Entrevista

“Nenhum lugar do mundo é igual à nossa terra”

Desde 2011 no cargo de Directora do Museu Regional da Huíla, Soraia Ferreira alimenta o sonho de ver a riqueza cultural angolana mais explorada no exterior. Acredita que a instituição que dirige, com os apoios necessários, pode jogar um papel importante nesse processo.

01/03/2020  Última atualização 15H42
Arão Martins | Edições Novembro

Qual é a missão do Museu Regional da Huíla?
O Museu Regional da Huíla é etnográfico, representa os hábitos, costumes, crenças e tradições dos povos do sul de Angola. Estamos a falar, de uma forma mais genérica, dos Nhanecas, dos Oshiwambos, dos Hereros e dos Ganguelas. A missão do museu é levar ao maior número de pessoas a diversidade e a riqueza da cultura desses povos.

Em termos de acervo, como está o museu?
Este museu surpreende pela positiva. As pessoas que passam por aqui em frente e não conhecem a instituição pensam que o museu é apenas esta parte de cima visível à estrada. Mas é uma casa um bocadinho maior, com capacidade para albergar um conjunto significativo de peças.
Além das peças em exposição, cerca de 300 que compõem as oito salas, temos reservas. Temos um depósito onde existem outras colecções, o complemento dessa exposição visitável. Há outras colecções. Há, por exemplo, uma de arqueologia, uma numismática (monetária), de postais, de filatelia, estatuária colonial, de etnografia portuguesa, etnográfica, fotográfica, com cerca de duas mil fotografias, bibliográfica, com cerca de oito mil livros. É um museu que, apesar de ter como foco a etnografia local, incorpora no seu acervo outras colecções que podem ajudar a compreender a evolução dessa região.

Esse acervo todo em depósito também é visitável?
Não. Neste momento, a única colecção visitável é a etnografia daqui dos povos da região sul de Angola. As outras estão em reserva. Podemos, entretanto, programar exposições temporárias usando o material arqueológico ou numismático. Mas são materiais que estão apenas em depósito.

Como tem sido a frequência dos visitantes ?

Nos últimos anos temos recebido cada vez mais visitantes. A maioria são os estudantes. A partir do momento do inicio do ano lectivo, as visitas tornam-se frequentes, diárias e bastante intensas. No período de pausa, de Dezembro a Fevereiro, é um pouco menos agitada a vida no museu. Mas conseguimos ter uma dinâmica interessante com o número de visitantes recebido até agora.

Disse ser interessante essa dinâmica de actividade. O trabalho de museologia faz parte da sua formação?
A minha licenciatura é em História Maritarqueologia (Arqueologia Náutica). Sou arqueóloga. Mais, depois, com a actividade profissional, iniciei, de facto, a fazer arqueologia. Tomei contacto com museus de Arqueologia e acabei por apaixonar-me pela área da museologia. Por isso especializei-me em museus e património cultural. Neste momento, estou a fazer doutoramento em estudo do património.

Há quanto tempo dirige o Museu Regional da Huíla e como chegar a esse posto?
Integro os quadros do museu, desde 2011. Participei num concurso público e fui inserida como técnica superior. Na altura, o Governador provincial da Huíla, Isaac dos Anjos, entendeu que o meu curriculum e a minha especialização poderiam encaixar-me no Museu Regional da Huíla. Tive uma experiência anterior, em 2009, na Direcção Provincial da Cultura, onde adquiri conhecimentos e práticas de direcção.

Como encontrou o museu e como está hoje?
Sofreu muitas alterações, desde 2011. Quando vim, era uma instituição menos dinâmica e a precisar de visibilidade. Era pouco conhecido. Os que sabiam da sua existência, pensavam que estava encerrado. Não era verdade. Desde a sua fundação, em 1956, esteve sempre em funcionamento. Mesmo no período de guerra, esteve a funcionar.
Houve necessidade de começarmos a desenhar projectos. Primeiro apostamos na divulgação. Começamos a passar a imagem e a informação de que quem quisesse visitar o museu poderia fazê-lo a qualquer momento. Fizemos um trabalho intenso junto das escolas e da população, através dos órgãos de comunicação social. Todos os anos, passamos a convidar as escolas do município do Lubango a visitarem o museu.
Depois, foi preciso organizar a instituição por dentro ( arquivos, biblioteca e uma série de condições internas) para conseguirmos fazer um bom trabalho e prestarmos um melhor serviço ao público. Foi um processo de transformação radical, desde 2011 à 2020.
O grande problema neste momento são os recursos humanos. A política, desde o início, foi a de fazemos tudo. Se for preciso fazer limpeza, fazemos todos. Se for preciso organizar o inventário das colecções, também organizamos. Criamos um espírito de entre ajuda muito grande e conseguimos alcançar os resultados obtido até agora.

Disse que tem tido resultados positivos, acha que já é museu que esperava que fosse?
Ainda não. A história, a importância do acervo, a multiplicidade de áreas de conhecimento, é potencial que precisa de ser mostrado ao público. Poderíamos, perfeitamente, ter um museu mais multidisciplinar. Precisamos de mudar para instalações novas. O edifício em que estamos existe desde a fundação do museu. Foi adaptada a função de museu. Era residência de um médico português, que foi transferido para Luanda. Sei que existem registos, documentos que nos dizem que desde a fundação, em 1975, que se esperou por uma estrutura nova. Até agora, continuamos a espera da construção de um museu de raiz, com outras condições que permitam explorar o máximo do potencial que esse tem.

E em relação a isso deram alguns passos?
Sim, alguns. Em 2014, fez-se um levantamento e elaborou-se um projecto de construção de um museu de raiz. Mas, com a crise económica por todos nós conhecida, acabou por ficar um pouco em “Stand bay”. Esse projecto existe. O governo provincial tem esse projecto, desenhado em 2014.

