Reportagem

Namibe: Camucuio assinala 105 anos com sinais de progresso

João Luhaco | Moçâmedes

Jornalista

O município do Camucuio, província do Namibe, completa, hoje,105 anos desde a sua fundação, em 1917.

11/10/2022  Última atualização 06H50
Vista parcial de uma das localidades do município do Camucuio, província do Namibe © Fotografia por: DR

Consta que  na altura a região foi concebida como um projecto colonial para a ocupação de terras. A localidade, situada a 234 quilómetros a Norte da cidade de Moçâmedes, tem mais de 60 mil habitantes, na maioria agricultores e pastores de gado.

Com uma extensão de 700.452 quilómetros quadrados, o município tem três comunas, nomeadamente as Cacimbas, Chingo e Mamue, limitados a Sul pelos municípios da Bibala e Moçâmedes e a Norte pelo Quilengues (Huíla) e Chongoroi (Benguela). A região tem um clima tropical seco semi- desértico, precipitações anuais de 150 mm, com uma temperatura que atinge em média até 30 graus centigrados. 

Os habitantes estão distribuídos em diferentes grupos étnicos, com maior destaque para os mucubais, nhanecas humbi, ovimbundos, mucuisses e mutchilengues.

A agricultura e a criação de gado caprino e suíno constituem as principais actividades da população para garantir a auto-sustentabilidade. O milho, massambala, massango, feijão, hortícolas e tubérculos, são os produtos mais cultivados na região, mas o mau estado das vias de acesso dificultam o processo de escoamento dos produtos das aldeias para os principais centros de consumo.

Algumas famílias camponesas do Camucuio contaram, ao Jornal de Angola, que, apesar de terem escassez de sementes e outros meios, estão empenhadas na  actividade agrícola para a resiliência alimentar e enaltecem os apoios da administração local. 

O camponês Katuia Figueiredo exprimiu satisfação por ter sido beneficiado, recentemente, de sementes de milho e massambala. "A chuva aqui na região Sul atrasa. Por isso, o conselho que deixo aos meus colegas camponeses é de que, quem depende exclusivamente da chuva, quando esta cair com intensidade tem que se empenhar para aproveitar ao máximo e contribuirmos, assim, para a redução da fome", disse.

No âmbito do Programa do Combate à Fome e à Pobreza, a Direcção Municipal da Agricultura e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO)  estão engajadas na implementação de escolas de campo, para desenvolver novas técnicas de cultivo nas comunidade. 

O director municipal, José Gaspar, disse que mais de oito toneladas de sementes de cereais estão a ser distribuídas de forma faseada para a população camponesa. "Estamos a implementar o projecto de escolas de campo, que tem como objectivo disseminar técnicas melhoradas, de modo a ultrapassarmos a actividade de beneficência para a agricultura de mercado", revelou. 

O director municipal da Agricultura no Camucuio admitiu existirem "muitos constrangimentos" nesta empreitada, devido a complicações nas vias de acesso. "Os agricultores têm dificuldades em evacuar os produtos para a cidade", lamentou José Gaspar, que congratulou-se, entretanto, com o facto de a estrada principal estar a ser reparada. Espera que as vias terciárias também sejam reabilitadas, por ser por meio delas que partem os produtos do campo para a cidade e vice versa.

Relativamente à pecuária, o responsável informou que se prevê, para os próximos tempos, vacinar mais de 30 mil cabeças de gado bovino contra o carbúnculo sintomático e dermatite nodular . O município do Camucuio está entre as localidades mais afectadas pela estiagem, a par da Bibala, Virei e outras do município do Tômbwa e Moçâmedes . Para mitigar o impacto da seca no seio das populações, as administrações viram-se obrigadas a traçar planos estratégicos para garantir as condições de vida das  vítimas da seca.

Mais de 30 furos de água foram reabilitados e construídos, no município do Camucuio, para abastecer a população, abeberar o gado e praticar a agricultura. Os furos feitos no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM).

Mais água e energia  

O director municipal de Energia e Águas, Severino Chivela, disse estar em carteira projectos que visam ampliar a rede de abastecimento de água aos habitantes.

Relativamente à energia eléctrica, Severino Chivela garantiu estarem, igualmente, em curso projectos de colocação de mais postes para a melhoria da iluminação pública em todas as comunas do município. 

