Opinião

Ngandu Magande

Sousa Jamba

Jornalista

Ngandu Magande é tido como o melhor ministro das Finanças que a Zâmbia já teve. Mesmo os seus detractores são de opinião que ele não foi um ministro das Finanças comum; em cinco anos, Ngandu Magande transformou a economia.

22/10/2021  Última atualização 08H40
A sua nomeação pelo então Presidente Levy Mwanawasa foi incomum; Ngandu Magande pertencia ao partido UPND, que agora está no poder. Levy Mwanawasa disse, na altura, que o país precisava era de um tecnocrata para transformar a economia. Em cinco anos, isso foi realizado; depois da morte do Presidente Mwanawasa, o seu substituto despediu o ministro das Finanças, já que ele era suspeito de ter ambições políticas.

Havia muitos que insistiam que ele deveria ser o presidente do partido MMD, que estava no poder.
Ngandu Magande conta isso tudo na sua volumosa obra — mais de quinhentos páginas — em que fala da sua vida na política zambiana. Em Londres, ainda no liceu, lembro-me de um professor de Filosofia Política a dizer-nos que uma das formas de entender bem a política é ler biografias. Nas bibliotecas em Londres, há secções especiais só de biografias de políticos. Uma leitura atenta dessas obras ministrava o processo político.

No Reino Unido, os políticos começam a escrever as suas memórias no momento em que assumem pastas. Muitas vezes interroguei-me porque razão isto não acontecia com regularidade. Uma das razões é que a África pós-colonial, em geral, tinha países com partidos únicos. Na Zâmbia da minha infância, só havia livros do então Presidente Kenneth Kaunda; não me lembro de uma outra obra de uma das figuras que tinham participado na luta contra o sistema colonial britânico.

Ainda durante a minha infância, recordo-me de ter ido a Lumumbashi, no então Zaire, onde, numa livraria, lembro-me de uma prateleira cheio de livros do Marechal Mobutu, incluindo um calhamaço sobre a guerra do Shaba de 1977. Em Londres, na biblioteca da "School of Oriental and African Studies", da Universidade de Londres, cheguei a ler memórias de adversários de Mobutu, já no exílio, como  Nguza Karl-i-Bond. Na mesma biblioteca, cheguei, até, a ler as memórias de Vernon Mwanga, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Kaunda, que chegou a ser suspeito de ter participado num esquema para derrubar o Governo através de um golpe de Estado.

Estes dias,  nas livrarias cá na Zâmbia, há prateleiras e prateleiras de obras de políticos a falarem do seu tempo no governo. Estas obras são muito populares; umas chegam a custar cinquenta dólares americanos cada cópia, mas há sempre alguém pronto a pagar tal preço.

Depois de ter lido a obra do ministro Magande o contactei e ele sugeriu um almoço num restaurante chamado "Social Restaurant.” Eu pensava que este seria um local da elite, como o famoso Golf Club de Lusaka, muito semelhante aos clubes exclusivos de cavalheiros (Gentlemen Club) de Londres, onde, até recentemente, as mulheres não eram aceites. É que, um dos aspectos que surgem das memórias do ministro Magande é a influência britânica; ele pertence a uma elite que o sistema colonial britânico formou para assegurar a nova nação zambiana. A  Zâmbia tornou-se independente em 1964.

O ministro Magande tem 74 anos, mas parece ser muito mais jovem. Eu cheguei primeiro no restaurante. Toda a gente conhecia o ministro, que veio trajado de uma camisa à Nelson Mandela. O ministro acabava de vir da sua fazenda em Chilanga, uma área cheia de fazendas a sul de Lusaka. O ministro fez-me muitas perguntas e achou interessante que eu tenha passado a minha infância na Zâmbia. A um certo momento, o ministro disse que as fronteiras eram absurdas, porque os angolanos e zambianos são o mesmo povo.

Durante o almoço, eu disse ao ministro Magande que nas suas memórias, não obstante os seus vários problemas, a estabilidade da Zâmbia deve-se à solidez das suas instituições e sofisticação da Função Pública. O ministro Magande lamentou que este já não seja completamente o caso; houve casos de nepotismo e tribalismo no passado que desfizeram o profissionalismo da função civil.

O ministro Magande estudou na Munali Secondary School e foi um dos primeiros alunos a entrar na Universidade da Zâmbia, em 1966, onde estudou Economia. Ele entrou na função pública, mas sempre com cursos de superação no Instituto Nacional de Administração Pública. No fim dos anos sessenta, o ministro Magande foi para o Uganda, onde fez um mestrado na grande Universidade de Makeekere e viu o ditador Idi Amin em acção. Regressado para a Zâmbia, Ngandu Magande teve vários postos e até chegou a ser Secretário-Geral da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP), na Bélgica, cargo que é agora detido por Georges Chikoti, antigo ministro das Relações Exteriores de Angola. 

O ministro Magande está cheio de optimismo quanto ao continente africano. Ele acredita que o que será chave para o continente é desenvolver o sector terciário — turismo, bancos, seguros, educação, saúde, etc. Ngandu Magande acredita que os bancos têm que crescer com o sistema agrícola — os lucros das iniciativas agropecuárias devem fazer crescer os bancos e fazer com que eles sirvam para enriquecer uma elite que não paga as suas dívidas. Para Ngandu Magande, a diversificação das economias na região vai ter que ser um esforço bem coordenado. Ele disse que o caminho de ferro que irá ligar a Zâmbia directamente ao CFB, que está a ser organizado pelo antigo Vice-Presidente da Zâmbia Enoch Kavindele, ajudará imenso a desenvolver as economias de Angola e da Zâmbia.

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