Cultura

Músico Mito Gaspar e amigos interpretam cantares da terra

Manuel Albano

Jornalista

O compasso metódico dos ritmos emanados nas canções de Mito Gaspar fez do “Show da Ancestralidade”, realizado na tarde de domingo, no espaço Cambambe, Zango 2, em Viana, um momento de promoção cultural e diversidade dos estilos nacionais.

15/11/2022  Última atualização 14H28
1-Autor “Man Pole” esteve em destaque no domingo no espaço Cambambe -2Gabriel Tchiema não deixou os seus créditos em mãos alheias no espectáculo © Fotografia por: Edições Novembro

O que torna um país rico culturalmente é a valorização dos seus hábitos e costumes, a sua diversidade de ritmos e estilos de raiz. Foi assim que Mito Gaspar definiu o seu espectáculo como o reencontro cultural entre angolanos, que têm a responsabilidade de ajudar a preservar a matriz cultural nacional.

O palco do espaço Cambambe tem-se revelado num local "especial”, por estar a proporcionar momentos de exaltação dos mais variados estilos musicais das diferentes regiões do país.

Três figuras emblemáticas da cultura nacional reencontraram-se, no último final de semana, durante a realização do "Show da Ancestralidade”. Mito Gaspar e amigos proporcionaram, não apenas momentos de boa música e danças tradicionais, mas, acima de tudo, um momento de reflexão, recordações e reencontro de amigos. Mito Gaspar, Raúl Negro, Gabriel Tchiema e o director do Grupo Tradicional Kilandukilu, Maneco Vieira Dias, "mataram” saudades e colocaram a conversa em dia.

Inserido num projecto de animação cultural de interacção entre artistas e público, o espectáculo serviu, igualmente, como contributo para a valorização e preservação da música angolana.

Contrariamente ao último espectáculo, no qual teve como artista de cartaz Euclides da Lomba e o seu convidado Eduardo Paim, o céu permaneceu limpo e nada previa o aproximar de uma chuva. O sol ardente provocava o aumento da temperatura, somente abrandada pelos presentes com o refrescar da garganta com uma kissângua. Em conversas de bastidores, era visível a ansiedade de muitos espectadores "tentados” para um mergulho na piscina do espaço.

Os lugares gradualmente eram preenchidos pelos fãs de Mito Gaspar e convidados. O autor dos sucessos "Man Pole” e "O que serás”, não se pode queixar, por ter conseguido ao longo dos anos ter conquistado um público diversificado.

Enquanto a casa se compunha, a animação era feita pelos DJ residentes no espaço, Janota Fox e Nando Mix. A organização deixou reservado um espaço para que os novos talentos mostrassem o potencial artístico. Nos últimos dois anos Mito Gaspar e Tchiema têm estado a partilhar experiências culturais.

A máxima da casa, "Um homem sem identidade cultural, torna-se escravo de outras culturas”, deixa  muito claro quais as intenções do projecto cultural que visa a valorização e preservação dos estilos musicais nacionais.

Os "mitos” de Gaspar

Mito Gaspar levou para o local um conceito de cultura e não de espectáculo, permitindo acontecer vários momentos de diálogo sobre a temática musical. "Aceitei o desafio porque me revi no projecto de fazer cultura e não apenas um local de actuação. Precisamos mudar os paradigmas e dar maior valorização ao produto nacional”, destacou Mito Gaspar, momentos antes da sua entrada em acção.

Para o músico, o conceito dos espectáculos naquele espaço vão ajudar a exaltar e dar mais visibilidade às canções interpretadas em línguas nacionais, como forma de as valorizar, como um elemento de identidade comum. No entanto, o cantor natural de Malanje referiu  que não importa o quanto sofremos com o processo de colonização, o mais importante foi nos tornarmos donos dos nossos próprios destinos. Num diálogo constante com os fãs, Mito Gaspar provocava vários debates, intercalando com a sua actuação, na qual interpretou canções como "Trova”, "Man Pole”, "Hadiya Tuvutuka”, "Phalahi Ngo”, "Kibuka Kya Moma”, "Eme”, "Wadiya Wadiaku”, "Hassa”, "O que Será”, "Mahezu” e "Mana Minga” dos Ndengues do Kota Duro.

  Gabriel Tchiema esteve igual a si no espectáculo

O músico Gabriel Tchiema, dono de uma voz inconfundível, defensor das línguas nacionais e da música tradicional, não deixou os seus créditos em mãos alheias, a cultura da província da Lunda-Sul, esteve bem representada.

A criatividade e a qualidade do cantor mostram-se distantes pelo seu tempo, por prevalecer a originalidade patente nas suas composições. Em pouco menos de dez minutos em palco, mergulhou musicalmente pelos seus sucessos "Azwlula” e "Yssaka”.

Embora cansado do seu espectáculo realizado no dia anterior,  Gabriel Tchiema não deixou cair o convite do amigo de se fazer presente no "Show da Ancestralidade ", e brindou o público do Zango com o melhor do seu repertório. Momentos antes, a prontidão combativa do músico Raul Negro foi vivida com emoção quando interpretou as canções "Kikola” e "Kamassa”.

A força do Kilandukilu

Formado há 38 anos, o grupo tradicional Kilandukilu proporcionou uma viagem ao passado da nossa história ao apresentar como proposta "Ngolo”(Força), uma mescla de danças rituais de preparação dos guerreiros.

No meio rural angolano predominam várias culturas tradicionais com as suas práticas de socialização como forma de preservar e valorizar a sua identidade. A socialização das crianças, em particular a dos meninos, faz-se no contexto da tradição, apoiada em ritos de iniciação, cujo destino é moldá-los chefes de família, caçadores e guerreiros.

Neste contexto, o grupo Kilandukilu pretendeu mostrar em alguns minutos a função social da preparação de um guerreiro rural numa determinada região, sendo-lhe, no entanto, potencializado para determinadas tarefas na sociedade onde estão inseridos. O grupo aproveitou a ocasião para dar a conhecer aos espectadores um pouco do que está a ser produzido para o espectáculo agendado nos dias 8 e 9 de Dezembro.

O Kilandukilu está a preparar um espectáculo denominado "O Caminho da Viagem” que será o trilhar do caminho feito ao longo dos anos, cujo destino será os 40 anos a serem comemorados em 2024, no mês de Março.

A versatilidade de Teddy Nsingui

De forma intercalada o Kilandukilu deixou o palco para a Banda Movimento dar continuidade com três números do seu repertório.

A escolha da banda foi propositada, uma vez que, foram os mesmos acompanhantes de Mito Gaspar, como um dos convidados a actuar na gala final do Festival Nacional de Música Popular de Angola (Variante), edição de 2021, na qual é o mais premiado do concurso, como dois troféus.

Como sempre, o tema "Está a Estalar”, um dos maiores sucessos da banda a par de "Josefa”, combinou exactamente com a tarde de sol escaldante. A actuação do guitarrista Teddy Nsingui roçou à perfeição quando foi chamado para interpretar o tema "Coco” do músico Francó.

Um dos principais rostos da Banda Movimento criada em 1999, Teddy que foi homenageado pela Prefeitura de Niterói, no Brasil, em 2016, pelo contributo ao desenvolvimento da música popular angolana, "ressuscitou” em pouco mais de três minutos o músico vizinho do Congo Democrático, falecido a 12 de Outubro de 1989, na Bélgica.  O solista foi "genial”, e poucos são os adjectivos capazes de qualificar a sua actuação.

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