Ao todo, 461 famílias consomem energia no município do Camucuio. O problema tem sido o consumo com combustível, uma vez que o município é abastecido a partir de fonte térmica. Mensalmente são gastos 30 metros cúbicos de combustível, mas a empresa Prodel tem apoio neste sentido.

Sector económico

As autoridades do município do Camucuio licenciaram 151 cidadãos para o exercício do comércio e procedeu à formalização de sete cooperativas agrícolas, transformando os pólos e associações em cooperativas. 

O director municipal de Desenvolvimento Económico Integrado, António Tchinanga Mpeio, disse estar a fazer-se, igualmente, o acompanhamento do trabalho dos agentes municipais de apoio à produção e à economia. 

Estão, até ao momento, registados 70 produtores e os agentes municipais de apoio à produção e à economia continuam no terreno a fazer o registo dos produtores. 

"Já terminámos aqui na sede do município e, nesta altura, estamos a fazer nas comunas. Também estamos a acompanhar o PAPE (Plano de Acção para a Promoção da Empregabilidade), que aqui, a nível do município, está a ser liderado pelo INEFOP (Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional). Já temos o registo, numa primeira fase, de 21 jovens beneficiados. Na segunda fase, prevê-se mais 14 jovens, que vão beneficiar de kits profissionais”, disse.

Mais de 200 professores garantem o ensino 

O município do Camucuio tem 17 escolas, dentre as quais dois complexos e um liceu, além de duas escolas construídas no âmbito do PIIM e já em funcionamento.

Segundo o director municipal da Educação, Tchinanga Mukuko, mais de 200 professores trabalham no Camucuio, garantindo o ensino e aprendizagem a cerca de 5 mil alunos distribuídos no ensino pré-escolar, primário, primeiro e segundo ciclos.

O dirigente destacou a importância do programa da merenda escolar, que já beneficiou mais de duas mil crianças.

"Seleccionamos 10 escolas que beneficiam deste programa. Pensamos que é uma mais-valia, porque tem surtido efeitos e vemos a satisfação no rosto dos pais e encarregados de educação, que não se cansam em fiscalizar este programa junto das escolas”, disse. 

Mukuko garantiu que em todas as escolas beneficiárias da merenda escolar não se fala em desistência de alunos. Mesmo quando há faltas, são bem justificadas.

Efeitos da estiagem

Camucuio é uma das localidades da província do Namibe afectadas pela  seca cíclica que assolou a região Sul do país. Para mitigar a fome provocada pela estiagem no seio das famílias , o governo local e outras forças vivas da sociedade, como as igrejas e ONG, realizam acções destinadas a apoiar as populações. O comandante municipal da Protecção Civil e Bombeiros, Salomão Tchilanda, informou que mais de 30 mil famílias já beneficiaram de apoio alimentar.

Revelou que, dos mais de 60 mil habitantes,  58 mil estão afectados pela seca. Destes destacam-se os mais vulneráveis (25 mil pessoas)  que, de algum tempo a esta parte, fruto dos donativos que têm recebido da Comissão Provincial de Combate à Fome e à Seca, foram bebeficiadas mais de 30 mil pessoas.

Ainda no capítulo de apoio às famílias afectadas pela seca, as populações estão a ser beneficiadas com moto-bombas para fomentar a prática da agricultura de regadio em época seca. 

As autoridades municipais têm implementado campanhas de sensibilização no sentido de incentivar as famílias para a criação de animais de pequeno porte, como caprino, suínos e outros, além de apoiarem  famílias  com moto-bombas, formação profissional, kits  e animais de criação.

Relativamente às infra-estruturas, está para breve o início de projectos de urbanização e qualificação da sede do município do Camucuio, que vão trazer muitos benefícios para os cidadãos. Uma fonte disse ao Jornal de Angola que existe já um plano através do qual foram identificadas três áreas para a expansão urbana do município, a partir do centro do casco urbano.

Dos bairros identificados onde vão surgir estes projectos, existem infra-estruturas sociais,  comércio, de saúde e as zonas verdes.

