Opinião

Na Jahmek Galeria de Arte Contemporânea

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Cheguei a meio da manhã no número 100 da Rua Rainha Ginga, em Luanda, endereço da Galeria de Arte e entrei no Hotel Globo: já no primeiro andar à esquerda, indo até ao fundo do corredor, está o novo espaço da Jahmek Contemporary Art.

10/05/2022  Última atualização 18H00

Estar numa galeria de arte é, na maior parte das vezes, uma experiência prazerosa e interessante. "Kimba Sec – Modernidade Fantasma 2022” é a exposição que está patente na Jahmek: reúne onze obras de seis artistas, nomeadamente Edson Chagas, Kiluanji Kia Henda, Wyssolela Moreira, Nelo Teixeira, Toy Boy e Irad Verkron, com a curadoria de Paula Nascimento.

Na exposição, as obras "Epiderme Do Caos” (2020) I, II e III de Toy Boy que são surpreendentes porque muito diferentes dos trabalhos que o artista foi tornando público, entre 2018 e 2019,via grafites nas paredes ou nas instalações: nas obras dele nesta exposição, os motivos florais e o ornamento colonial são reapropriados e re-situa-dos nos limites entre o papel de parede e as decorações pós-modernas.

Nas quatro colagens digitais que Wyssolela Moreira nos mostra, com títulos tão sugestivos como "Histórias bem antigas”, "A possibilidade de derrubar memórias”, "Regressão de vidas passadas” e "O mais velho previu o futuro II” – todas elas de 2019 -,a fotografia e a pintura se fundem sobre fundos planos em cores alaranjadas, bordéus e verde: a arquitectura colonial está no centro da nostalgia, da prova documental e da decadência da cidade moderna, que a artista sublima.

 Nelo Teixeira com "Linha de gato” (2019), uma instalação composta com 47 portas de contador coloca com a apresentação deste elemento a questão da energia eléctrica no centro do desencanto e da disfunção de estruturas que, por distintas razões colapsaram. A mesma problemática também é tratada por Edson Chagas com "Treme- treme as tomadas bazaram” (2019), um conjunto de impressões sobre papel de algodão.

Na sala da Jahmek podemos ver ainda obras interessantes de Irad Verkron e de Kiluanje Kia Henda. Por um lado, está "Não há luz no quarto escuro”, a obra de Irad Verkron, um conjunto de duas telas em que, na primeira aparece uma a caveira e a serpente nas mãos de uma jovem mulher e, na segunda somente uma caveira dentro de um quadrado delimitado por uma linha prateada sobre o fundo azul: ambas são uma reflexão existencial sobre a vida e a morte, o pecado e a castidade.

Por outro lado, está a principal obra da exposição, a saber: "Espiral (Kimba Sec) – Módulo 1”, a instalação de Kiluanji Kia Henda que ocupa, precisamente, o centro da galeria com uma instalação em que unem-se os ornamentos dos gradeamentos das varandas, das portas e janelas das casas e prédios coloniais recuperados para, com eles,  desenhar uma linha em espiral  e, na obra, fazerem parte de uma estratégia de ressignificação pós-colonial ao atribuir-lhe, também, um carácter lúdico permitindo que o espectador possa percorrer pelo seu interior e por transformar todos os componentes da obra não já em "elementos para ver”, mas sim em "lugares para viver”.

É preciso não perder de vista que esta exposição de arte coloca no seu centro a questão da modernidade em Angola, um tema ainda pouco debatido entre nós e fá-lo com uma proposta clara, a saber: uma vez que a modernidade, em Angola, foi uma emanação do colonialismo, o conjunto de obras apresentadas, no dizer de Paula Nascimento "extrapolam a simples crítica à estrutura abandonada”.

Ou seja, o que torna a exposição "Kimba Sec- Modernidade Fantasma 2022” interessante, – tem direcção artística de Kiluanje Kia Henda -, é o facto de que o conjunto de onze obras apresentadas pelos seis artistas extravasa o determinismo histórico inerente a alguns elementos e recursos específicos do período em que surgem para, cada qual do seu modo, participar de uma estratégia sofisticada de descolonização e de reinvenção estética pós- moderna e actual, razão suficiente para não deixarem de ir ao no número 100 da Rua Rainha Ginga, em Luanda.

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