Cultura

Natal etíope celebrado em Luanda

Analtino Santos

Jornalista

Os anfitriões do Natal Etíope em Luanda lamentaram não terem feito uma festa maior devido às restrições impostas pela pandemia da Covid-19 e não poderem usar as vestes tradicionais.

16/01/2022  Última atualização 08H30
Membros da comunidade etíope em Luanda celebraram, no dia 7 de Janeiro, o Ganna ou (Genna), o Natal da Etiópia © Fotografia por: Dralton Maquina
Como em Luanda não existem condições para os cânticos dentro das igrejas com instrumentos tradicionais como Sistro e Makamya, instrumentos de percussão e bastão, este momento foi substituído pelas músicas religiosas do sistema de som do Ethio-Habessa Restaurante, na Vila Alice.

Os etíopes esclareceram alguns aspectos desta festa e como ela tem sido comemorada em Angola ao longo de mais de uma década.  Michael Geda, responsável do Ethio Habessa Restaurante, a viver em Angola há oito anos, disse que sempre que está em Luanda participa do Natal e convida angolanos. Hailé Deressa, há 15 anos no país, referiu que este momento é sempre partilhado com os "irmãos angolanos”. "Não tem sido fácil trazer o lado mais religioso porque existem poucas igrejas ortodoxas”, sublinhou.

Kideste falou em representação das mulheres que prepararam a comida partilhada pelas famílias presentes na celebração. As crianças usaram roupas tradicionais de cor branca chamadas Netela e fizeram brincadeiras próprias para os momentos festivos, cantando em amarico, a língua da Etiópia.

Semere Kidane, um dos anfitriões, recordou o ambiente em cidades como Lalibela, onde acontece a principal festa e destino de grande parte dos turistas que nesta época visitam a Etiópia. Este ano, só da diáspora, a expectativa era de um milhão de visitantes, sem contar os turistas. Com nostalgia falou dos jogos que acontecem durante o dia do Ganna como o Yagenna Chewata, semelhante ao hóquei, e o Yefera Guk, onde homens jogam lanças entre si enquanto cavalgam.


Conheça o Genna

Genna vem da palavra Gennana, que significa "iminente” e expressa a vinda do Senhor e a libertação da humanidade do pecado. É tido como o dia do nascimento de Cristo, de acordo com a Igreja Ortodoxa Etíope. Ganna assinala-se no dia 29 do mês de Tahsas do calendário etíope, o nosso 7 de Janeiro. Onze dias depois do Ganna os etíopes voltam a reunir-se para celebrar o Tinkat, outra festa religiosa.

Ganna é uma ocasião religiosa com tradições únicas. Não existe a entrega de presentes porque o foco principal está no ritual e na cerimónia religiosa.  Janeiro é considerado um dos melhores meses para visitar a Etiópia, porque o clima é quente e chove pouco. O principal destino é Lalibela, seguido de Adis Abeba. As principais actividades acontecem dentro e ao redor das igrejas ortodoxas, com os habitantes locais a participar de procissões e serviços especiais.

Diferente do Natal ocidental, a entrega de presentes não é fundamental para a tradição do Natal da Etiópia, porque o foco está no ritual e na cerimónia. Dentro das igrejas, geralmente circulares, as pessoas se alinham ao redor dela e fazem uma longa procissão em circunferência, acompanhada por um coro e uma série de instrumentos tradicionais, como um sistro, um tambor em forma de pandeiro.

Nas ruas e igrejas, usam uma peça de roupa tradicional chamada Netela. Vestida de forma semelhante a um xaile, a Netela é uma peça de roupa de algodão branco com orlas trançadas de cores. Como vestido tradicional da Etiópia, o Netela é usado em outros feriados e ocasiões festivas. Na Etiópia, o Natal é a festa por excelência das crianças  que pelas ruas de Adis Abeba e Lalibela caminham com ar vaidoso e confiante pela mão dos adultos, envergando o seu novo kemise, o vestido tradicional das meninas.

