Opinião

No Museu Nacional de Antropologia

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Ainda recordo-me, como se fosse hoje, do dia em que, pela primeira vez, em meados de 1993, cruzei a porta verde do edifício cor-de-rosa do Museu Nacional de Antropologia (MNA), em Luanda: na altura, nem sabia que seria ali onde encontraria o meu primeiro emprego na função pública, depois de ter trabalhado durante seis meses como atendedor de balcão, no supermercado familiar.

23/11/2021  Última atualização 09H25
Não tive nem que bater a aldraba da porta, já que encontrei-a toda aberta e, mesmo desde a rua, podia ver o arco de meio ponto que dá dignidade ao corredor que termina no pátio interior. Tinha vinte e sete anos de idade, era o meu primeiro ano em Angola, depois de ter passado catorze, - na Ilha da Juventude e na cidade de Havana -, em Cuba.

Foi só trespassar aquela porta verde para ser recebido, entre o pátio interior e a sala contígua ao mesmo, de braços abertos, por Manuel Cadete Gaspar (Songa), o então Director, - o meu primeiro chefe - e comecei, ali mesmo, naquele dia, a maior aventura da minha vida que, não é outra que a do desafio que, ainda é, passo a passo, de construir e reconstruir uma carreira profissional útil. No Museu Nacional de Antropologia trabalhei, apenas, durante três anos, entre 1993 e 1997.

Depois de ter deixado de trabalhar lá, nunca fiquei muito tempo sem ir visitar o museu: de vez em quando, gosto de ir ver os meus colegas. Mas, a visita que fiz na terça-feira passada, fi-la com agrado, total naturalidade e visando matar saudades: o seu actual director, Álvaro Jorge convidou-me à animar uma conversa com um dos seus ex-directores, no caso, Américo Kowononoka, no âmbito das comemorações do 46º aniversário da instituição, uma iniciativa que incluiu, entre outras actividades, visitas guiadas, palestras virtuais e um concerto de Jazz, com o apoio do Goethe Institute-Angola.

Desta vez, entrei pela porta de ferro do pátio exterior, um lugar em que eu gostava de ficar sentado, debaixo de um tambarineiro frondoso e resistente e, apesar de ter coincidido com o Kowononoka, nos anos em que lá trabalhei, – na altura, ele chefiava o departamento de animação cultural, enquanto, depois, eu passei a chefiar o departamento de investigação científica -, depois de ele ter feito o balanço dos anos em que esteve a dirigir a instituição, tivemos uma conversa, no mínimo surpreendente, onde soube muitas coisas novas sobre ele e sobre o museu.

Américo Kowononoka trabalhou durante trinta e dois anos, no Museu Nacional de Antropologia, dezasseis dos quais como director e fez-nos revelações que acho de elevado interesse público. A primeira delas quando ele disse que Henrique Abranches – o primeiro director do museu - foi quem, nos anos 80 do século passado, apresentou à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), um dossiê sobre a restituição de peças de arte e de artefactos culturais de origem angolana.

A segunda foi quando Kowononoka contou que, em 2012, numa das suas viagens à Inglaterra, a delegação em que estava terá visitado um museu etnográfico, em Kent, com cerca de 1.800 peças de arte e artefactos culturais de origem angolana. A terceira foi quando fez referência ao facto de que, pouco dado a visita ao museu, o antigo Presidente José Eduardo dos Santos visitou o Museu Nacional de Antropologia, em quatro ocasiões;

A quarta revelação foi quando ele recordou que, aquando da sua visita a Angola, Nelson Mandela pediu para visitar a instituição antes de realizar qualquer encontro político e diplomático, tendo saído directamente do aeroporto para o museu. A quinta e última revelação, mas bem reflexão foi quando,  Kowononoka defendeu a construção de um novo edifício para o museu que possibilite, por um lado, albergar de uma maneira mais digna o acervo de que dispõe e, por outro, permitiria tanto desmontar a lógica da Antropologia colonial como actualizar aos dias de hoje o museu enquanto instituição artística e cultural, numa cidade de Luanda diferente da dos anos 70 e num mundo cada vez mais globalizado.

Passados vinte e oito anos, desde aquela primeira vez que entrei no Museu Nacional de Antropologia, estou seguro de que ainda voltarei a visitá-lo muitas vezes: como Américo Kowononoka e muitos cidadãos gostaríamos de ver restituído à Angola, entrando por aquela porta verde do edifício cor-de-rosa e sem bater a aldraba ou pela porta de um novo edifício, todo o património de obras de arte e artefactos culturais de origem angolana dispersos pelo mundo e que os pudéssemos preservar, cuidadosamente.

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