Entrevista

Neto fez um grande esforço para libertar toda a África, não apenas Angola

Em entrevista ao Jornal de Angola, o nacionalista e político Roberto de Almeida fala da sua relação de parentesco e de trabalho com Agostinho Neto. Apesar da diferença de idade, revela factos que ajudam a compreender a luta de Neto pela libertação de Angola, de África e de todos os povos oprimidos do mundo .

17/09/2022  Última atualização 07H55
Nacionalista e político Roberto de Almeida © Fotografia por: Edições Novembro

Como e quando teve o primeiro contacto com António Agostinho Neto?

Em primeiro lugar agradeço a oportunidade que me é dada para falar um pouco mais sobre o saudoso Agostinho Neto. Tenho sido abordado várias vezes nesta ocasião. Quero também dizer que a grande diferença de idades que existe entre mim e Agostinho Neto não permite que eu conheça todas as facetas da sua vida e, também, pelo facto de o mesmo ter passado grande parte da sua vida no exterior. Agostinho Neto saiu de Angola em 1947, após a morte do pai para estudar em Portugal, depois de ter concluído o Liceu aqui e pretendia seguir o curso de Medicina. Naquela altura, não havia universidade onde ele pudesse frequentar a formação e em 1947 vai para Portugal. Nesta altura, eu vivia na comuna da Barra do Dande, província do Bengo, com os meus progenitores. O meu pai era professor e pastor metodista e a minha mãe também professora, os dois dirigiam uma escola e uma igreja numa localidade que dista pelo menos a seis quilómetros da Barra do Dande, que se chama Musseque Cabele. Embora tenha nascido em Caxicane, pouco tempo lá passei. Porque o meu pai antes foi pastor e professor em Caxicane, por isso é que eu nasci nesta localidade.

 

O seu pai nasceu em Caxicane?

Não. O meu pai é de Catete. A minha mãe é de Calomboloca. Mas o meu pai é também de uma localidade de Icolo e Bengo que se chamava Ginganga, salvo erro e não sei se ainda existe.

 

Mas existe uma relação de parentesco com Agostinho Neto?

Sim. A minha mãe é irmã mais nova do pai de Agostinho Neto, que se chamava Agostinho Pedro Neto. O pai de Agostinho Neto era o irmão mais velho da minha mãe, de nome Mariana Pedro Neto. Além de ser o mais velho foi, também, o tutor da minha mãe. É a partir deste vínculo que nos tornamos muito próximos. Eles eram três irmãos, nomeadamente Agostinho Pedro Neto, Maria Pedro Neto e Mariana Pedro Neto (a caçula, que era a minha mãe).

 

Mas qual é a origem da família?

É mesmo Icolo e Bengo, porque os avós também eram daquela região.

Mas a mãe de Agostinho Neto não era daquela região…

Não. A mãe de Agostinho Neto , a senhora Maria da Silva Neto, não é de Icolo e Bengo. Salvo erro penso ser de Cuanza-Sul ou Benguela (não posso confirmar ao certo). A Igreja Metodista tinha acções de cultura da juventude e também dos adultos onde havia uma espécie de lares (internatos). Viviam vários estudantes de várias origens que tinham a necessidade de serem instruídos, frequentar escolas, não tinham meios, os pais eram provenientes de outras regiões e encontravam-se em diferentes locais. Aqui em Luanda, havia pessoas que vinham de outros locais como Malanje e também havia um centro destes onde se juntavam várias pessoas. Creio que a mãe de Agostinho Neto foi uma destas pessoas que frequentou estes centros, onde o pai de Agostinho Neto a conheceu e depois casaram.

 

Quando é que Agostinho Neto vai para Portugal?

Foi em 1947. Nessa altura, não tinha a imagem dele porque eu tinha apenas seis anos e vinha algumas vezes a Luanda com a minha mãe saindo do Musseque Cabele. Muitas vezes, alojámo-nos na casa da mãe de Agostinho Neto, no Bairro Operário. Mas Agostinho Neto já tinha partido para Portugal. Em casa eu ouvia falar de Neto, sobretudo naquele período em que ele começou a sofrer prisões e interromper os estudos. Em casa eu via fotografias dele e comentava-se muito sobre ele. Via muitas fotografias dele enquanto esteve cá e outras com a batina da universidade em Portugal. É assim que comecei a conhecer Agostinho Neto: pela fotografia.

 

E qual era o sentimento naquela altura na família quando Agostinho Neto começou a sofrer prisões e a ser perseguido pela polícia política?