O Natal Etíope é antecedido por um jejum de 43 dias, que começa aos 25 de Novembro, dia conhecido como Tsome Nebyat (Jejum dos Profetas). Neste período os etíopes comem apenas uma refeição por dia, isenta de carne, lacticínios e ovos. Por isso o 7 de Janeiro é bem aproveitado para degustar a rica gastronomia marcada com muito picante.

O melhor lugar para viver o Natal etíope é Lalibela, uma cidade do norte do país conhecida pelas suas igrejas talhadas na rocha e considerada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. Os peregrinos se aglomeram nas igrejas escavadas na rocha, adornados com vestidos brancos. Segundo os interlocutores, a missa na escuridão da noite nas passagens subterrâneas dessas igrejas antigas é uma experiência inesquecível. A população de Lalibela quase dobra quando milhares de peregrinos descem à cidade e se reúnem nas colinas ao redor das igrejas escavadas na rocha.


Curiosidades de um país milenar

No calendário etíope, também chamado Calendário Eritreu, o  ano tem 13 meses porque calcula-se o ano de nascimento de Jesus Cristo de maneira diferente. Quando a Igreja Católica rectificou o seu cálculo no ano 500 d.C., a Igreja Ortodoxa Etíope não o fez. O Ano Novo para os etíopes cai nos dias 11 e  12 de Setembro em anos bissextos. Doze meses têm 30 dias e o mais curto, que é o 13º mês com cinco e seis dias. Enkutatash é a palavra para o Ano Novo Etíope em Amárico, a língua oficial da Etiópia, enquanto é chamada de Ri'se Awde Amet ("Aniversário da Cabeça”) em Ge'ez, o termo preferido pelas Igrejas Ortodoxas Etíopes e Eritréias Tewahedo. O dia também é dividido de forma diferente em turnos de 12 horas, mas começa às 6 horas da manhã o que torna o meio-dia equivalente às 18 horas.

A Etiópia foi durante muito tempo chamada de Abissínia. Os etíopes reivindicam para si a localização do antigo reino de Sabá, citado na Bíblia. O país possui grande concentração de cristãos e muçulmanos. Na sua maioria, os cristãos seguem a Igreja Ortodoxa Etíope. Os judeus negros da Etiópia são conhecidos como falashas. Acredita-se que sejam descendentes do Rei Salomão e da rainha de Sabá.

A Etiópia também é a nação independente mais antiga de África. Os seus cidadãos orgulham-se de não terem sido colonizados, apesar de a Itália ter chegado perto de a colonizar, tendo ocupado os seus territórios num período de seis anos. A  capital, Adis Abeba, que em português significa "Nova Flor”, é a sede da União Africana, que sucedeu a Organização de Unidade Africana (OUA), que nasceu a 25 de Maio de 1963 por iniciativa de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia.

Em algumas tribos da Etiópia o conceito de beleza das mulheres está associado  ao tamanho dos lábios. Ou seja, quanto maiores os lábios, mais bonitas são. A Etiópia é a terra de origem do café.  Alguns dos mais antigos resquícios da presença humana foram encontrados na Etiópia. Está provado em estudos de cientistas que o homo sapiens tenha provavelmente se originado lá.

É o lar da Arca da Aliança para muitos etíopes, o baú sagrado contendo as duas tábuas com os Dez Mandamentos que a Bíblia diz que foram dados a Moisés por Deus. É também lugar de muçulmanos, sustentado pela seguinte frase: "se você for para a Abissínia, encontrará um rei que não tolerará a injustiça”, disse o profeta Mohammed aos seguidores, quando enfrentaram a perseguição pela primeira vez em Meca no século VII, na actual Arábia Saudita. Os muçulmanos etíopes acreditam que 15 discípulos do profeta também estão enterrados em Negash. Na história islâmica, essa mudança para Aksum ficou conhecida como a primeira Hijra ou "migração”.

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