Entrevista

Músico Manecas Costa: “O meu partido é o Povo da Guiné-Bissau”

Analtino Santos

Jornalista

O músico da Guiné-Bissau Manecas Costa, a viver e a trabalhar em Portugal, e em função da colaboração estreita com colegas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e do seu trânsito fácil e natural por esses países, bem poderia ser apresentado como o exemplo real do utópico cidadão da CPLP. Trazemos a estampa a entrevista que o músico concedeu, em Dezembro do ano passado, a este jornal - e que até agora permanecia inédita -, quando esteve em Luanda para participar no concerto de Yuri da Cunha e no Show do Mês dedicado à música dos PALOP. Manecas Costa fala dos primórdios da carreira e da influência de figuras como o seu pai e José Carlos Schwartz. Conta os meandros da sua relação com músicos angolanos e exclama: “Não me venham dizer que não faço parte da música angolana”

25/07/2021  Última atualização 04H00
© Fotografia por: DR
Para início de conversa, quem é o Manecas Costa?

É um africano que é cidadão do mundo, mas assumidamente filho da Guiné-Bissau, da etnia Manjaca, que aos 8 anos de idade começou a fazer música. Recusei um helicóptero, brinquedo de Natal oferecido pelo meu pai e chorei muito porque queria ganhar uma viola. Ele foi à loja fazer a troca e tudo começou por aí. Venho de uma familia simples que sempre soube compreender a minha musicalidade. Olha que nós nascemos em África e o que os nossos pais querem é que os filhos estudem para melhorar a situação da família e eu tive a sorte de fazer as duas coisas. Eles criaram uma estrela em casa porque as pessoas quando descobriram o meu talento chamavam-me para tocar. Eles abraçavam-me quando reconheciam o meu talento. Vinham pessoas para verem-me a tocar e o meu pai ficava emocionado. Os pais gostam quando os filhos têm um talento e eu queria fazer música séria. Já tocava música angolana e cabo-verdiana, europeia, africana, cubana... ou seja, tudo aquilo que se consumia na rádio. Foi uma fase bonita, porque acabamos por conhecer gente mais velha e com  muita experiência musical. Falo, por exemplo, do José Carlos Schwarz, pai da música moderna da Guiné-Bissau.
 
O que ouvia um menino de 8 anos e quem o ensinou?

Na altura ouvíamos Cobiana Jazz, Mama Djombo, Caça Cobra, e, com o meu irmão Nelson Costa, criámos um grupo, porque aprendemos a tocar juntos. A rádio foi quem nos ensinou, era uma autêntica escola, tudo que tocava captavámos, era muito bonito. Era uma forma de aprender. As programações musicais fizeram parte do meu crescimento artístico e nessa fase acabei por formar o grupo África Livre, com o meu irmão. Decidimos procurar amigos e fomos os professores de guitarra destas pessoas e assim tocavámos na rua para as pessoas que passavam. A curiosidade foi aumentando e o nome África Livre comecou a ter força na cidade, a nossa comunidade é muito pequena e as pessoas falavam, de boca em boca, que "há aí um menino que toca bem”. Digo isto porque ninguém tocou como eu na Guiné- Bissau com 8 anos; e agora aos 53 anos é um recorde e um orgulho para mim, e a minha família também, manter esta regularidade. Naquela fase inicial, a família foi muito importante, serviu-me, de facto, como pilar.

É na fase da aprendizagem que conhece José Carlos Schwarz?

Lembro-me que nós, ainda pequeninos, estávamos a tocar e José Carlos Schwarz passava e ouviu-nos. Meteu-se connosco dizendo que a guitarra estava desafinada. Nós ficamos chateados, porque o que queríamos mesmo era só tocar e não nos importávamos em saber mais nada. Ele depois apresentou-se mas duvidamos, porque para nós José Carlos Schwarz era a pessoa que ouvíamos na rádio, era um superstar. Ele pegou na guitarra e começou a cantar alguns temas; "Midjer di Pano Preto”, "Dju de Galinha” e outros que têm a ver com o crescimento de qualquer um de nós e acaba por fazer parte da nossa formação musical. Aí o meu irmão foi chamar o meu pai, que foi ao encontro do José Carlos Schwarz. Tenho de dizer que o meu pai foi um grande homem de arte, bastante culto, que sempre soube que a cultura era o espelho. Ele mobilizou o José Carlos Schwarz dizendo que os filhos gostavam de música e o tinham como ídolo e que seria bom que nos desse algumas aulas. Ele aceitou e sempre que pudesse mostrava-nos algumas técnicas. Foi nosso mestre, tenho-o dentro de mim. Eu sou um dos herdeiros de José Carlos Schwarz.