O sentimento era de consternação (não era morte claro), mas sabíamos que havia muito sofrimento nestas prisões coloniais e ainda mais longe da família, das amizades, etc.

 

E quando conheceu pessoalmente Agostinho Neto?

Pessoalmente só venho a conhecê-lo em Dezembro de 1959, quando ele terminou o curso e casou-se com a Maria Eugénia Neto e regressa a Angola, em Luanda. Nesta altura, lembro-me que fui um dos elementos que foi ao porto buscá-lo juntamente com outros jovens que moravam em casa dos pais de Agostinho Neto, onde era uma espécie de lar e viviam, também, as pessoas mais relacionadas com a família.

 

Fala-se também da passagem de Simão Toco na casa dos pais de Agostinho Neto…

Não sei, não me lembro… Talvez antes ou depois de ter passado por lá. Mas morou lá também o José Mendes de Carvalho "Hoji-ya-Henda”, Jacob Caetano "Monstro Imortal” e outros. O pai de Agostinho Neto como pastor foi transferido depois para o Piri,  nos Dembos. E naquela altura, todos os pastores tinham muitos afilhados que eram baptizados nas igrejas. E como pastor também era professor,  encarregava-se já da educação do afilhado. Muita gente para continuar os estudos tinha de se deslocar a Luanda onde havia o Liceu e ficavam alojados na casa da mãe de Agostinho Neto.   

 

Pode continuar a descrever a chegada de Agostinho Neto a Luanda…

Sim, em Dezembro de 1959, ele foi viver em casa de um irmãono bairro do Cruzeiro, actualmente Patrice Lumumba. O irmão chamava-se Pedro Agostinho Neto. Era o mais velho e, curiosamente, faleceu no dia 3 de Setembro de 1979, uma semana antes da morte do Presidente António Agostinho Neto. E neste período, a casa começou a receber muita gente mais velha, do seu tempo, que o conhecia antes de partir para Portugal, que iam saúdá-lo. Nós, como miúdos, só espreitavamos e não nos podíamos introduzir naquela roda dos mais velhos.

 

Mas qual era o vosso sentimento em ver Agostinho Neto?

O sentimento era de satisfação e muita alegria, até porque o conhecemos pela primeira vez pessoalmente. Era uma entidade que reverenciavamos e respeitamos muito. Não sei precisar quanto tempo ficou na casa do irmão, até que foi morar numa casa alugada atrás do hotel Alameda, , na Alameda Dom João II, que após a independecia passou a denominar-se Manuel Van-Dúnem (arredores do Zé Pirão). Ali havia uma farmácia: Farmácia Angola, ao lado da antiga LAL (Luz e Água de Luanda), actualmente  EPAL. É nesta farmácia onde o Dr. Américo Boavida tinha um consultório e, como conhecia bem Agostinho Neto, passaram a trabalhar juntos. Passado algum tempo, Agostinho Neto abriu o seu próprio consultório, na rua de São Paulo, e depois abriu um outro no Zangado, rua da Brigada, onde dava consultas médicas e medicamentosas gratuitamente. Aliás, essa faceta dele como médico de prestar serviços gratuitos também já se tinha revelado na Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, onde esteve preso. Tratava as populações locais. Aliás, na Ilha de Santo Antão há um hospital com o nome de Agostinho Neto. É uma região montanhosa e quase não havia caminho e ele deslocava-se de burro. Foi com a abertura destes dois consultórios que iniciou a actividade como médico, em Luanda.

 

Nesse período, como é que era visto um negro médico, uma vez que não havia muitos?

Sim, não havia muitos. Pelos portugueses havia três espécies de sentimentos em relação à figura de Agostinho Neto. Alguns mais esclarecidos e instruídos respeitavam Agostinho Neto, outros temiam-no e tinham medo porque ele regressa a Luanda com o rótulo de prisioneiro contra Salazar e que tinha estado nas cadeias e para muitos era perigoso. Mesmo em Portugal havia estudantes brancos que evitam falar com ele. Há um colega dele do curso de medicina que se chamava Hélder Martins (já falecido) que foi ministro da Saúde em Moçambique no Governo da Frelimo. Ele conta um episódio em que comiam juntos na cantina da Faculdade de Medicina em Portugal, onde os estudantes podiam comer refeições mais baratas na universidade. Na cantina, alguns colegas evitavam sentar-se na mesma mesa onde estava Agostinho Neto.

 

Porquê?

