Política

Neto promoveu um nacionalismo aberto a manifestações culturais

O escritor Mia Couto disse que Agostinho Neto promoveu um nacionalismo sem negar contribuições de outros povos, mostrando-se aberto à confluência cultural, apesar do forte apelo à necessidade de ruptura, para que se instalasse uma identidade própria em Angola. “Vejo essa nota curiosa no pensamento de Neto, com a sua poesia intemporal, dividida em dois grandes momentos”, sublinha.

20/05/2022  Última atualização 06H55
Agostinho Neto © Fotografia por: DR

Para Mia Couto, Neto é uma figura mítica, com várias dimensões, que devem ser percebidas para que não se confundam com outras facetas que não têm a ver com o seu pensamento, nem com aquilo que encerrou como homem, político e poeta. "A dimensão de Agostinho Neto, enquanto homem, político,fundador da nação angolana, é uma dimensão mitológica tão grande, que acaba por se confundir com tantas outras facetas”, frisou.

"Vejo uma coisa curiosa na poesia de Agostinho Neto, é que ele faz essa afirmação da angolanidade, da necessidade de ruptura para que se instale uma identidade própria em Angola, mas o faz com uma espécie de confluência, porque bebeu de várias culturas do mundo”, sublinha, para acrescentar: "Quer dizer, não há, na sua poesia, proposta de um nacionalismo estreito, fechado, que nega as contribuições dos outros povos”.

O escritor Mia Couto diz que não encontra no seu discurso poético um apelo ao nacionalismo, na sua afirmação da angolanidade, um sinal de exclusão, o que impede que Neto seja "comparado a políticos que apresentaram um discurso fundamentalista, de que a africanidade se faz na negação de outros povos e de outras culturas”.

Agostinho Neto, continuou, apresenta uma abertura comum a Amílcar Cabral, SamoraMachel, Eduardo Mondlane, que eram homens muito abertos à vida, e não apresentavam traços de negação da mestiçagem ou de outras influências universais. Este pensamento aberto, é que torna Agostinho Neto uma figura mítica, com uma dimensão apontada para a unidade de África, materializada numa vivência comum, de grande confluência universal.   

Mia Couto é de opinião que se deve apreciar o legado de Neto por aí, mas, acima de tudo, percebê-lo nas suas várias facetas, integradas pela dimensão política, humanista e poética. Neste particular, Couto refere que teve contacto desde muito cedo com a vida e obra de Neto, constituída de assuntos e particularidades curiosas, cujo interesse remete sempre para momentos ímpares, principalmente quando se entra em contacto com a sua criação poética ou literária. "O livro Sagrada Esperança era, durante a minha juventude, uma referência obrigatória”, pontualiza, deixando transparecer a nostalgia de um tempo que lhe marcou a vida. "Depois, tomei contacto com outros poemas, como o Renúncia Impossível, num período bastante difícil, com todas as barreiras daquela altura, mas que, ainda assim, não impediam que a mensagem chegasse, porque era trazida de viva voz por apaixonados que as declamavam em Moçambique”.

 

O detalhe do verso

O escritor Mia Couto refere-se, repetidamente, a um verso que o marcou e o persegue até agora. "Há um verso de um poema que até agora me persegue, está sempre presente na minha memória... Impaciento-me nessa mornez histórica, das esperas e de lentidão, quando apressadamente são assassinados os justos... " Para o escritor, mais do que o apelo, há um grande momento de poesia, sendo oportuno, diz, que se faça todo um trabalho de valorização e ensinamento do pensamento poético de Agostinho Neto. "É um verso que me persegue sempre, é de uma militância, que contém uma expressão política, mas é uma coisa que fica para sempre, por ser uma poesia que resiste para além do tempo”, exalta.

Agostinho Neto não tinha medo das palavras, este detalhe, segundo Mia Couto, está presente em alguns dos seus versos, quando, por exemplo, fazia apelos com expressões reveladoras de cultura universal,mostrando ser um homem aberto, sem fazer uso da auto-censura, como que dizendo "não vou usar isso por ser pouco angolano”.  "Agostinho Neto usa as palavras para dizer o que pretendia dizer”.