Satisfação dos munícipes

Os cidadãos do Camucuio manifestaram satisfação pelo facto de o município estar a caminhar para o crescimento. "Para ser sincero, noto um certo crescimento. Quando cá cheguei, há alguns anos, esta região estava muito péssima, mas agora nota-se mesmo alguma mudança. Já há estradas e outras infra-estruturas”, reconheceu Lázaro António.

O munícipe referiu-se, igualmente, ao facto de estarem a ser construídas várias estruturaras, com destaque para o edifício onde deverão funcionar os futuros órgãos da autarquia local.

Júlia Marques elogiou a melhoria na iluminação pública e o fornecimento de água e energia eléctrica. "A estrada daqui para a Bibala também está melhor. O município melhorou mesmo muito”, reconheceu, antes de pedir melhorias noutros aspectos.

Quem também espera melhoria dos serviços sociais do município é o cidadão Nanga Mpeio. "Quero que o município mude de facto e que desenvolva também com aquilo que é a nossa contribuição como munícipes, ajudando o Governo a fazer mais coisas, porque além daquilo que é a obrigação do Estado, também há o dever do cidadão", defendeu. 

Mitos e realidades de uma localidade

Há no município do Camucuio uma mulembeira  misteriosa. Consta que a árvore foi plantada em 1917 pelos primeiros povos da etnia Mucubal.

Segundo o regedor Mupinga Joaquim Pequenino, quem podar ou arrancar um galho da arvore, pode sofrer consequências terríveis ou até mesmo perder a vida.

"Aqui é preciso respeitar a tradição do município. Temos essa mulembeira da administração… não pode qualquer pessoa vir e cortar", sublinhou.

Quem quiser cortar um galho, esclareceu, tem de comprar um litro de vinho e entregar às autoridades tradicionais que fazem um ritual. Geralmente,  este procedimento é feito à tardinha. Um membro da autoridade tradicional cumpre uns ritos, pega na garrafa de vinho e coloca-a na boca. No dia seguinte, cumpre o mesmo ritual e daí já se pode pegar numa catana para cortar um ramo da mulembeira. 

"Se, por teimosia, a pessoa decidir cortar mesmo assim, as coisas ficam mesmo mal”, voltou a alertar o regedor.

A cidadã Florinda Nangula confirmou o mistério a volta da mulembeira. "Segundo os próprios que estavam aqui, a árvore não pode ser podada sem aqueles rituais. A morte de um dos primeiros comissários (administradores) municipais dizem ter sido originada por haver mandado podar (a mulembeira) sem que se cumprissem os rituais”, contou.

Sapalo Antonio, também confirmou a versão. "Esta árvore, tal como se diz na gíria, é intocável. Quem cortá-la (sem cumprir com os rituais) terá consequências", afirmou o munícipe, admitindo que com esses mistérios todos o sentimento no seio da população é de algum medo. "No meu caso particular, não me meto nessa aventura de tentar cortar (a árvore) porque tenho mesmo aquele medo de que, se o fizer, vai acontecer aquilo que já ouvi”, referiu.

O administrador municipal adjunto do Camucuio, António Nkolondjo, atestou a veracidade no misticismo da mulembeira . "Diz-se que o espaço onde está instalada esta administração foi o Quimbo do Soba e a Mulembeira foi o Tchoto (Sala de visitas de Embala do soba). Foi debaixo desta árvore onde debatiam os assuntos da comunidade e também quando havia cerimónias e festas, era tudo feito debaixo desta árvore", contou. 

Confirmou, igualmente, a morte de alguém, que, por teimosia, cortou um galho da mulembeira e morreu. "Não sei se é coincidência, mas desde então saiu este mito de que aquela árvore não se pode podar, senão alguma coisa de mal vai acontecer”, afirmou.

Quanto ao significado do nome atribuído à palavra Camucuio, o regedor Pinda Pequenino disse que provém  de uma figueira. "O próprio Camucuio não é aqui na sede. Camucuio é aí em baixo onde háum rio e ao lado uma figueira que, traduzida na língua local Mucubal, chama-se mucuio”, disse. 

Quando os nativos fossem ao rio beber água, aproveitavam o descanso debaixo do mucuio e daí os moradores sempre que fossem questionados para onde se dirigiam respondiam que iam ao mucuio. 

"Consta que é daí que se deu o nome de Camucuio. 'Ca' do diminutivo e a palavra principal Mucuio”, disse.

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