Arranjavam desculpas, mas não se sentavam com Agostinho Neto porque ele tinha saído da cadeia e havia aquelas histórias como: esse é perigoso… não falem com ele, cuidado! Mas muitos o respeitavam pelo trato dele. Agostinho Neto não falava muito, era reservado e tinha de conhecer a índole das pessoas. Mas era afável e quase simpático, porque não era aberto.

 

E com os familiares?

Com os familiares era mais aberto, sobretudo os da sua época mais idosa.

 

E o que ele falava?

Procurava saber mais sobretudo o que estávamos a estudar e como era o nosso ambiente no Liceu, comportamento com os colegas e como éramos tratados pelos professores. Era mais à volta do nosso ambiente estudantil.

 

Mas onde encontraram Agostinho Neto para ser preso?

Foi no consultório de São Paulo onde ele foi preso em Julho 1960. Muitas pessoas e colegas, que o conheciam já introduzidos na actividade política clandestina em Angola, iam conversar e trocar impressões com ele e estavam já a organizar, também, uma rede clandestina naquela altura em Luanda, em prol da libertação do país. 

 

E para vocês que viviam na mesma casa ao vê-lo ser preso novamente qual era o sentimento?

Foi de desgosto, quer para nós como para a mãe dele (que já era viúva). Mesmo quando ele chegou de Portugal já dizíamos entre nós meio a brincar: este não vai durar muito (risos) por causa da PIDE. E nós procurava-mos resguardá-lo um pouco, mas ele era destemido, não tinha receios de nada, reunia, falava com aquelas pessoas conhecidas.

 

E como soube da prisão de Agostinho Neto?

Foi num período em que íamos às aulas e depois a casa almoçar. Não me lembro exactamente do dia e da reacção, até porque nós os mais jovens não soubemos do acontecimento de imediato. Tomamos conhecimento apenas algumas horas mais tarde. E havia ainda uma ténue esperança de que se tratava de uma prisão ligeira e depois seria solto. Pensávamos que não poderia ser nada grave nem pesado. Infelizmente não foi nada disso. Foi uma prisão duradoura e levado ao desterro, em Lisboa e depois enviado para Cabo Verde.

 

Essa prisão de Agostinho Neto não desincentivava os jovens da época a seguirem o seu exemplo?

Não. Nós já nos conhecíamos e já estavam em circulação panfletos. Em Luanda havia actividade política clandestina e alguns de nós também participamos. Mesmo como estudantes tínhamos a nossa a actividade secreta e orientadas por pessoas que procuravam conduzir-nos directamente em relação à política e tínhamos pequenas tarefas como: distribuir panfletos, levar cartas ao correio e outras actividades que requerem algum sigilo cuidado para que a polícia (PIDE) não detectasse. Claro que eles estavam já organizados e tinham as suas formações políticas e nota-se pelo secretismo e confidencialidade. Era preciso ter algum cuidado e não se podia falar abertamente. Mas é preciso dizer que eu vivi em casa da mãe de Agostinho Neto com a minha irmã Deolinda Rodrigues, que também estava embrenhada nestas actividades. Ela era mais velha e não era tão miúda como nós, a minha diferença de idade com ela era de três anos. Mas ela já tinha os seus conhecimentos, organizava chás em casa mas só para falar sobre política. Eram sobretudo jovens metodistas e não só.

 

Também é essa a época da Liga Nacional Africana? 

Sim! Mas nesta altura não frequentamos a Liga Nacional Africana, porque não tínhamos grande conhecimento das actividades da Liga…

As vossas actividades eram mais centradas na igreja?

Certo, na juventude da igreja. Havia três organizações juvenis que estavam organizadas para terem actividades religiosas, culturais e desportivas, conforme as idades. Os mais jovens, onde eu estava incluído, tinham idades entre os 15e 20 anos, e constituíamos o grupo chamado X. Depois havia aquela idade intermédia, dos 20 aos 25, que se chamava Esquadrão da Cruz e, finalmente, os mais velhos acima dos 25, que constituíam o grupo Estandarte de Cristo. Todos ligados à Igreja Metodista. Mas desenvolviam as suas actividades, como palestras e jogos como basebol, basquetebol, voleibol, futebol e outras modalidades, por via dos missionários americanos. Também tínhamos as nossas "tardes sociais”, que eram sessões de músicas e farra. E nestas sessões, os missionários não gostavam muito porque tinham a tendência de separar os rapazes das meninas. Mandaram vir dos Estados Unidos um gira-disco, que naquela altura era uma preciosidade e pouca gente tinha este aparelho de som. Com isso,  organizamos as nossas farras um pouco às escondidas e tínhamos sempre alguém à porta a vigiar se algum missionário estivesse a vir (risos). Quando um deles viesse éramos logo alertados e naquele instante tocávamos apenas músicas religiosas (risos).


