Opinião

Nem tudo o que está bater é Top dos Mais Queridos

Leonel Kassana

Jornalista

O 36º concurso Top dos Mais Queridos organizado pela Rádio Nacional (RNA) rendeu merecida homenagem à Kizomba e espelhou no palco a percepção que a juventude angolana tem do que é a Cultura angolana, pois que a música é a ponta do iceberg de qualquer cultura.

08/10/2018  Última atualização 10H44

A juventude angolana, que mais vota, está social e culturalmente desorientada. Entramos numa era em que os jovens, salvo raras excepções, comem o que lhes impingem. Adoptam modismos sem reflectir. Tanto os que produzem as manifestações culturais, quanto aqueles que as consomem. 
O primeiro sintoma da estreiteza de bambu em que a nossa música está espetada é o facto de, neste Top dos Mais Queridos, não ter surgido nenhum concorrente do interior. No interior do país ninguém canta? Não se faz música? O que é que os ditos governadores andam a fazer que não promovem e divulgam a música regional?
Dentro desta estreiteza geográfica, confinada a nossa música aos autores de Luanda, o Top dos Mais Queridos perde em diversidade nacional. Há nele outro tipo de diversidade que, parecendo muito salutar para o nosso clã discográfico, representa masé um degrau da nossa submissão ao imperialismo musical anglo-saxónico e luso-brasileiro. 
Quanto aos prémios. No da Crítica, esperava ver Filho do Zua ser reconhecido. Filho do Zua emprestou ao palco do Top uma composição em estilo semba muito original, com a sua voz argêntea. Este prémio, que não espera pelos votos anónimos, pode ser, no futuro, mais isento e assertivo se o júri for constituído por jornalistas culturais dos principais órgãos da Comunicação Social. Ou então, agregar ao prémio da Crítica, uma nova modalidade, intitulada Prémio da Imprensa. Nesta modalidade avaliativa, poderia ser considerado o desempenho não só dos cantores, mas também o dos conjuntos musicais. Por exemplo, o grupo de músicos que fez o arranjo musical e a instrumentação da canção de Zé Maria Neto, Zungulubé, merecia o Prémio da Crítica, porque, desde 1975, data em que saiu a público a composição dos Merengues para a canção Tribalismo, de David Zé, que o semba angolano não produz uma criação sonora tão penetrante. 
Os prémios do Top dados à distância: Kyaku Kyadaff merece sempre um prémio pela excelência vocal, a originalidade das letras e pelo seu apego a África. A incongruência que lá vislumbramos foi o segundo lugar atribuído a Gerilson Israel. A canção que ele interpretou, “Minha Bêbada”, é um plágio rítmico da canção “Fall”, do músico nigeriano Davido. Cá está a prova do mau gosto dos votantes. O terceiro lugar para Matias Damásio é que me saiu como um peixe kabuenha na ponta da linha de pesca.
A canção de Dom Caetano, Vizinho tem Cara de Pau, é um tema muito corriqueiro, pouco abonatório para quem já nos brindou com músicas como Nova Cooperação. Nem só de rítmica vive a música, mas de toda a palavra que sai da boca do cantor.
Noite e Dia com o seu kuduru erótico e obsceno partiu o palco com a líquida electricidade das suas bailarinas. Contudo, não é de sã compostura para um espectáculo do estatuto do Top dos Mais Queridos o lascivo rebolar dos glúteos e o levantar da perna direita a espantar o inamovível deus da Moral com o grito histérico “Lhavança!” A menina que saltou lá do alto do suporte metálico das luzes podia ter quebrado algum osso. O kuduru é assim mesmo, gritava Noite e Dia. Só que o nosso país tem hoje um grande défice de bons costumes e a música tem um papel crucial na moralização da sociedade.
Resumindo e concluindo: a RNA deve elencar um rol de critérios para se poder concorrer ao Top dos Mais Queridos e fazer a primeira triagem só das músicas que não belisquem esses critérios. Estive a ler atentamente o Diário do meu confrade Gociante Patissa “Há gente a colher sem plantar no Top dos Mais Queridos da RNA?” publicada nas redes sociais e estou plenamente de acordo com o que ele diz: “No caso do Top dos Mais Queridos, (...) a questão que se vem levantando nos últimos anos é a concorrência mais ou menos desleal que alguns de nós vemos quando por exemplo se premeiam intérpretes de temas de si já muito populares, quase sempre da década de 70. (...) Não seria melhor optar pela uniformização, definindo para já a natureza dos temas, se originais ou se “emprestados”?
Conselho aos mais novos: porque não organizam encontros regulares com o Rei da Música, Elias dya Kimuezu, para dele beber toda a vasta experiência e sabedoria? Estão à espera do dia em que nos vai dizer adeus, para irem ao seu funeral, como gesto inútil de quem não o honrou em vida?

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