A maneira como fala deste museu...com paixão.
Olha, vou ser muito franca. Sou uma apaixonada pelo Museu Regional da Huíla. Desde que vim para cá, em 2011, alimentei a ideia de fazer alguma coisa diferente pelo museu, tornar esta instituição numa referência da museologia em Angola. Esse é o meu sonho.
É muito bom sentirmos o fruto do trabalho que fazemos ao longo dos anos. E temos tido resultados, como disse, muito positivos. Temos conseguido muitos apoios e muitas coisas que temos conseguido ao longo dos anos tem sido graças à confiança que os empresários locais têm depositado na gestão do museu e nos vão ajudando a melhorar.
Vou dar vários exemplos: Há dois anos, beneficiamos do patrocínio da empresa de tintas Neuce, para pintar o museu por fora. Tínhamos a colecção de estatuária colonial a precisar de tratamento, a fábrica de água Preciosa acabou por patrocinar, juntamente com outras empresas, como a Planasul e a Concer, a reabilitação dessas estatuárias, a construção dos cristais e a colocação das estátuas no local que deu logo uma imagem exterior mais cuidada e diferente.
Temos tido o apoio, quase incondicional, por exemplo, do Banco Económico, que, desde 2016, patrocina, todos os anos, um projecto diferente do Museu Regional da Huíla. Em 2016, patrocinaram o Contador de Histórias, uma sala usada para contar histórias às crianças visitantes, principalmente dos cinco aos 12 anos. O Banco Economico patrocina essa sala com mobiliário e livros.
O Contador de Histórias pode ser o funcionário do museu, o professor acompanhante dos estudantes, o pai ou o irmão mais velho, até mesmo o aluno mais novo com capacidade de contar uma história aos seus colegas. São experiências muito interessantes nessa sala.
A Contadora de História mais nova tinha 11 anos. A menina vinha visitar o museu com a sua turma e depois acabou por ser ela a contar história aos próprios colegas. Em 2018, patrocinaram o Catálogo do Museu, o primeiro publicado pelo museu desde a sua fundação. Em 2019, patrocinaram-nos uma viatura, a única ao serviço do museu.
Há outras empresas mais pequenas a apoiarem-nos, a exemplo da Top Oferta, na manutenção do edifício, a loja Pulsangola, em material informático e softwares de gestão de bibliotecas. Tem sido um trabalho de procura de parceiros, de pesquisas, entrega e de compromisso. As parcerias funcionam muito bem, no nosso caso, porque existe essa confiança das empresas para com o museu. Temos tido essa colaboração benéfica.

Uma mensagem aos visitantes e, de uma maneira geral, a toda sociedade…
A mensagem é a de sermos uma instituição aberta e disponível para receber toda e qualquer pessoa, seja em grupo, seja individual. Visitem a nossa página no Facebook, para nos conhecerem um pouco melhor. Publicamos tudo o que vai acontecendo por aqui. Apelo, também, para apelar a divulgação e valorização das potencialidades da cultura e do nosso país no exterior.
Tive a possibilidade de estar fora de Angola algum tempo e digo que nenhum lugar do mundo é igual a nossa terra. Acredito que as outras pessoas de outros pontos do mundo sintam o mesmo. Sinto que o meu lugar é aqui e farei de tudo ao meu alcance e dar sempre o meu melhor para contribuir para o desenvolvimento do nosso país. Essa é uma característica que me acompanha desde sempre. Mesmo quando estava a fazer a licenciatura, o meu desejo era regressar, estar aqui para dar o meu melhor.
Vou dar o meu melhor, seja onde eu estiver, seja no museu, numa Universidade, numa escola, ou ONG. Onde estiver, darei o meu melhor para contribuir para o desenvolvimento do nosso país e, principalmente, para passar uma imagem diferente do nosso país.

Por que essa necessidade de passar uma imagem diferente?
Porque muita gente lá fora tem uma imagem muito negativa de Angola. E nós somos muito mais e melhores do que isso. Temos de lutar cada vez mais para passar a imagem do potencial de Angola, em termos turísticos, culturais e de ralações humanas. Temos de conseguir fazer passar essa mensagem. Muitos falam, hoje em dia, de racismo e outros assuntos delicados. Vivi a minha vida inteira em Angola e nunca senti qualquer tipo de discriminação, de racismo, nem fui essa pessoa para com os outros. Sempre me senti muito integrada, muito filha da terra e é isso que quero que as pessoas saibam em relação a nós angolanos, pois somos pessoas que conseguem integrar-se e inserir-se. Somos pessoas que sabem receber e acolhedoras. Vejo muita gente a conviver com os angolanos de uma forma muito saudável e, às vezes, isso não passa lá fora. Nós pessoas sociáveis, hospitaleiras e pessoas que sabem viver. Eu acho que os angolanos sabem viver muito bem.

Perfil

Nome
Soraia de Fátima Martins dos Santos Ferreira


Data de nascimento
17/05/1981


Naturalidade
Lubango


Filiação
Ana Paula Quental Martins dos Santos
e José Luís Gomes dos Santos

Estado Civil
Casada


Sabe cozinhar
Sim, mais não gosto


Desejo
Poder acompanhar o crescimento das duas filhas


Local de sonho para férias
Sonho ir às Maldivas


Perfume
Uso a marca Minoritium


Passatempo
Leitura


Música
Kizomba e Semba


Poligamia
Algo cultural que não se pode criticar


Homossexualidade
Cada um é livre do que quiser ser, desde que não prejudique o outros

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista