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Nações Unidas: “Situação na Faixa de Gaza está à beira de uma crise humanitária”

A relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinianos ocupados, Francesca Albanez, diz que os ataques aéreos de Israel à Faixa de Gaza “não só são ilegais como irresponsáveis”, apelando a uma solução diplomática para o último surto de violência, que começou na sexta-feira, quando Israel lançou ataques aéreos à cidade de Gaza.

08/08/2022  Última atualização 06H25
Comunidade internacional receia nova guerra entre Israel e palestinianos, após bombardeamentos contra a faixa de Gaxa © Fotografia por: DR

"A situação em Gaza está à beira de uma crise humanitária”, disse Francesca Albanez ao canal televisivo Al Jazeera, acrescentando: "a única forma de assegurar o bem-estar dos palestinianos, onde quer que estejam, é levantar o cerco e permitir a entrada de ajuda”.

Israel apelidou o ataque como um acto "preventivo” de autodefesa contra o grupo palestiniano da Jihad Islâmica e revelou que a sua operação poderia durar uma semana.

O embaixador dos Estados Unidos da América (EUA) em Israel, Tom Nides, escreveu no Twitter na sexta-feira: "Os Estados Unidos acreditam firmemente que Israel tem o direito de se proteger a si próprio. Estamos a dialogar com diferentes partes e apelamos a todas as partes para que se acalmem”.

 
Países pedem reunião do Conselho de Segurança 

Cinco países do Conselho de Segurança das Nações Unidas solicitaram uma reunião, face à escalada das tensões na Faixa de Gaza, após ataques israelitas e a resposta do grupo palestiniano Jihad Islâmica, anunciaram os Emirados Árabes Unidos (EAU).

"Os EAU, como membro do Conselho de Segurança da ONU, apresentaram um pedido, juntamente com a China, França, Irlanda e Noruega, para realizar uma reunião fechada do Conselho na próxima segunda-feira (hoje), para discutir a situação actual e formas de apoiar os esforços internacionais para alcançar uma paz abrangente e justa”, informou, no sábado à noite, a agência de notícias Emirati WAM, citada pelo site "Minuto a Minuto” e a Lusa.

Os EAU sublinharam a necessidade de restaurar a calma na Faixa de Gaza, desanuviar tensões e preservar vidas civis.

Os bombardeamentos israelitas sobre o pequeno território palestiniano causaram pelo menos 24 mortos - todos palestinianos, incluindo seis crianças e duas mulheres - e mais de 220 feridos.

O incidente mais grave do dia teve lugar na cidade de Jabalia, no Norte de Gaza, onde pelo menos cinco crianças palestinianas e um adulto morreram.

Enquanto a parte palestiniana disse que se tratava de um ataque israelita, Telavive disse ter provas credíveis de que se tratava de um lançamento falhado de um foguete pelo grupo palestiniano - uma justificação utilizada muitas vezes pelas forças israelitas, mesmo quando, em 2021, bombardearam hospitais e edifícios de órgãos de comunicação social.

Entre o total de mortos até ao momento, a parte palestiniana contou seis dos seus membros, inclu-indo Taysir al-Jabari, o seu número dois em Gaza, líder da ala armada na parte Central e Norte do enclave e vítima de um ataque israelita selectivo que iniciou a actual escalada.

Já o Exército israelita disse, na noite de sábado, que tinha "neutralizado” os líderes "militares” do grupo da Jihad Islâmica em Gaza.

O que começou na sexta-feira como uma "ofensiva preventiva” israelita com ataques aéreos na Faixa de Gaza tornou-se no pico mais grave de violência na área desde 2021, quando os ataques de Israel à Palestina (como forma de retaliação contra manifestações anti-colonatos) fez mais de uma centena de mortos, incluindo várias crianças.

Desde que os primeiros projécteis foram disparados na sexta-feira em resposta ao ataque israelita, estima-se agora que o grupo islâmico tenha lançado mais de 350 foguetes, a grande maioria dos quais atingiu áreas abertas ou foram interceptados pelo sistema de defesa aérea de Israel.