Schwarz morreu aos 27 de Maio de 1977 em Havana, Cuba. Como os sons deste país entraram na música de Manecas Costa?

Uma curiosidade: a traseira da nossa casa dava com a Embaixada de Cuba, portanto éramos vizinhos. Grande parte dos cubanos que passaram, naquela época, pela Guiné-Bissau conheciam-nos e assim fomos ganhando o carinho, a admiração e a amizade. Tudo ficou mais forte com a presença da Orquestra Aragon, com o embaixador a sugerir que abríssemos o concerto. Cuba foi outra grande escola, porque foi sempre aquele país que entrou musicalmente nas nossas casas com a sua simplicidade musical e isto também foi um grande aprendizado. Por exemplo, fruto da cooperação cubana, eu aperfeiçooei as minhas técnicas de guitarra com uma médica, a Dra. Norman, que uma vez disse-me: "vi-te a tocar e não gostei nada, porque a viola estava desafinada e usavas apenas dois dedos”. O meu pai chamou-me a atenção e mandou entregar o meu violão. Quando ela pegou no instrumento, ficamos todos admirados, primeiro ao fazer os harmônicos e começou a afinar o violão, coisa que eu nunca tinha visto. Depois tocou com os cinco dedos e cantou "El Maior” de Silvio Rodrigues, música que eu gostava muito. A médica tocava como uma profissional e ganhei uma professora, ela reforçou que eu tinha de mudar a minha forma de tocar. Durante dias ela foi-me dando exercícios. Graças à cooperação cubana superei-me e ganhei um violão como prenda da doutora que também dominava música. Hoje, sinto que na minha forma de tocar está presente a influência cubana que tive na formação como músico. Antes já tocávamos assim, mas com a morte do José Carlos Schwarz ganhámos o vício dos dois dedos, método que nos facilitava. A Dra. Norman mudou a minha forma de tocar e acabou com este vício.
 
Nota-se que Manecas é muito ligado à familia, tanto que quando recebeu um dos prémios internacionais chorou...

... Sem dúvidas. Por exemplo, o pai e a mãe deram-te todo o apoio e ensinaram-te com os seus olhos que era importante este caminho... e quando ganhas um prémio ou és galardoado, isto automaticamente toca-te, porque aqueles que deveriam estar ao teu lado e dizer "filho, conseguistes”, já não estão presentes. Isto fez-me cair lágrimas, na altura. 


Falou que o seu pai era um homem ligado à cultura, assim como Amílcar Cabral que dizia que "A revolução também é um acto cultural”...

Amílcar Cabral via a cultura como um espelho, assim como José Carlos Schwarz e o meu pai. Cresci com esta linha de pensamento, obviamente tendo estas três figuras como minhas referências, elas são os meus idolos. Amílcar Cabral, José Carlos Schwarz e o meu pai são pessoas que sonharam e eu sinto a minha vida como a continuação dos seus sonhos. Sinto-me orgulhoso por ser africano e guineense que tem esta apreciação destes grandes senhores que passaram aqui por este mundo e deixaram o seu registo. Os três têm algo em comum, a cultura, e no caso do meu pai, que sempre me apoiou, dizia: "Continua a fazer a música da Guiné-Bissau, não sejas um americano, faz o que sabes, mostra a tua cultura. Vá a busca dos sons e de toda diversidade que a Guiné tem e põe na tua música, transporta os ritmos da guitarra de três cordas para o teu violão e guitarra eléctrica”.


Teu pai tocava algum instrumento?