Mas os missionários influenciavam, também, naquilo que era uma visão sobre o colonialismo?

Não. Havia abertura na Igreja Metodista e foi aí que conhecemos Eduardo Mondlane (um dos fundadores e primeiro presidente da FRELIMO) quando passou por Luanda. Era funcionário da Organização das Nações Unidas e ia para os Camarões, onde havia um referendo sobre a independência dos Camarões relativamente ao problema da sua divisão: porque tinha uma parte inglesa e outra francesa. E até houve lá uma parte alemã. Então a sua passagem por Luanda, a caminho dos Camarões, era para ir, através de referendo, resolver esta divisão. Mais tarde, apareceu também Amílcar Cabral.

Amílcar Cabral vivia em Angola nesta altura…

Sim, era engenheiro na Fazenda Tentativa (actual Heróis de Caxito), província do Bengo. Depois esteve também na CADA (Companhia Angolana de Agricultura), na Gabela, Cuanza-Sul. Há uma fotografia onde estamos com ele numa excursão na praia Samba e várias outras individualidades. Depois começaram a vir aqui bispos negros americanos e jovens missionárias negras que tiveram a sua influência e contavam como era a vivência dos negros nos Estados Unidos e que também havia luta. Então aquele sentimento de luta lá e cá, que praticamente já tínhamos iniciado, ligava-nos.

 

Mas havia também contactos com outras igrejas protestantes?

Eu não sei a nível institucional, se havia ou não, naquela altura. Podia ser que entre os missionários houvesse contactos. Porque naquele tempo, a Igreja Protestante teve sempre chefes angolanos, entre eles o pai do Emílio de Carvalho, do Zeca Matoso, do Raimundo Sousa e Santos, do Bornito de Sousa, o meu pai também foi pastor, entre outros.  Muitos destes estiveram presos. 

 

Esta é a fase do 4 de Fevereiro. Como é que viveu este momento e onde é que estava?

Eu estava cá em Luanda.                                                            

 

Mas sabia da preparação do 4 de Fevereiro?

Não sabia, mas sentíamos que havia qualquer coisa. Saber precisamente quando seria e o que havia de acontecer não. Já havia o Processo dos 50, em que foram presos gente nossa conhecida como Nobre Pereira Dias, Mendes de Carvalho, Noé Saúde, Hélder Neto e outros. Não digo que este episódio nos amadureceu, porque já estávamos maduros e muitas vezes íamos visitá-los na Casa de Reclusão onde estavam presos.

 

Essas visitas eram permitidas? Não havia receios?

Eram permitidas, mas não íamos lá muitas vezes, uma vez ou outra. E muitas vezes dávamos nomes falsos, no momento das visitas. Um nome que eu adoptei e até parece que havia mesmo um escritor com este nome era António Fernando da Costa. Eles não pediam documentos e colocamos lá um nome qualquer. Portanto, antes de 1961 já tínhamos indícios dos acontecimentos e isso levou-nos a optar. Além disso, um facto também importante que se deu quando éramos estudantes, em 1958, foi a tomada, pela Índia, de Goa, Damão e Diu. Isso fez um grande alvoroço aqui entre os portugueses. Realizaram-se manifestações aqui e iam ao Palácio a gritarem: Goa, Damão e Diu… são nossas, são nossas, e nós procurávamos sempre escapar dessas manifestações, mas ao mesmo tempo surgia o interesse pela política para perceber os vários fenómenos que estavam a ocorrer.

 