O escritor chama atenção sobre a apreciação ao legado de Neto, afrontando ideias, num puro momento de abstracção, que "se quisermos ser imparciais, a poesia dele é reveladora de um homem que absorveu o mundo”. Por isso, sublinha, o resgate que Neto faz daquilo que é a beleza natural de Angola, está junto daquilo que é (foi) a proclamação da Independência de Angola como uma pátria que deve ser amada. "Vamos nos orgulhar dela porque ela é bela”.

 

Poesia como instrumento

Quanto ao uso consciente da poesia como um instrumento de luta, Mia Couto diz não ter dúvida que Neto sabia o que estava a fazer, conhecia a importância da poesia, de todas as dimensões nelas contidas, desde a função política, literária, sociológica, linguística. "Não tenho dúvidas de que Agostinho Neto tinha a percepção que a poesia, para si, não era só um instrumento, apesar de, em determinados momentos, ter a usado nesse sentido, porque conhecia o poder da poesia”.

Vejamos quando Neto se refere por exemplo nesses termos, sugere o escritor, "eu já não espero, sou aquele por quem se espera”. "Portanto, temos ele próprio a se colocar numa dimensão de libertador, a que a sua vida estava entregue, mas tinha plena consciência,ao mesmo tempo, de que a poesia está para além disso”, frisa o escritor.

"Também fiz poesia num período histórico, e sei que a maior parte dela não sobrevive, portanto a poesia também deve ser entendida nesse contexto. É preciso filtrar, perceber que algumas coisas ficam datadas no seu próprio tempo”, esclarece. Neto tem plena consciência de que a sua poesia tinha repercussões dentro e fora de Angola, então ele a usava como um instrumento político para fazer chegar a mensagem, despertando e mobilizando para o que se estava a passar no país. "Por isso,para mim, ele era um poeta, não tenho dúvida”.

Mas, continua, enquanto poeta, como qualquer outro, tinha de ter uma dimensão universal, não por ser o Agostinho Neto, mas por ser  apenas poeta, aflora Mia Couto. "Temos duas dimensões na sua poesia, fruto de dois momentos poéticos, um usando-a como instrumento político, que funcionou muito bem, outro com poesia pura, sem a presença do discurso de militância”, disse, tendo sugerido que se observe a demarcação, para apurar o detalhe na criação de Neto, contida de uma imaginação profunda a que o interlocutor nega que se mantenha escondida no conjunto de versos poéticos.

 

A pureza dos versos

"É preciso conhecer a outra poesia de Neto, resgatar a pureza dos seus versos. Eu conheço bem a vida e obra de Neto, e sei que isso está lá. Temos de ensinar isso como valor, porque temos em Neto poesia pura”, defende o escritor. Justifica, de sua altivez, que Agostinho Neto era poeta com uma mensagem universal intemporal, devendo,por isso, ser apreciada, enaltecida, mas, sobretudo, ser ensinada na escola, para que os jovens tenham presente esse apelo”.

O escritor Mia Couto apresenta-se como um militante e apoiante da causa de Neto. "Temos que ver que nessa pessoa concreta estão em causa um conjunto de valores que podem, ainda hoje, ajudar a resgatar a nossa moral, permitindo que se contrarie tudo  aquilo que está em oposição aos princípios das nossas independências”.A apreciação da vida e obra de Neto, por Mia Couto, integra a colectânea "Moçambicanos falam de Agostinho Neto”, de autoria da Fundação Dr. António Agostinho Neto-2010, com entrevistas conduzidas pelos jornalistas Altino Matos e Horácio Pedro a 13 personalidades, entre as quais, o antigo presidente Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos, Sérgio Vieira, Roque Félix e Malangatana.  

Na altura, enquanto jovem jornalista, conta, acompanhava as visitas do nosso Presidente Samora Machel, muitas delas a Angola, onde vi de perto Agostinho Neto,”uma figura mítica dos nossos nacionalismos”, se quisermos dizer assim. "Estive na cobertura da sua morte, e recordo-me uma coisa que me tocou para toda a vida: a praça em Luanda (Praça da Independência)estava em enorme silêncio, e, de repente, quando começa o desfile, foi algo terrível, lembro-me de ver na face dos soldados que iam à frente do cortejo fúnebre as lágrimas caírem, era portanto uma nação que chorava... Disse ao meu colega da rádio, espero não ver isso em Moçambique, mas, anos depois, tivemos a mesma dor, o mesmo momento dramático, com a morte do Presidente Samora...

 

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