Em casa tivemos um treinador que não tocava mas dava dicas como se fosse um maestro. Tinha ideia que tanto eu como o meu irmão seríamos grandes músicos, porque via que nós facilmente apanhávamos as músicas da rádio. Ele não dizia nada mas nós sentíamos a admiração dele, que passou a olhar-nos de outra maneira. Nós aparecemos com o África Livre entre 1975-76 e eu tocava viola-baixo, daquelas compridas, e punham-me em cima de uma caixa para ganhar altura e me equilibrar. Foi uma fase bonita. Pelo que os mais-velhos contam não sei se há história semelhante em África. Com o África Livre, ganhei concursos, como o Festival da Música Moderna da Guiné para Menores. Foi um dia histórico. A partir daí o país conheceu novas estrelas e ombreamos com os mais-velhos que perceberam que podíamos fazer a parte da geração deles e tocar com eles. Muitas vezes tirei lugar deles, porque alguns passaram a preferir que eu tocasse e não os seus colegas. Tocávamos Gumbé e Tina, que tem o mesmo andamento do Kilapanga, e outros estilos da Guiné.


Participação  no Top dos Cinco


E depois entrámos nos anos 80, quando acontece o Top dos Cinco...

Não, antes comecei a colaborar com Zé Manel, um grande músico guineense que foi baterista dos Super Mama Djombo. Ele tinha muitas músicas. Surjo como um jovem que protege a música da Guiné-Bissau com outras influências, transportando o som do baixo para a guitarra e dando origem a um ritmo muito percussivo. O Gumbé começa a entrar na nossa comunidade, facilmente penetra na família dos músicos e acabei tendo um destaque no meio. Aos 14 anos de idade, Zé Manel convida-me para fazer parte do grupo que vai gravar em Portugal o seu primeiro disco, em 1982. Sou gêmeo e a minha irmã chorou muito quando pediram a autorização ao meu pai, porque pensava que eu não voltaria. Foi um grande momento, como primeiro músico da minha geração a tocar mais instrumentos numa gravação: guitarra-ritmo, baixo, coros e também participei nos arranjos. De regresso, com presentes para os familiares, é preciso dizer que aconteceu algo extraordinário na escola, porque fui autorizado pelo Ministério da Educaçao a sair do país e depois tive um tratamento especial, fiz um exame especial e passei. Juntei o útil ao agradável, porque na verdade os meus pais sempre condicionavam a minha participação na música à formação na escola. Foi magnífico. O Zé Manel levou o Manecas criança e o trouxe de regresso. Falei de duas grandes figuras: José Carlos Schwarz, que é Top, e Zé Manel, como vocês dizem, Pai Grande.
 
Este percurso o levou ao Top dos Cinco...

O África Livre ainda teve vários encontros musicais, com a Orquestra Aragon, de Cuba, que esteve na Guiné e para a qual fizemos a primeira parte do concerto, assim como com Os Tubarões, de Cabo-Verde. Foi muito bonito partilhar com estes monstros. Alguns elementos da Orquestra Aragon queriam que fosse para Cuba, porque viram que eu fazia algo fora do normal. Acabei por não ir porque, mais uma vez,  a minha irmã teve uma crise. Os nossos pais nunca quiseram nos separar e acharam que não era a hora de eu partir. Nós éramos muito próximos. Infelizmente ela já não está entre nós, e, desta forma, uma parte de mim partiu com ela. Continuei a trabalhar com o África Livre e, apesar de estar no grupo, servia outros artistas, porque era muito solicitado. Quando o grupo deixou de existir fiquei artista individual. Nesta fase comecei a compôr e a gravar para a rádio, arrastando muita gente com a minha voz e forma de tocar. A minha música passou a fazer parte da programação da rádio, as pessoas ouviam nos carros e passei a ser conhecido não apenas como instrumentista mas como cantor. Estávamos em 1984-86. É assim que ganho o concurso "Descoberta” ["Découverte”], organizado pela Rádio France Internacional e depois tive a divulgação e projecção na media internacional.

Então, antes do Top dos Cinco, o Manecas venceu o "Descoberta” da RFI?