Depois dá-se o 4 de Fevereiro…

Sim. Acho que foi numa quarta-feira, salvo erro. Eu morava ali no bairro que se chamava Quilómetro 7 (onde está a actual Igreja Metodista da Betel, na Avenida Brasil. Onde está hoje o Hospital Militar era o Quilómetro 5. Chamava-se Quilómetro 7 porque havia um comboio que saía da Estação do Bungo, passava pela Robert Houdson, onde havia uma ponte de ferro e o comboio passava por cima e os carros por baixo, e aí até à Estação da Cidade Alta, próximo ao Largo da Maianga e chegava até à zona entre o Hospital Militar e a Maternidade Lucrécia Paím, era o Quilómetro 5. Portanto, os barros ali tomavam a designação de acordo com a quilometragem do comboio. O comboio partia daqui e passava pela Escola Industrial/Cine Atlântico e ia até ao Quilómetro 7. Depois continuava até a Viana, onde se chamava Quilómetro 21. Há pessoas aqui que já não se lembram disso, mas são histórias antigas. Eu morava em casa da minha irmã mais velha num anexo de madeira, à frente moravam o Ismael Martins e a família do Desidério Costa. Ali também morava o Simão Cardoso de Malanje, era metodista e irmão do comandante do MPLA Janguinda. Moravam nesta mesma zona um conjunto de pessoas que se conheciam e todos metodistas. Aconteceu um tiroteio inesperado e tinha eu 20 anos. Aquilo foi um tiroteio muito violento que eu tremia na cama e parecia que as balas passavam por cima da casa.

 

E quais foram os momentos que se seguiram?

Era de repressão, rusgas, muita gente começou a ser presa e ouvíamos que o fulano foi preso.

 

Também chegou a ser preso?

Não. Em 1961 eu tinha concluído o sétimo ano do Liceu Salvador Correia, aqui em Luanda. Era finalista. O Liceu organizava uma excursão dos finalistas para Portugal que juntava, também, alunos da Escola Industrial. Fiz parte desta actividade e foi a primeira vez que me desloquei a Portugal, depois do 15 de Março, quando rebenta a "coisa” no Norte de Angola. E em Janeiro, o Zé Mendes, Ismael e o Elísio Figueiredo tinham fugido para o Congo. Eu também tinha de seguir com eles, mas não o fiz.

Porquê?

Porque eu queria ter uma bolsa de estudos para dar continuidade à formação. Pensei que se concluísse aqui o sétimo ano teria mais vantagens e com as duas disciplinas que me faltavam para concluir o sétimo ano isso me daria a obtenção da bolsa de estudo. Foi este o meu pensamento, mas soube que eles iam. Eu fiquei com a missão de acalmar a família e disse que eles foram ao Lobito numa excursão, quando na verdade era mesmo a fuga para o Congo. Em Março, organiza-se esta excursão de estudantes para Lisboa. Naquela altura, os aviões da TAP escalavam um aeroporto no Norte da Nigéria, em Kano. Nesta excursão, fui observando bem como eram as ligações aéreas, pensando já em fugir numa outra viagem. Não tínhamos passaporte e, sobretudo, tinha a pressão do serviço militar obrigatório, que eu não queria de jeito algum fazer no Exército português. Então, por todos os meios, procurei escapar, mas fui até Lisboa na excursão e depois regressei. Depois abordamos um missionário americano que era bispo metodista nos Estados Unidos e que controlava as igrejas em África. Eu, o João Filipe Martins e o José Agostinho Neto (irmão do saudoso Presidente Neto) falamos com ele sobre o plano que tínhamos de tirar a passagem como se fossemos a Lisboa, mas escapar na escala que o avião faria em Kano, na Nigéria. Ele se prontificou em pagar-nos as passagens com a "máscara” de que íamos continuar os estudos em Lisboa. A Nigéria ainda não era totalmente independente e estava num regime de autonomia e o aeroporto era controlado pelos ingleses e os nigerianos que havia lá eram cipaios e não dominavam ainda o circuito no aeroporto, de maneira que tentamos sair do país mas diziam que não podíamos. Naquela altura, os aviões da TAP tinham sempre pessoas ligadas à PIDE que acompanhavam o voo. Os nigerianos escoltaram-nos até ao avião e obrigaram-nos a embarcar e seguir viagem até Lisboa, onde fomos presos de Julho a Outubro. Depois regressamos para Angola sempre escoltados por agentes da PIDE até à sua sede, que funcionava próximo ao actual Palácio, para a verificação dos processos e depois fomos encaminhados para a cadeia de São Paulo.

 

Como era estar preso na cadeia da PIDE?

Primeiro já conhecíamos a PIDE, devido às visitas que realizávamos para visitar os presos. A PIDE aqui era um terror. O que se dizia da PIDE era verdade, não era nada inventado, era uma polícia que arrancava confissões aos presos na base da tortura, pancadaria e chicotes. Mas não esperávamos que fossemos ficar presos durante muito tempo. Fiquei na cadeia de Julho de 1961 a 1 de Março de 1963. Mas fui preso novamente em Junho do mesmo ano. Aí foi já uma prisão mais dura com mais 15 companheiros, nomeadamente o Escórcio, Lopo, Aires de Almeida Santos, Mário Torres e outros, mas já na cadeia da Comarca, onde permanecemos até ao julgamento. Nós constituímos o chamado MIPLA (Movimento Interno Popular de Libertação de Angola), porque os portugueses diziam sempre: isso aí MPLA em Angola não existe e que eram pessoas que vinham do Congo. Nós queríamos indicar que o MPLA estava cá dentro.

