Cultura

Njinga Mband: A soberana do Ndongo e da Matamba

Rui Ramos

Jornalista

Njinga Mbandi, nascida em 1583, é também referida como Rainha Jinga ou Rainha Ginga, ou como Dona Ana de Souza pelos colonos portugueses. O seu nome, Njinga Mbandi kya Mbandi, tem a designação Ngola dos soberanos dos reinos de Ndongo e Matamba.

31/07/2022  Última atualização 13H40
© Fotografia por: DR

Reinou de 1623 até ao fim da sua vida, em 1663, no território da actual Angola. Filha do Ngola Mbandi Kiluanji, em 1617 disputou o trono do NDongo ao seu irmão mais novo ou "meio-irmão”, o qual, vencendo a disputa, foi entronizado com o nome Ngola Mbandi.

A batalha do Ndande, em 1556, marcou definitivamente a independência do Ndongo em relação ao Kongo. Em 1590, o governador-geral português Luis Serrão reuniu quinze mil homens para conter os exércitos de Matamba, que auxiliados pelo Kongo, Ndongo e Guindas, vinham com a determinação de darem batalha ao governador.

Na mesma época, o exército de Matamba foi enviado para ajudar o vizinho Ngola na batalha do Lucala, quando juntos derrotaram a "guerra preta” dos portugueses. Ndongo e Matamba eram reinos aliados, que articularam juntos a resistência contra a "conquista” portuguesa na região.

Os portugueses invadiram Matamba no governo de Luís Mendes de Vasconcelos (1617-1621). Os militares portugueses causaram grande devastação nos povoados que foram queimados, inclusive a morada da rainha Mulundo Acambolo, e grande parte da população foi escravizada. Em 1622, Njinga Mbandi foi enviada a Luanda para negociar um tratado de paz com o governador português João Correia de Souza, permanecendo lá por cerca de um ano, tempo em que recebeu o baptismo católico e o nome cristão de Ana de Souza.

Após o seu regresso ao Ndongo, com a morte de Ngola, ela assumiu o trono, que ocupou por cinco anos, não cumprindo o tratado assinado com os colonialistas portugueses como o acto cristão do baptismo mas também bloqueou as rotas de comércio que levavam a Luanda.

Atacada pelos portugueses, refugiou-se nas ilhas do rio Kwanza e nos anos 1626-1627 estabeleceu-se no reino da Matamba, onde passou a comandar grupos de guerreiros imbangalas e a liderar a guerra contra os portugueses no período que se estendeu de 1630 a 1656, quando aceitou a paz e se converteu pela segunda vez ao catolicismo.

No contexto da Independência angolana frente aos portugueses, Njinga é uma heroína nacional, personificação maior da luta anticolonial, sendo enaltecida em romances, poesias, teatro e cinema. A preservação da sua memória na tradição oral é muito forte.

A sua imagem foi preservada e transmitida nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Lisboa ou de diferentes partes do Brasil, onde por vezes, as rainhas Gingas (ou Jingas) são ritualmente coroadas. Tais celebrações ocorreram (e por vezes continuam a ocorrer) em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Paraíba e Pernambuco – e sobretudo na comunidade do Quilombo de Morro Alto (Rio Grande do Sul), em que desde pelo menos o fim do século XIX as rainhas Gingas são anualmente coroadas, ao lado dos reis do Kongo, durante a festa do Maçambique de Osório.

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