, notou uma respiração fora do normal, pelo que tentou despertá-lo, mas o general já não reagia”, conta, afirmando que, a seguir, com o apoio dos guardas, foi levado para o Hospital Militar Princpal, onde veio a falecer.

Por seu turno, o general na reforma Baltazar Diogo Cristovão reconheceu que o general Kamorteiro soube com inteligência e mestria compreender os ganhos da paz. À Angop, o  actual embaixador de Angola em Marrocos, destacou o facto do malogrado ter sido um dos percursores da integração dos ex-militares das FALA nas Forças Armadas Angolanas. Afirmou que "Kamorteiro soube abraçar a paz, a estabilidade e conviver na diferença, com foco numa Angola una e indivisível”.

"O general Karmoteiro deixa o legado de um bom servidor da pátria, de que a sociedade castrense, em particular, não se esquecerá”, disse.


Homem de múltiplas funções

O general "Kamorteiro” foi instrutor, comandante de pelotão e chefe de operações de Região. Dono de um currículo vasto, o malogrado foi, também, professor de topografia militar e assistente em ciências sociais na vertente do materialismo histórico, no Centro de Estudos Comandante Kapesi Kafundanga (CECKK).

Foi segundo comandante do Comando de Logística e Infra-estruturas das FAA e vice-chefe do Estado-Maior General para a área Administrativa, vice-chefe do Estado-Maior-General para a Logística e Infra-estrutura e chefe do Estado – Maior General adjunto para Área Operacional e de Desenvolvimento das Forças Armadas, cargo que desempenhou até à sua morte. Doutorando em história contemporânia transnacional comparativa pela Universidade de Évora. Foi, ainda, professor assistente em história de Angola pela Universidade Agostinho Neto.


O porta-voz da UNITA, Marcial Dachala, considerou o general "Kamorteiro” uma referência da história de Angola. Acrescentou que deixa um legado importante, que será continuado por todos aqueles que o conheceram e trabalharam, não apenas no seio das FAA mas, também, por aqueles que foram os seus companheiros.

"Kamorteiro fica connosco, enquanto continuarmos nesta aventura que é a vida”. Marcial Dachala apresentou à família enlutada sentimentos de pesar.

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