 

Este movimento era liderado por quem?

Nesta altura, era liderado pelo Hermínio Escórcio, era o cérebro que estava a dirigir o movimento. Mas tinha outras pessoas como Lopo do Nascimento, Aristófanes Couto Cabral, Aires de Almeida Santos, José  Carlos Vieira Lopes, Rui Gonçalves, Joaquim Henriques Monteiro "Xuxudo”, Mário Torres, Sebastião Bernardo Pascoal, Manuel João Afonso Neto, Jorge António Mateus, João Henriques Garcia (Cabelo Branco), Eduardo da Conceição Pires Júnior, Augusto dos Reis Fançony, Armando dos Santos Estima, Pedro Bula e outros elementos. Nesta segunda cadeia, em 1963, fomos julgados em 1965 e soltos em 1968. Depois fomos condenados, uns com 18 meses, até houve um que apanhou seis meses, mas continuou até 1968, porque estes julgamentos  de crimes que eles consideram contra a segurança do Estado e tentativa de separação da mãe pátria, além da pena aplicada havia, também, aplicação arbitrária de medidas de segurança, como pena complementar. Por exemplo, suspensão de direitos políticos por 15 anos, medidas de segurança de um a três anos prorrogáveis ou não. Quer dizer que o preso podia continuar na prisão por tempo indefinido.

 

Quando é que volta a reencontrar Agostinho Neto?

Depois da prisão voltei a reencontrar Agostinho Neto em Lundogi, por ocasião dos Acordos de Paz entre o MPLA e os portugueses do Movimento das Forças Armadas (MFA), constjituida após a Revolução dos Cravos, em Portugal. Este acordo deu-se  em Outubro de 1974.

 

E como foi mobilizado para estes acordos?

Foi por intermédio do MIPLA e, depois da nossa prisão, continuamos já como MPLA. Isso depois do 25 de Abril, porque já havia mais abertura. Nós tínhamos um contacto mais directo com um capitão do MFA chamado José Emídio da Silva. Quando se desenhou essa oportunidade de fazer acordo com o MPLA, o MFA pediu que indicassem alguém da actividade política interna para ir também ao Moxico para assistir este acordo e fui indicado. Foi nesta altura que me encontrei novamente com Agostinho Neto.

 

Como foi o reencontro? Reconheceu-o logo?

Foi em 1974. Ele reconheceu-me logo e perguntou mais como estava a família e transmiti-lhe, verbalmente, a mensagem do MPLA, de que eu era portador. Essa mensagem era de apoio a Agostinho Neto, porque havia uma certa divisão no seio do movimento. Ele depois foi lá nas conversações. Eu aguardei fora da tenda onde estavam reunidos, juntamente com outros jornalistas portugueses. Em Fevereiro de 1975 ele vem a Luanda.

A partir deste momento passa a trabalhar mais directamente com Agostinho Neto?

Ainda não. Nos primeiros tempos trabalhávamos mais com o camarada Lúcio Lara, na avenida da Liberdade, na Vila Alice. Depois de sair da cadeia, em 1968, consegui um emprego na Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA). Em 1970 concorro para trabalhar no Banco Totta Standard de Angola, mas antes de uma tentativa falhada no BCCI (Banco de Crédito Comercial e Industrial), porque eles mandaram uma nota para a PIDE, no sentido de saber se eu e o Lopo de Nascimento podíamos trabalhar neste banco. A PIDE negou. Mais tarde o partido requisitou-me em nota assinada por António Jacinto, que na altura era o "homem” dos quadros. Entrei para o Comité Central do MPLA em Dezembro de 1977, no primeiro Congresso em Luanda.

 

Qual era a ideia de Agostinho Neto em relação a Angola, era uma ideia mais soviético comunista? 