Na verdade, foi na mesma altura. Tive uma outra noite inesquecível, quando conquistei dois prémios como artista: o mais popular e o nacional, com a pontuação mais alta, o que acabou por ter um impacto histórico na minha carreira, até hoje. Assim, em 1987, como artista mais popular da Guiné-Bissau, fui convidado para participar no Top dos Cinco em Angola. Por isso é importante ligar estes momentos únicos. Cheguei em Luanda e fui muito bem tratado. E isso acontece até hoje, por isso digo que Angola é a minha segunda casa, onde ganhei muitos amigos. Ainda me lembro do Mamborrô, que cantou "Aló aló, minha gente não dispensa a Kizomba”, e do Fernando Luís, com "Zavala Toté” [O Top dos Cinco, realizado em 1987, em Luanda, teve como vencedor o angolano Mamborrô. O moçambicano Fernando Luís ficou em segundo e Manecas Costa em terceiro. O concurso não teve continuidade]. Daí surgiu uma forte amizade com os dois. Aproveito para revelar que o Mamborrô dizia que a minha forma de interpretar influenciou vários cantores angolanos. Ele afirmava que depois de eu ter cantado com alma e sentimento, muita gente surgiu com a mesma linha. Com a música que interpretei, Tcheka, autor da poesia, também acabou por ganhar muito, ele que é um dos maiores poetas da Lusofonia. "Chamo-me Menino” é uma chamada de atenção de que as crianças estão aí, que precisamos delas e não devemos abandoná-las. Mas a música e a poesia falam por si.


Mas Mamborrô foi mais querido que o vencedor do "Descoberta”...

[Risos]. Foi em Luanda e o Mamborrô venceu. Se fosse em Bissau eu ganharia e Fernando Luís levaria o troféu em Maputo. Repito, fomos bem recebidos e aplaudidos, as pessoas cantaram as nossas músicas. Entendo que o Mamborrô era o filho da casa e um excelente músico. Mesmo não ganhando, eu tenho a obrigação de agradecer o que os angolanos fizeram comigo naquele dia histórico. E até hoje quando venho para Angola... olha, eu não vou pedir a nacionalidade, mas se me derem aceito, há quarenta anos que venho para esta terra e tenho trabalhado na música angolana. Foi uma coisa bonita em plena Cidadela, depois da actuação brilhante tanta gente querendo falar comigo...

Depois do Top dos Cinco, o que aconteceu?

Aconteceram várias coisas. O meu pai viu que não podíamos mais ficar na Guiné, porque eu tinha de gravar um disco, ou seja, um cartão-de-visita. Por isso vou para Portugal.

Não foi a situação política na Guiné-Bissau que o fez ir para Portugal?

Que fique bem claro: independentemente da situação política na Guiné-Bissau eu precisava de gravar o meu disco e seguir os meus sonhos. Eu não sou político, a política é uma coisa que fica de lado, tenho a minha vocação e gostava de ver a Guiné-Bissau melhor, por isso digo que o meu partido é o Povo da Guiné-Bissau. Gostaria de ver o meu país como um exemplo na Costa Ocidental de África, um trampolim para os mais pequeninos. Gostava de ter mais Manecas na Guiné, mais histórias de vida como a minha, que possam dignificar o seu povo. Eu sinto que o meu currículo é muito abençoado, porque Deus permitiu que conhecesse José Carlos Schwarz, Combia Jazz, Super Mama Jombo, Miriam Makeba, Ariu Bari e outras estrelas que iam para a Guiné quando eu ainda era pequeno. Ver os grandes guitarristas que apareceram no meu país, como Adriano Fonseca Tundur, do Mama Djombo, Narciso, Nho Mota, Nelson Costa, meu irmão mais-velho, Estevão Soares, Herculano Soares, Urbanito, enfim, todos eles estão dentro de mim. Algumas pessoas não entendem, mas estão mesmo dentro de mim, eles estão bem escondidos dentro de mim, em tudo o que eu faço, nas melodias que faço busco neles a forma. Sou abençoado porque pude viver e aprender as técnicas com eles, porque deram-me esta oportunidade. Ainda miúdo eu era chamado por eles e muitas vezes eles optavam por mim e não pelos seus colegas. Gostaria que surgissem mais crianças como eu na Guiné, em Angola, Cabo-Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Eu sou grato ao meu país.


Gravação do primeiro  disco em Portugal


Em Portugal grava o seu primeiro disco...