Novo balanço de mortos 

O balanço de mortos nos ataques israelitas na Faixa de Gaza subiu para 32, informou, ontem, o Ministério da Saúde do enclave palestiniano, citado pela agência Lusa.

O anterior balanço apontava para 24 mortos. A mes-ma fonte contabilizou 215 feridos, desde sexta-feira, quando tiveram início os ataques contra o grupo palestiniano Jihad Islâmica.

As autoridades israelitas contrariam este balanço, garantindo que as crianças palestinianas morreram no sábado, vítimas do disparo falhado de um foguete da Jihad Islâmica que tinha Israel como alvo - o Governo israelita alega muitas vezes que mortes de civis palestinianos ocorrem fruto do fogo cruzado ou de ataques falhados pelos próprios palestinianos, e nunca com a sua responsabilidade, como foi o caso da morte da jornalista Shireen Abu Akleh.

Israel não registou, até ontem à tarde, qualquer morte, mas deu conta de 20 feridos ligeiros.


Delegação egípcia tenta acordo

Uma delegação egípcia de alto nível chegou na tarde de este domingo à Faixa de Gaza para tentar levar à aprovação pela Jihad Islâmica Palestiniana de condições que permitam uma trégua, já aceites por Israel, disse à Efe fonte de segurança egípcia.

De acordo com a fonte, que falou sob anonimato, apenas falta o sim do movimento armado palestiniano para anunciar o fim das hostilidades com as Forças Armadas israelitas.

A mesma fonte, que na manhã de ontem tinha manifestado dúvidas de que a missão egípcia se deslocasse à Faixa de Gaza, face à falta de respostas de ambas as partes às suas tentativas de mediação, garantiu que o Egipto, em nenhum momento, deixou de contactar um e outro lado para tentar travar a escalada de violência.

Segundo a Efe, o Departamento de Segurança do Estado israelita considera que os objectivos da actual ofensiva contra a Jihad Islâmica já foram atingidos e, por outro lado, fontes próximas do movimento islâmico Hamas, que governa de facto em Gaza, confirmaram à Efe ter enviado uma delegação ao Cairo para discutir um possível cessar-fogo.

A Jihad Islâmica reconheceu, ontem, que estão a ser feitas tentativas "ao mais alto nível”, para alcançar um cessar-fogo para pôr fim à escalada de violência com Israel.

"Estão em curso esforços ao mais alto nível para alcançar um cessar-fogo em Gaza”, afirmou um porta-voz da Jihad Islâmica, citado pela Efe, três dias depois da ofensiva israelita sobre Gaza e o lançamento de 'rockets' do grupo sobre Israel.


Hospitais estão perto do colapso

Os serviços de saúde na Faixa de Gaza serão interrompidos dentro de 48 horas, por falta de electricidade, anunciou, ontem, o Ministério, após a escalada de violência com Israel, que está a bloquear a entrada de combustível no enclave palestiniano.

"Em 48 horas, os serviços de saúde vão parar, após a interrupção da operação da central eléctrica e o esgotamento de combustível nos geradores dos hospitais”, informou o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, citado pela agência Efe.

Caso tal se concretize, agravar-se-á a crise humanitária enfrentada pelo enclave palestiniano, onde 32 pessoas foram mortas e pelo menos 265 ficaram feridas desde o início da actual escalada de violência entre o Exército israelita e a Jihad Islâmica Palestiniana, na sexta-feira.

As passagens de fronteira com Israel, incluindo a de Kerem Shalom, por onde o combustível entra, estão fechadas desde terça-feira, antes mesmo do início das hostilidades.

Após a interrupção da operação da central eléctrica, no sábado, os mais de dois milhões de pessoas que vivem na sobrelotada Faixa de Gaza têm apenas quatro horas de electricidade por dia.

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