Agostinho Neto tinha ideia do estado em que se encontrava Angola. Aliás, a política dele sobre alfabetização e poder popular ia no sentido de organizar o povo e a população. Embora sendo nacionalista e querer o bem de Angola, ainda não tinha suficiente consistência política para saber discernir no plano internacional e regional com aquelas investidas de Mobutu e dos sul-africanos, sobretudo o que Angola devia seguir, porquê que deve combater. O combate tinha de ser orientado numa base política. Essas organizações como ODP tinham objectivos políticos e não era só defesa da pátria, mas incutir na mente dos combatentes que o combate deve ser dirigido por uma orientação política. Toda esta visão política que se preparou visava formar a consciência do povo angolano no sentido da libertação total do homem, libertação económica, cultural e em todos os planos. Agora dizer que isso era comunismo, não era comunismo…

 

Qual era a orientação ideológica de Agostinho Neto e do MPLA?

Desde o princípio foi sempre o socialismo, mas científico, que se baseava na formação do povo, seguindo as bases doutrinárias de Marx e Lénine. Na prática não se podia empreender logo este caminho, ainda tínhamos muito para poder chegar a uma sociedade socialista concretamente. Fizeram-se algumas tentativas, como por exemplo a planificação centralizada, depois as nacionalizações e confiscos, que não foram tantos, por ser a linha ideológica que determinou as nacionalizações. Foi mais o abandono das grandes propriedades. Se os grandes proprietários fugiram de Angola, deixaram as roças e fábricas, alguém tinha de pegar e tinha de ser o Estado naquela fase, mas para não deixar que as coisas fossem completamente destruídas e era importante impor alguma ordem e aproveitar alguns trabalhadores mais fiéis e conscientes que tinham dedicado quase toda vida nestas propriedades.

 

Um dos grandes traços também deste tempo foi o afastamento de muita gente ligada à igreja…

Formou-se depois o Partido do Trabalho, que, em princípio, passou por um movimento de rectificação, de que eram excluídos os religiosos. Entendeu-se, nesta altura, que se podia formar uma força política mais coesa e bem doutrinada na base do socialismo científico. Foi uma fase… 

 

Um dos grandes problemas também desta fase e depois arrastou-se e temos memória de um dos seus posicionamentos e de Agostinho Neto é que já falavam sobre corrupção…

Um só não. O próprio movimento mesmo, não era minha criação. Houve a ofensiva generalizada contra o liberalismo e desorganização que tinha na sua base o princípio de destruir alguns males que afectavam economicamente o país. Por exemplo, a fábrica produzia 100 panelas, 10 eram para o trabalhador X e 10 para o Y. Era preciso combater estas práticas que traziam prejuízos à economia nacional, que ainda não estava suficientemente organizada. Daí também a necessidade de se introduzir aos trabalhadores das fábricas e nas empresas a organização partidária, para ajudar a formar aquela consciência de que os bens são de todos, não se deve destruir e apropriar. E depois as coisas mudaram e muitos destes princípios foram abandonados, entramos na economia de mercado.

 

Outro grande traço da política de Agostinho Neto foi a reconciliação nacional, estabelecendo pontes principalmente com os angolanos que estavam no ex-Zaire. Como é que vocês conduziram este processo?

Eu também participei e lembro-me que foram dois momentos. Era, sobretudo, fazer uma abertura em relação aos angolanos que reconhecessem os seus erros e quisessem regressar ao país. Fomos a vários países, além dos limítrofes, onde havia maior concentração de refugiados angolanos. Eu estive na Suíça e falei com vários cidadãos nacionais que estavam lá, um dos quais o Samuel Abrigada (que foi ministro aqui). Houve várias tentativas, para além do Governo do Mobutu e de outros governos africanos, que tinham tendência de apoio aos movimentos FNLA, UPA e a UNITA, mais tarde.

 

Como é que encararam a ida de Agostinho Neto pela primeira vez ao Zaire ao encontro de Mobutu?

Houve uma certa apreensão e desconfiança em relação a esta posição destemida do Presidente Neto deslocar-se até ao Zaire. Havia o receio de que lhe pudesse acontecer alguma coisa, porque conhecíamos as posições de Mobutu contra o Governo de Angola. Foi uma deslocação muito arrojada de Agostinho Neto, de modo que alguns quadros, militantes e dirigentes viram este acto com muita reserva. Certas pessoas opuseram-se à sua ida ao Zaire, mas Neto entendeu que era o momento e foi.

 

Outro momento marcante na vida política de Agostinho Neto foi a luta contra o apartheid, ao determinar que "na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul estava a continuação da nossa luta”…

De facto! Aliás, Agostinho Neto teve sempre consciência de que não teríamos paz enquanto houvesse ainda territórios ocupados sob domínio estrangeiro perto de nós. E naturalmente procurou-se apoiar, de todas as formas, o combate libertador.

