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“My love” carrega passageiros aí onde faltam transportes em Maputo

A crise de transportes em Maputo obriga Alda Joaquim a andar quase 10 quilómetros para chegar ao mercado, mas quando leva o filho ao colo, caminhar tanto é impossível e a solução é viajar em veículos de caixa aberta.

21/06/2021  Última atualização 04H45
A moçambicana de 39 anos vive em Marracuene, arredores da capital, onde não passam autocarros (conhecidos como machibombos), devido às más condições da estrada.
É assim noutros locais, fa-zendo com que a única alternativa sejam veículos de carga, popularmente designados "my love”, pelo facto de os passageiros serem obrigados a abraçar-se, para não caírem, na caixa aberta.


"Não há maneira, haja chuva ou calor, para chegar a casa aqui temos de apanhar os 'my love''', lamenta à Lusa a jovem, ao mesmo tempo que se apoia no ombro de um estranho e leva o filho de três anos, Calton, ao colo.


Desde a eclosão da pandemia, o transporte de passageiros neste tipo de veículos foi proibido pelas autoridades, mas Pazimane é um exemplo de que, onde não há alternativas, continuam a circular.
"Nós não temos como parar. Aqui, a população é que nos pede para fazer este trabalho”, conta à Lusa José Xadrec, condutor de um camião de caixa aberta que leva Alda Joaquim e vários outros moradores de Pazimane.


A estrada esburacada e ondulada em terra batida faz da viagem uma aventura agitada, principalmente com uma criança ao colo, num ambiente em que o distanciamento sugerido pelas autoridades face à Covid-19 é uma utopia.
"Temos medo (da Covid-19), mas temos de arriscar”, acrescenta Alda Joaquim.
O problema de Pazimane é comum a outras zonas de Maputo, que têm as paragens quase sempre abarrotadas, principalmente nas horas de ponta.


"O problema de transportes em Maputo é sério e a proibição dos 'my love' veio piorar tudo”, refere Albino Armando, 53 anos, um passageiro que hoje teve a sorte de apanhar um lugar num dos poucos autocarros que saem do centro da cidade de Maputo para a Matola, nos arredores.
Com "tantas contas” por pagar, Albino Armando não se pode dar ao luxo de ter atrasos na sua jornada diária e a solução é levantar-se às 4 horas para ter lugar a tempo num transporte que o deixe no trabalho às 6 horas.


Para Válter Elias, 27 anos, o crónico problema de transportes é uma ameaça para o seu futuro, tendo em conta as vezes que chegou atrasado às aulas na faculdade.
"Por mais que eu saia cedo de casa, tenho sempre de perder horas (numa fila) na paragem e acabo perdendo algumas aulas na faculdade por conta disso”, lamenta.

A Lusa tentou obter esclarecimentos das autoridades face à circulação dos "my love", apesar das restrições, mas não obteve resposta.


Tanto o município como o Governo têm apresentado periodicamente medidas para tentar resolver a crise de transportes na capital, mas a procura crescente e a expansão da zona urbana continuam a ser um desafio, agravado pela conjuntura da pandemia de Covid-19.

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