Opinião

Neto escrito e falado

Luciano Rocha

Jornalista

O aniversário da morte de Agostinho Neto, em 17 de Setembro, despoletou uma série de iniciativas destinadas a homenageá-lo, o que provocou, também, um turbilhão de ditos e escritos, parte dos quais melhor era não terem acontecido.

22/09/2022  Última atualização 06H00

A falta de conhecimentos, arrepiantemente confrangedora, sobre os diferentes aspectos caracterizadores da  personalidade daquele que teve a honra de ser o primeiro Presidente de Angola, que ajudou a sonhar e começou a construir, reflecte, outrossim, o estado em todos os graus do nosso ensino.

O que se tem ouvido e lido, nos últimos tempos, chega a ser insulto à memória de Neto.  Reflecte impreparação, a vários níveis, revelada por quantos atrevidamente falam e escrevem do que não sabem, nem lhes interessa saber. Não basta recorrer à Internet, passar os olhos por jornais antigos, livros do homenageado ou que se lhe referem, decorar datas e locais, como quem cola selos numa carta, com um olho no início da fila que o separa do guiché dos Correios e o outro no carro mal estacionado, tão pouco mencionar passagens de discursos, poemas. Requer estudo apurado, logo sem dispensa  de investigação aturada feita de cruzamento de ideias de distintos temas. Concordantes, mas, igualmente, opostas junto de adversários, mas, outrossim, de companheiros de trilhos infindos recheados de cruzamentos  com destinos vários  para reencontros combinados, nem sempre acontecidos.

Estudos de personalidades com a dimensão de Agostinho Neto podem durar uma vida, por vezes mais, porque quem os faz, de forma séria, frequentemente está insatisfeito com o que consegue, quer sempre ir além, o aprofundamento do que procura. Ora, o que se tem visto e ouvido, salvo honrosas excepções, a confirmarem a regra, revela exactamente o contrário. Isto é,  tudo  menos discrição empenho. Talvez sede de ser notado, ouvir o próprio nome  pronunciado, mesmo que fugazmente. É uma das características da vulgaridade com resultados estampados em todos os ramos profissionais e segmentos da nossa sociedade. Negar isso é tentar imitar a criança que tapa os olhos convencido que não é visto após traquinice com castigo previsto nos compêndios familiares  de outros tempos... caídos em desuso!

As excepções do que foi  dito e escrito, com conhecimento de causa, sobre Neto, espera-se que tenham servido de alertas face à ignorância de tanta gente que não foi, além de poeta e primeiro Presidente de um país novo, criança, filho, estudante, intelectual, marido, pai, amigo, conspirador e lutador activo contra regimes opressores dos direitos fundamentais dos povos, preso, desterrado, médico, exilado, guerrilheiro, estratega político, condescendente.

Agostinho Neto, como ser humano, não era "poço de virtudes” , tinha, por isso, naturalmente, defeitos - ampliados e inventados pela inveja e má-língua - que não o impediam de ser cortês, ouvir, estender a mão a quem tinha visões diferentes da política e do poder, como demonstrou, em mais do que uma ocasião, com compatriotas, designadamente da FNLA e UNITA, e estrangeiros, de que Mobuto, Chefe de Estado da então República do Zaire, é apenas um exemplo.

Os alertas feitos por alguns dos que, recentemente, falaram e escreveram sobre a vida e obra do nosso primeiro Presidente - não por terem decorado datas e episódios, folheado um dos livros de que é autor ou o referem,  conversado ocasionalmente com ele - devem servir para comprovar o alheamento  geral da Nação angolana sobre um dos nossos vultos maiores , tal como o que se deve fazer para começarmos a esbater essa  vergonhosa lacuna na nossa memória colectiva.

No cume das preocupações de Neto estavam, estiveram sempre,  os mais ignorados e sofridos, nunca  o escondeu. Num dos últimos discursos, recordado, há dias, pela TPA Notícias, lembra aos operários e camponeses  ser deles liderança do MPLA e do país, jamais da burguesia. 

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