 

Mas custou muito caro a Angola. Não havia oposição dentro do partido?

Tivemos, houve destruições e perdas de vidas humanas, não só dos refugiados que albergamos aqui. Por exemplo, no Massacre de Cassinga morreram muitos namibianos, sul-africanos e, sobretudo, combatentes angolanos, além da formação de guerrilheiros quer da SWAPO como do ANC demos o apoio necessário.

 

Acha que o MPLA está a saber honrar  a memória do Presidente Agostinho Neto?

Tem se falado muito em incluir, nos currículos escolares, matérias sobre Agostinho Neto e disciplinas, sobretudo entre a juventude que não viveu estes períodos, e poder conhecer a figura do Presidente Neto. Conhecer melhor os seus combates, revéses e dificuldades. Acho que isso ainda não está feito até agora, mas é um caminho a empreender. Estamos a honrar a sua memória com comemorações todos os anos e, agora, especial o centenário do seu nascimento que terão uma maior amplitude. Estamos a honrar na medida do possível aquele que foi o Fundador da Nação e primeiro Presidente da República Popular de Angola.

 

O Estado actual das coisas, dos angolanos e da situação do país reflectem aquilo que o Presidente Agostinho Neto sonhou?

É preciso colocar as coisas no contexto devido. Agostinho Neto sonhou com uma África libertada e empenhou-se em libertar estes territórios vizinhos. Agostinho Neto viveu num tempo em que havia a guerra fria e duas potências mundiais. Depois o mundo tomou uma direcção unipolar. Então há muita diferença entre o que Agostinho Neto sonhava e o que veio a registar-se depois fora das nossas capacidades de agir sobre essas circunstâncias actuais. Pode se perguntar se Agostinho Neto se adaptaria aos momentos actuais, como o que a história universal atravessa neste momento, com o pensamento que ele procurou implementar em Angola. É uma questão difícil de prever, mas creio que ele não se adaptaria a essas transformações que ocorreram no mundo dos nossos dias. Mas fez um grande esforço para libertar toda África e não apenas Angola. Devemos ter em conta, também,a grande camaradagem que existiu entre as antigas colónias portuguesas e o apoio dado a Timor-Leste, uma antiga colónia lusa, mais afastada do círculo africano. Podemos também dizer que naquela altura ele traçou o caminho que Angola devia seguir internamente, não prevendo ainda o contexto mundial que se veio a firmar depois.

A firmeza de Neto

Qual é a grande recordação que tem do Presidente Neto?

Há várias recordações, mas talvez deva mencionar a firmeza de Agostinho Neto perante a iminência da morte do MPLA. A firmeza que demonstrou no pseudo congresso de Lusaka, em que se procurou derrubar o MPLA. Ele tomou a posição de abandonar o congresso e organizou a conferência inter-regional de militantes no interior. Outro grande momento foi a expulsão do MPLA de Leopoldovile para Brazzaville, em que ele continuou a dirigir o MPLA com quadros jovens, porque muitos superiores que tinham a formação militar mais adequada afastaram-se, desertaram e alguns retomaram os estudos que tinham interrompido. Agostinho Neto continuou a avançar com os jovens. Em 1963, Hoji-ya-Henda tinha 22 anos e tinha saído do país em 1961 para uma formação rápida na Argélia e outros. Eram quadros jovens, miúdos  que continuaram com Agostinho. Outro momento foi em 1977, o problema do fraccionismo também quase que derrubou o MPLA, porque houve também muitas contradições no seio do partido e Agostinho Neto assumiu as suas funções com os erros que foram cometidos, mas não deixou que a nossa barca soçobrasse, apesar das divisões internas que haviam e pronunciamentos que eram feitos, mas conseguiu aguentar tudo. Ele foi um comandante muito firme nas suas convicções e na direcção do povo que acreditava nele.   

 

Como foram os últimos momentos com o Presidente Neto antes da sua morte em Moscovo?

Ouvimos e acompanhamos a proclamação da independência nacional, os discursos que fez e visitas às quatro províncias, mas longe de nós pensar que ele ia desaparecer pouco tempo depois de tudo isso. Estávamos confiantes de que continuaria a dirigir a nação e o povo angolano e nada fazia crer que perderia a vida aos 57 anos. Era bastante jovem e capaz de conduzir os destinos do país. Não conseguiu executar ou imprimir ao p

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