Opinião

Nagrelha foi um herói improvável

Ismael Mateus

Jornalista

Amanhã vai a enterrar Nagrelha, um jovem nascido no Sambizanga que vai levar para a eternidade o cognome de Estado Maior do Kuduro.

21/11/2022  Última atualização 06H00

Nunca fomos, destes mais velhos convertidos ao kuduro e hoje, com a sua morte, não nos passaremos a ser, com toda a certeza, apreciadores e grandes admiradores deste género musical. O combate à hipocrisia talvez seja a grande omissão da vida terrena do Ngarelha.

Na grande lista de géneros musicais angolanos que nos arrebatam, o kuduro vem em ultimo lugar, o que dizemos sem o menor preconceito, nem qualquer juízo de valor. Talvez seja por isso que o enorme sucesso de Nagrelha sempre teve em nós, algo de intrigante. Por que razão, um jovem do gueto, sem escolaridade, sem apoios, antigo ladrão e "liambeiro” se tornou numa das figuras mais carismáticas do país?

Não temos qualquer pretensão a abordagens cientificas deste assunto. Nem sequer temos conhecimentos para isso. No entanto é licito tentarmos compreender o que pode ter sido determinante para que um jovem que tinha tudo para se tornar um mau exemplo da sociedade se tivesse convertido num cidadão carismático, figura de cartaz em comícios políticos, TV e até referência como marido e pai de família.

Cada um de nós deve ter uma razão pessoal para gostar do Nagrelha. Alguns certamente o farão por causa do seu kuduro que se afirmou como um modo de estar dos jovens, com um tipo de mensagem e movimentos de dança de contestação social e irreverencia.  Outros devem ter gostado dele por causa da sua capacidade de sobrevivência, um jovem visivelmente sem estudos, sem "muletas” para a vida e, ainda assim, ter conseguido galgar para o sucesso e o respeito da sociedade.

O fenómeno Nagrelha é um caso típico de pessoa carismática. As acções e palavras que lhe deram tanta projecção se tivessem sido ditas e feitas por outras pessoas talvez não tivessem o mesmo impacto. O ser carismático, não depende apenas do modo como fazer as acções ou do que dizem. Tem muito a ver com o modo diferente dos outros como as dizem ou fazem. Nesse particular, Nagrelha foi um herói improvável. Houve um período que se pensava que um dia acabaria morto pela polícia, mas sobreviveu. Regenerou-se. Livrou-se do mundo do crime. Seguiu em frente, agarrou-se ao seu kuduro e ao modo de influenciar a sociedade. Fez-se homem de família ao lado da sua Weza e tornou-se no Estado maior.

Da nossa parte, o lado mais fascinante de Nagrelha foi o desprendimento. Quem nasceu nas pobres casas do Sambizanga, Marçal ou Cazenga sabe que a sociedade do asfalto tem um olhar demasiado severo para quem vem dos musseques. Quem vem do musseue vive em permanente "bullying” tendo de provar, competir e suplantar-se mais do que os outros. O primeiro desafio é enfrentar ou conquistar a aceitação dos outros. A maior parte de nós, prescindiu do seu modo de estar genuíno, do modo de falar, de vestir, de dançar ou estar em nome da aceitação dos outros. Nagrelha, aquela figura franzina de olhar meio esgazeado, não abriu mão do seu modo de estar.  Ao contrario do que gerações e gerações  fizeram, ele não se permitiu mudar o seu modo de ser para agradar aos outros. Fosse no Sambizanga ou na televisão, no palco com a elite política ou no gueto, a sua identidade e a sua personalidade estavam lá perfeitamente vincadas. Sem pretensão nem arrogância. Simplesmente ele,  Nagrelha, rebaptizado em Nana ou Estado Maior.

Mesmo pessoas como nós, distantes do kuduro, renderam-se na admiração por esse jovem corajoso que vergou a sociedade do asfalto, sem, no entanto, nunca ter feito da sua ignorância, um orgulho ou da pobreza e  miséria das suas origens  uma razão para o radicalismo.

Da sociedade do asfalto, à qual se juntam hoje muitos nascidos nos musseques,  persiste o preconceito e as  baixíssimas expectativas que se alimentam em relação ao futuro de alguém que venha do gueto. Alguém que consiga sobreviver, suplantar essas baixíssimas expectativas, como é o caso de Nagrelha, acaba por granjear a simpatia e a admiração de todos.

O casamento de Nagrelha veio aumentar ainda mais carisma, acabando por humanizar, e muito, a sua figura de bom rebelde, mostrando-se um marido carinhoso, respeitador  e capaz de em publico  ouvir a opinião da sua mulher, sem se mostrar diminuído.   

Nagrelha é para a maior parte de nós, como se nos olhássemos ao espelho. Soube ser aquilo que somos (sempre fomos), no nosso calão mais profundo, no nosso modo natural de estar  e no nosso à vontade. Mas é também alguém que nos mostra a mentira em que nos tornamos, uma sociedade de fingimentos, de ilusões, de faz de conta e de rejeição do genuíno pelo teatral, para agradar os outros. Tudo que ele teve a coragem, diríamos mesmo a máxima coragem, de não permitir que lhe roubassem.

O kuduro não vai obviamente acabar. Hoje é um fenómeno enraizado e provavelmente até se venha a "angolanizar” ainda mais. No entanto, temos dúvidas de que venha a aparecer uma nova figura como  Nagrelha. O seu modo de estar, as circunstâncias particulares da sua vida e do seu modo de estar foram as principais razões que o levaram  a este patamar de popularidade.

Esse miúdo tinha a estrelinha especial que faltava a muita gente. Quando dezenas e dezenas de pessoas, cujo sucesso se devia a JES, ficaram caladas, Nagrelha de um modo o mais "naif” possível, saiu em defesa da honra e do bom nome do antigo Presidente da República. Um momento único, tanto para a televisão, mas também para a vida política. Alguém que por gratidão, mera gratidão, se recusava a aceitar perguntas que pudessem por em causa a figura de quem o tinha ajudado tanto. Nem mesmo alguns dos nossos políticos, que tinham sido os principais beneficiados com a gestão de JES, foram, capazes de uma atitude tão firme  e categórica,  como o fizera aquele miúdo politicamente inexperiente.

São mais do que merecidas as homenagens que lhe estão a ser feitas. Vá em paz, Nagrelha.

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