Reportagem

Nascimento de trigémeos abençoa pais no sofrimento

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

Lábios secos e rosto pálido. Justina Cassinda “Chinda” está sentada na sala num banquinho de madeira, quase aos pedaços. Chinda, como é carinhosamente tratada por familiares e amigos, segura ao colo dois bebés. Um de cada lado. O marido está juntinho. Sentado noutro banco que clama por substituição, António Ndambuca “Sequesseque” pega outro bebé nos braços. A mãe amamenta, em simultâneo, dois recém-nascidos.

08/05/2022  Última atualização 11H50
© Fotografia por: Domingos Mucuta

Os bebés estão forrados em panos inadequados. Tranquilos como anjinhos, estão descobertos nas cabeças por falta de tocas ou xailes para protecção contra o vento. Nascidos saudáveis, chupam o leite materno com vitalidade. Saciado, um dos recém-nascidos solta o mamilo. A mãe percebe e troca.

Recebe cuidadosamente a terceira criança do pai para amamentá-lo.

Em alguns instantes, os três meninos adormecem profundamente. A mãe levanta devagar. Pede ajuda ao marido que abre a cortina desgastada pelo tempo, colocada à entrada do quarto. O casal leva os trigémeos para dormir. Justina Cassinda sai do quarto num passo lento. Ainda de "parto fresco”, o rosto dela releva dores e cansaço. Os trigémeos nasceram de um parto normal, realizado na maternidade do Lubango, província da Huíla.

Corajosa, "Chinda” faz esforço adicional para lavar algumas peças de pano, dividido para servir de fraldas. O amor de mãe é divino. Diante da dor provocada pelo parto, Cassinda faz tudo para garantir o que pode aos seus filhos mesmo ante as dificuldades por que passa para cuidar dos recém-nascidos.

A senhora explica que está surpreendida com os trigémeos porque não fez ecografia quando estava grávida. "É muita alegria. Esta é uma grande surpresa. Estou feliz”, declara a mãe de 32 anos.

Bênção na carência

Dois sentimentos antagónicos tomaram conta do coração do pai António Ndambuca "Sequesseque”, 46 anos. Ele está feliz por receber os trigémeos. Mas o sentimento de preocupação é por falta de condições para cuidar dos novos membros da família.

António Ndambuca afirma que o nascimento do trigémeo é considerado pelo casal como bênção do sofrimento. "Sequesseque” explica que a chegada de crianças é sempre uma bênção porque trazem alegria aos pais, familiares, amigos e vizinhos.

"É bênção mesmo com nosso sofrimento”, afirmou, sorridente, o pai de nove filhos que lamenta o facto de nascerem num momento difícil por estar desempregado.

António Ndambuca explica que exerce serviços de mototaxi, numa motorizada do vizinho. Esta situação condiciona ter rendimento regular para assegurar as despesas alimentares e escolares das crianças.

"As vezes, o dono precisa da motorizada. Quando isso acontece, eu fico sem fazer nada. O sofrimento é demais. Não temos nada aqui para cuidar das crianças. Está muito difícil sustentar a família”, referiu.

A esposa acrescenta também que os filhos são bênçãos de Deus. Apesar das dificuldades a mãe garante cuidar bem dos meninos para crescerem fortes e saudáveis. "Deus é que nos deu estas crianças. Não estava à espera destes todos. São as nossas bênçãos do sofrimento”, argumenta "Chinda”, natural do bairro Kalomanda, na cidade do Huambo.

O casal tem agora nove filhos. Os primogénitos são gémeos. O histórico de gémeos vem da família da esposa. O nome Cassinda na tradição ovimbundu é atribuído ao que sucede aos gémeos. Cassinda acredita que por ter irmãos gémeos é normal ela também nascer filhos pares ou triplos.

"Na barriga da minha mãe tem gémeos. Agora eu também estou a nascer”, relata, satisfeita com a vinda dos filhos ao mundo.

A equipa de reportagem do Jornal de Angola questionou o casal se conheciam os métodos de planeamento familiar. Os dois afirmam que tentaram apenas quando queriam estabelecer intervalos maiores entre filhos. "Depois dos primeiros partos de gémeos, fazíamos escadinhas”, afirmou Cassinda, na tentativa de explicar o intervalo curto de nascimento entre os filhos.

Já o esposo considera complicado seguir os métodos de planeamento familiar. "É difícil. Quem vai sustentar os pais são mesmo os filhos. Se não tem filhos quem vai te cuidar na velhice?”, indaga. 

