Opinião

“Noite Vertical” ou o alfabeto da Terra

João Melo*

Jornalista e Escritor

Do livro “Rio Sem Margem”, do angolano Zetho Cunha Gonçalves, disse o festejado romancista brasileiro MiltomHatoum: -“Poemas belíssimos. Este livro é uma pequena obra prima da literatura oral africana.

23/11/2022  Última atualização 05H00

Só por preconceito ou incompreensão a literatura oral é menos lida e estudada que a literatura escrita. Os poemas são belíssimos e vêm dos tempos imemoriais ou do mito: tempo fora do tempo. Poesia oracular. Alumbramentos, como dizia Manuel Bandeira”.

”Rio Sem Margem” faz parte da primeira antologia completa de Zetho Gonçalves, "Noite Vertical”, que abarca toda a sua produção poética (depurada, revista e... validada) durante 42 anos (1979-2021), tendo sido lançada recentemente em Lisboa. Sugiro vivamente aos leitores brasileiros (e não só) que não conheçam este autor que leiam com urgência essa obra monumental, para confirmarem que, e tal como afirmou o articulista do jornal português "I”José Carlos Pereira, que "todas as tradições orais têm também os seus gregos”.

"Noite Vertical” é um livro radical e profundamente angolano e, ao mesmo tempo, universal. Nele reverberam, assim, quer as imagens telúricas da natureza, as lições dos ancestrais, os mitos, os provérbios e as adivinhas tradicionais angolanas, sem esquecer as vozes literárias nacionais que antecederam o autor, como Luandino Vieira, Arnaldo Santos, Ruy Duarte de Carvalho e outros, por exemplo, quer os ecos dos grandes poetas universais, como Holderlin, Lao, EzraPound e Otávio Paz, bem como de alguns dos grandes autores de língua portuguesa, como António Ramos Rosa, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Herberto Helder e Luís Carlos Patraquim.

Uma das mais fecundas vertentes do trabalho poético de Zetho Gonçalves é a "tradução” e sobretudo a recriação (mediante a sobreposição, a colagem e outras técnicas) das literaturas orais tradicionais, sobretudo angolanas, mas incluindo também produções de outras regiões e povos africanos e até dos povos originários das américas. Podem ainda ser encontrados em "Noite Vertical” ecos da musicalidade das poéticas orientais, assim como vários e belíssimos textos de prosa poética. O autor transita com absoluto à vontade e mestria entre o texto breve, quase epigramático, e os poemas longos, em todos demonstrando uma técnica irrepreensível, que atesta do rigor do seu labor. A profunda revisão que sofreram muitos dos poemas que compõem esta antologia confirma que Zetho é, antes de mais nada, exigente consigo mesmo, antes de ser, tal como é conhecido entre os seus pares, um crítico ácido do trabalho alheio.

Uma nota adicional à observação feita atrás de que "Noite Vertical” é um livro "profundamente angolano”: a antologia que reúne toda a produção poética de ZCG durante 42 anos amplia, na verdade, aquele que é considerado, até agora, o cânone da literatura angolana moderna, o qual é eminentemente urbano e focado em Luanda e mais uma ou duas cidades, introduzindo geografias, saberes e vivências que é raríssimo encontrar nos textos literários nacionais. Além de Zetho Gonçalves, apenas Ana Paula Tavares tem explorado essa "tradição”, melhor dizendo, essa outra realidade angolana, de matriz rural, a qual, a rigor, é perfeitamente contemporânea (não é, pois, "tradicional”). Mas o autor de "Noite Vertical” fá-lo com maior profundidade.

A vivência de ZCG explica parcialmente a nota que acabo de fazer. De facto, nascido no Huambo, no centro de Angola, de pais portugueses e avó angolana, o poeta cresceu no Cutato, uma localidade situada na hoje província do Cuando Cubango, sudeste do país,designada no período colonial como "As terras do fim do mundo”, expressão que diz tudo. Ali o poeta fez-se jovem, aprendeu a língua local, conviveu com a natureza e as comunidades da região, sobretudo rurais. E, como escreve num dos poemas de "Noite Vertical”, descobriu a poesia:

 

E eu vi

o canto e a manhã primeira irrom perem

do redivivo coração da pedra alta

em seu aroma sábio,

pela raiz.


Eu vi.

(...)

O alfabeto da Terra semeia

 seus dons e luci  dez.

- Implacáveis. Os dedos

apreendem seus astros

caligráficos: as veias

e artérias primitivas

da pedra

e do fogo

batendo em mim

a Poesia inteira.

 A história de vida do autor de "Noite Vertical” explicará, precisamente, por que motivo o livro pode ser lido, como o fez José Carlos Pereira, como um grande canto à Terra. Mas não a Terra como "natureza” e, sim, como uma vibração na alma, a Terra como um poema imenso e a única garantia de liberdade, sendo a vida "um ofício da Terra”. De igual modo, e como toda a poesia digna desse nome, "Noite Vertical” não se limita a reproduzir as experiências e vivências do autor. O autor recusa-se, em particular, a participar em pseudo militâncias, sejam elas culturais, políticas ou outras, para produzir um trabalho que, ao mesmo tempo que tem os pés bem fincados no chão onde nasceu, se abre e dialoga sem complexos com as restantes e múltiplas poéticas do mundo.

Zetho Cunha Gonçalves consegue isso através do único caminho que todos os escritores precisam de seguir: a linguagem. Consciente e rigoroso, ele trabalha-a demoradamente, sem quaisquer concessões, pois sabe que o alfabeto da Terra é sagrado e, por isso, não pode ser vilipendiado. O poeta deve ser seu guardião e permanente exegeta e recriador. Só ele.

Como escreve no poema "O testamento do mundo”, ZCG está consciente disso:

 

Porque sou eu quem levanta

das palavras o   dizer

 

            inscrevo nas fábulas o sangue,

            o arco e a pedra,

            a seta envenenada e o fogo.

            E nenhuma voz (rio adormecendo

         a margem frágil) repetirá a voz

          deste dizer,

            a sua caligrafia

 

           (...)

 

 *Escritor  e jornalista

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