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Na Europa, a idade é factor de risco; no Brasil, é a morada e a cor da pele

Em Grajaú, na periferia de São Paulo, Denner Silva Melo tem 2,5 por cento de mais probabilidade de contrair a Covid-19 que noutras zonas de São Paulo, um sinal da desigualdade da maior cidade brasileira, que se reflecte na ausência de infra-estruturas básicas para milhões.

12/07/2020  Última atualização 10H59
© Fotografia por: Na Europa, a idade é factor de risco; no Brasil, é a morada e a cor da pele

“As pessoas não estão respeitando a quarentena nos bairros pobres, por isto, o vírus se propaga mais entre as pessoas da periferia, de baixa renda”, desabafa Dener Silva Melo, que vive a um quilómetro e meio da estação rodoviária do Grajaú.

Ao contrário da Europa, em que a idade é o factor mais decisivo para a taxa de mortalidade, em São Paulo, os estudos indicam que a morada e a cor da pele definem a fronteira entre os que têm maior ou menor probabilidade de contrair a Covid-19 e morrer da doença.

“Eu conheço pessoas que chegaram a óbito (morreram) por causa do coronavírus”, porque eles “não se preveniram correctamente”, afirmou à Lusa Dener Silva Melo, que critica o comportamento da população mais pobre, que depende de transportes públicos e nem sempre usa máscaras ou protecções adequadas.

A Rede Nossa São Paulo, uma ONG que realiza anualmente um mapa sobre a desigualdade na maior cidade do Brasil, divulgou, no final de Junho, uma versão extraordinária do estudo, cruzando dados sobre a Covid-19 que confirmaram informações de que os moradores negros das periferias da cidade são as maiores vítimas da doença.

“O que nós estamos identificando é que, diferentemente do que aconteceu na Europa, em que o grande indicador de Covid-19 foi a idade, o maior factor de risco, aqui em São Paulo e no Brasil, é o endereço”, afirmou Jorge Abrahão, director da Rede Nossa São Paulo.

O mapeamento da Rede Nossa São Paulo mostrou que Moema e Jardim Paulista, dois bairros de classe média alta com expectativa de vida acima de 80 anos, registavam cerca de 130 mortes causadas pelo novo coronavírus até Junho.

Comparando estes dados com os números dos bairros periféricos onde a população tem expectativa de vida abaixo dos 60 anos, verificou-se que, em dois deles, Grajaú e Cidade Tiradentes, registaram-se 460 mortos.

Nestas duas periferias existem 3,5 vezes mais óbitos causados pela pandemia do que nos dois distritos ricos e com maior expectativa de vida da cidade.
Destacando indicadores como a raça, o cruzamento de dados da ONG apontou que os afrodescendentes são as maiores vítimas da doença em São Paulo.
Os dois bairros com maior proporção de população negra entre os seus habitantes, Jardim Angela (60%) e Grajaú (57%), apresentam um elevado número de óbitos causados pelo novo coronavírus (507).

Já os dois distritos com menor proporção de população negra entre seus habitantes, Alto de Pinheiros (8%) e Moema (6%), registam um baixo número de vítimas (110 mortes).

Jorge Abrahão considera que isto acontece porque os negros recebem salários 25 por cento menores do que a população branca e, portanto, são obrigados a viver em lugares sem infra-estruturas adequadas.

“O que estamos mostrando no mapa (da desigualdade que incorporou dados sobre a Covid-19) é que justamente nestes espaços mais vulneráveis, onde existe uma maioria de negros, está havendo o maior número de mortes”, frisou o director da Rede Nossa São Paulo.

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