Cultura

No tempo dos super-heróis

A herança de Os Salteadores da Arca Perdida é tão rica quanto paradoxal. Sendo um brilhante herdeiro da mais nobre tradição de espectáculo de Hollywood, Spielberg impôs-se também como um dos grandes renovadores das bases tecnológicas da produção americana das últimas épocas. Com várias proezas realmente excepcionais, como a fábula futurista que é A. I. - Inteligência Artificial (2001), mas também com um falhanço bizarro: através da sobrecarga de banais “efeitos especiais”, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é mesmo um momento menor na sua filmografia.

27/06/2021  Última atualização 11H45
© Fotografia por: DR
A evolução da produção de "blockbusters” suscita discussões que, inevitavelmente, transcendem o gosto cinéfilo da grande aventura.


Assim, a ocupação dos mercados pela actual vaga de super-heróis tende a criar desequilíbrios graves na exposição dos filmes, quase sempre penalizando as produções mais "pequenas”, que não beneficiam de grandes investimentos promocionais. Para, pelo menos, duas gerações de espectadores, a noção de espectáculo foi gerada pelas rotinas de super-heróis e afins, "contaminadas” pelos jogos de vídeo, secundarizando os heróis de dimensão humana como Indiana Jones.

Mais do que uma questão de "gosto”, esse é um problema eminentemente industrial. Provêm do interior da própria indústria dos EUA as vozes que têm chamado a atenção para a agitada evolução de uma indústria que, ao investir (quase) tudo em "blockbusters”, pode estar a criar condições para o desmantelar das suas bases económicas e simbólicas.

No dia 12 de Junho de 2013, numa conversa com os alunos da escola de cinema da Universidade da Califórnia, houve mesmo dois oradores que chamaram a atenção para uma hipótese dramática: os continuados investimentos em filmes ("bons” ou "maus”, não é isso que está em causa) com orçamentos na ordem dos 250 milhões de dólares podem criar bloqueios insustentáveis na própria dinâmica industrial, sobretudo porque alguns desses filmes terão sempre dificuldades em recuperar gastos tão gigantescos. Quem eram esses oradores? Críticos de cinema? Jornalistas? Economistas? Não exactamente. Os seus nomes: Steven Spielberg e George Lucas.

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