Acrescentou que os filhos são um bom investimento para o futuro. "Ter filhos é uma coisa boa. Mesmo no tempo difícil temos que nascer. São eles que vão nos cuidar depois”, argumenta, deixando tudo em aberto para mais rebentos. "Como estou ainda com a mulher… (risos) as coisas acontecem assim. A mulher tentou apanhar pica mas não resultou”, afirma, às gargalhadas.

A esposa Justina Cassinda também acredita que os filhos "são mesmo bênção do casal”, mas promete "apertar no botão de pausa” porque "o peso para sustentar os filhos é demais”.

Refeição colhida do quintal

As dificuldades enfrentadas pela família de Sequesseque e Cassinda vão além da falta de enxoval para os bebés. A mãe refere que a lavra no quintal salva os filhos do pior. A mãe dos trigémeos está sem leite no peito por falta de alimentação adequada. Ela não sabe o que fazer para melhorar a situação e amamentar os bebés. Cassinda acrescenta que o leite artificial é ainda uma miragem

O recurso, referiu, é comer massaroca fervida para se manter. "Não está a sair leite. A comida está difícil”, lamenta, antes de lançar mensagem para a família, residente no bairro Kalomanda, no Huambo, com destaque para os irmãos César e Teresa Nené.

Os pais fazem das "tripas coração” para proporcionar uma refeição aos filhos. Para minimizar a carência alimentar aproveitam cultivar milho, batata, hortícolas e outras culturas num pequeno espaço disponível no quintal da casa arrendada onde vivem.

O ciclo de maturação do milho é mais curto. Em três meses, a família aproveita a massaroca. A batata-doce demora quase um ano para amadurecer. Enquanto aguardam a maturação da batata-doce, a família colhe a rama para os molhos. Aquando da visita da nossa equipa de reportagem, uma vizinha, que se predispôs a ajudar, fervia no fogareiro uma panela de massarocas para o almoço.

Para comer dependem de biscates. A venda de massarocas assadas. Mas na condição actual "Chinda” está impossibilitada de exercer este trabalho. Neste momento, a família depende da ajuda de pessoas de boa fé, como vizinhos e amigos, para sobreviver. A situação revela precariedade. Se conseguirem uma refeição por dia os membros dormem felizes. Os filhos menores apresentam sinais de desnutrição.

Grito de socorro

A família vive numa zona suburbana, algures por detrás da antiga fábrica de refrigerantes Coca-Cola, no bairro da Mapunda, arredores da cidade do Lubango. A casa onde vivem é de adobe com dois quartos e uma sala. As paredes apresentam algumas fissuras, facto que aumenta os riscos de vida, sobretudo em épocas chuvosas. O piso é de chão bruto. A cobertura é de chapas de zinco.

O esposo relata que alguns meses atrás uma das paredes caiu enquanto a família dormia. Informa também que falta água potável e energia eléctrica na zona do Chipindo. Lanterna, candeeiro e o fogareiro têm sido alternativa para iluminação à noite.

Sequesseque afirma que a tragédia não aconteceu por um triz. "Foi sorte porque a parede caiu fora. Fechamos a parte partida. Queremos ajuda. Quem puder pode nos localizar”, exortou.

As três crianças em idade escolar estudam no ensino público. Os pais enfrentam dificuldades para aquisição de material escolar. Quase todas as crianças andam descalças e com roupas rotas. Apesar disso, os pais sonham com um futuro melhor para os filhos. "Pode ser que aqui vai sair jornalista, motorista, médico ou presidente da república”, augura.

O casal lança o "grito de socorro” para pessoas de boa fé. Sequesseque e Cassinda precisam de todo tipo de ajuda, desde alimentação, roupa usada para os filhos crescidos e enxoval para os recém-nascidos.

Justina Cassinda disse que as crianças estão sem leite e roupa. Ela conta que não preparou enxoval suficiente para os três bebés porque foi uma surpresa. "As crianças não têm nada. Eu não trabalho. Às vezes, asso massaroca para conseguir alguns trocos. Precisamos de ajuda. Por favor”, lançou o apelo, reforçado pelo marido: "Queremos ajuda do Governo e de outras pessoas que têm bom coração”, apelou António Ndambuca "Sequesseque”, antes de anunciar o número de telemóvel 921064815 para eventuais apoios.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem