Entrevista

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Neto negou cortar o “mapa de Angola”

Diogo Paixão

Luís Alberto Ferreira é o mais velho jornalista angolano em actividade. Em 1975 cobriu a proclamação da Independência como enviado da RTP. Tinha na altura 42 anos. Iniciou como profissional em Espanha, em 1957, no vespertino "Madrid" e ao longo de décadas trabalhou para prestigiados jornais em vários países. Em Portugal foi redactor-principal no Jornal de Notícias e grande repórter na RTP. Durante três anos (2015-218) brindou aos leitores deste jornal crónicas deliciosas, na sua rubrica "Subesferas". Conheceu Agostinho Neto em Lisboa, no tempo de estudante. Aos 88 anos, o veterano jornalista descreve, com lucidez, aquele momento histórico

15/11/2021  Última atualização 10H29
Luís Alberto Ferreira é dos poucos jornalistas no activo que cobriu a proclamação da Independência.  Como descreve aquele momento?

Descrevo-o como um reencontro pessoal com as memórias da infância e da adolescência. Memórias críticas e de consciencialização. Vivi os tempos coloniais do "imposto de palhota”, da pulseira de latão impositiva, das rusgas, dos infantes que contraíam barrigas desmedidas porque comiam a areia vermelha dos musseques. Vivi os anos em que Américo Boavida jogava no Clube Atlético Luanda, que o colono, pejorativamente, tachava de "clube dos cozinheiros”. Os tempos da banda de música de Luís Sambo e seus instrumentalistas trajando farrapos… Dos fuzilamentos de trabalhadores angolanos em protesto na fazenda "Tentativa”, no Dande,  "por ordem” do Pinto Caxito, latifundiário explorador.



Em nenhum momento teve receio de que a cerimónia da Independência podia ser perturbada, quando a FNLA estava a poucos quilómetros de Luanda?

A FNLA e mercenários estrangeiros acercavam-se de Luanda quando eu cheguei à cidade. Recordo que chovia de forma torrencial, em Luanda, a 9 e 10 de Novembro de 1975. Levava eu comigo uns 50 exemplares de um poster  de Carlota Machado, quadro político-militar das FAPLA na Frente-Centro-Sul e que havia perdido a vida no Balombo, onde Pepetela comandava as FAPLA. A Luanda voltei, sozinho, por ocasião do 11 de Novembro. Entre os muitos jornalistas presentes, idos do estrangeiro, eu seria sim um caso "especial”. Não pelo facto de ser natural de Angola, mas por termos  estado, em Setembro e Outubro, no país, eu e três operadores da RTP. Tendo observado, no Huambo, em Setembro, a trapalhada que a UNITA, a FNLA e o Batalhão Chipenda protagonizavam, confesso que não me impressionou nada a incursão do pessoal de Holden Roberto nas vésperas da proclamação da independência.
Quando fomos ao Huambo, a UNITA havia manifestado, pouco antes, em Lisboa, onde tinha porta-vozes, a sua "discordância” relativamente a quem de facto detinha a praça do Luena. Lá se encontravam as FAPLA, não as FALA. Tanto assim que a RTP pôde exibir as entrevistas que me haviam concedido os comandantes Paulo da Silva, Dibala e "Dac Doy”.  
Como frisei há pouco, ao contrário do que sucedera em Setembro e Outubro de 1975 eu fui o enviado da RTP,  mas sem operadores de imagem e som. Os despachos, de viva voz, para o telejornal da RTP, fi-los através da Marconi. Uma explicação para a diferença residiria, de certeza, no facto de em Portugal estarem a decorrer as "manobras” que ali conduziriam ao "25 de Novembro”. Tenhamos em conta o tempo que se perdeu até Portugal reconhecer, oficialmente, a República Popular de Angola.



Lembra-se dos Chefes de Estado que estavam na tribuna de honra?

Não posso precisar. Muito vagamente, hoje, sugeriria que, na tribuna de honra, a 11 de Novembro de 1975 estariam, rodeando António Agostinho Neto, o ex-Presidente da Tanzânia, ou da Zâmbia, entre outras personalidades. O que tenho, na memória, como dado adquirido, é que, no adeus a Agostinho Neto, em 1979, que eu presenciei na Cidade Alta, o elogio fúnebre coube a William Tolbert, o então Presidente da República da Libéria. Um texto laudatório de fino talhe literário, recordo bem.



O que mais lhe marcou naquele momento histórico?

Marcou-me, em particular, a serenidade com que o primeiro Presidente angolano proferiu o seu discurso. Nada preocupado com a tal "invasão” ou os indícios de nova carga d’água, pois em Luanda, como referi, chovia a potes, na altura. Mas também me impressionou a tranquilidade do povo de Luanda, muita gente. Quando telefonei para a RTP, um colega, nos estúdios, "revelou-me”, algo excitado: "Não tens medo? Há notícia, aqui, de grandes tiroteios no centro e no aeroporto de Luanda!”. Nada que me causasse estranheza: em Portugal, logo após o 25 de Abril, eclodiu uma vaga de jornais diários e semanários de corte fascista e manifestamente ressabiados com a mudança de regime e com o 11 de Novembro em Luanda. Pasquins como "O Diabo”, "A Rua”, "A Tarde”, "Tempo”  ou "O País”. Com tantos apoios no exterior, não me foi difícil intuir  que a musculação da UNITA determinaria a perpetuidade do conflito armado. Não se equivoca quem sustenta que o ex-presidente José Eduardo dos Santos teve, na pacificação de Angola, um papel de muita relevância. E sucede que, em função desse papel, mudanças sensíveis aconteceram na África Austral.  



A génese o conflito entre os três movimentos é pano para mangas....

Ora, muito bem. A génese do conflito. Pano para mangas. A balcanização do território de Angola interessava a muita gente. A mesma que se alvoroçou com a designação por Agostinho Neto arvorada a 11 de Novembro de 1975: República Popular de Angola. Designação incómoda e preocupante para uma larga faixa do Ocidente, a do "pensamento único”. Não vou teorizar sobre esta matéria porque seria forçoso lembrar muitos homens e ideias, o "Relatório d’Arboussier”, de 1948, por exemplo. Ou a controvérsia sobre "Uma via argelina para o socialismo”, com Houari Boumediène e Ben Bella. O mais interessante talvez seja recordar o episódio do bolo. Quando no palácio da Cidade Alta decorria o banquete cerimonial ofereceram a António Agostinho Neto um grande bolo, vistoso,  que configurava o mapa de Angola.  Ao sugerirem que o cortasse, ele reagiu, exclamando: "De maneira nenhuma. Eu venho lutando, desde há muito, pela unidade dos nossos povos. Não posso cortar o mapa de Angola!”. Resumindo: a génese do conflito, atribuível ao interior e ao exterior do país, respondia à lógica dos interesses mais espúrios.

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