Sim.  Lá conheço Eduardo Paim, Paulino Vieira e outros artistas africanos. Na altura o Carlos Burity estava a gravar e acabei por ir a busca do Joãozinho Morgado, do Otis que é moçambicano, e dos Isabari, um grupo da Guiné-Bissau de onde saíram Dalau, já falecido, Juka Delgado, Guto Pires e o Ye Soko. Fui buscar uma moldura de pessoas que podiam dar-me uma boa acústica. Apanhei uma época em que toda a gente queria fazer música para pistas de dança. Mudou o meu conceito musical, porque eu tinha de fazer mesmo o que não queria. Eu precisava de um cartão-de-visita para mostrar às pessoas que queriam apostar em mim. Na verdade, queria fazer violão e tambor-de-água ou seja, um disco mais acústico. Gravei nos estúdios da Valentim de Carvalho e o disco foi editado pela África Notícias, uma revista que tinha uma editora que também publicou o disco do Carlos Burity. O editor era o guineense João de Barros.


Depois do disco, o que mudou na sua carreira?

O lado bom é que entrei em casa de muita gente pelo disco e comecei a fazer alguns espectáculos. O "Chamo-me Menino” pegou logo. Ganhei admiração e amigos, o que obrigou-me a crescer, a acreditar e a apostar mais na minha carreira. Não foi fácil porque a nossa a música não era aceite em Portugal. Para tocar tinha que ir aos bares. Fiz isto e agradeço a Deus pela força para não desistir nunca e por fazer com que este fogo de coração de um grande africano e cidadão do mundo prevalecesse e não aceitasse que alguém me desviasse do caminho, por mais que não existissem condições para brilhar. Eu tinha que fazer as coisas e então comecei a compôr, cantar e tocar. Nos bares tocava música portuguesa, angolana, cabo-verdiana, brasileira, de tudo. Tinha fome de tocar e comecei a ganhar espaço. Foi uma fase muito complicada mas que foi vencida. É aquilo que eu digo, quando nós acreditamos no nosso talento e temos um caminho a percorrer, é ir para frente e nunca desistir.


"Não me venham dizer que não faço parte da música angolana”


E como entra no meio dos músicos angolanos?

Comecei a ganhar espaço e conheci o Kota Cabé, pai do Paulo Flores. Foi ele praticamente que me mobilizou para a música angolana e fez a minha aproximação ao filho. Conheci Waldemar Bastos, que pretendia tocar comigo, e depois o Bonga. Colaborei com eles em alguns concertos. Como disse, Eduardo Paim trabalhou no meu primeiro disco e na fase da divulgação venho para Angola. Foi então que uma grande figura, o Teta Lando, depois de ouvir a minha história numa entrevista feita pelo Afonso Quintas, foi à Rádio Nacional para conhecer-me. Pediu-me para tocar o "Chamo-me Menino” com o meu violão e disse-me que eu tinha percussão. Foi um dia inesquecível porque Teta Lando era uma grande referência e não tinha nada a provar. Ele também entrava nas nossas casas na Guiné.  Acabei por colaborar com toda a lusofonia e deixei a minha marca. Primeiro na música de São Tomé e Príncipe; poucos sabem, mas muita coisa do Camilo Domingos foi tocada por mim, com a falecida Astra Aires, cantora moçambicana. Fiz várias colaborações com Bana, Ildo Lobo, Tito Paris, Maria Alice, Dani Silva, a banda do B.Leza e outros músicos cabo-verdianos. É importante aqui referir que Bana nos tratava como familiares. De salientar ainda que nessa época, a música cabo-verdiana já tinha espaço. Ganhei um carinho especial por ela e por um outro irmão angolano, o Nanutu que estava comigo. Eu tocava baixo e algumas vezes guitarra e ele o seu sax e outros instrumentos de sopro. Vivemos momentos únicos, partilhávamos muitas vezes o quarto, e, longe das nossas terras, chorámos muitas vezes. Nesta última passagem por Luanda nos encontramos e voltamos a chorar. Havia momentos que nem dinheiro para comprar uma corda para a viola tínhamos. As pessoas não conhecem a nossa luta [Manecas Costa não conseguiu conter as lágrimas]. Hoje conseguimos colocar a música africana e fico feliz com a projecção de uma nova geração e o começo da valorização das estrelas do passado.

Tem noção do número de artistas angolanos com quem trabalhou?

São muitos. Da antiga à nova geração, desde Bonga, Waldemar Bastos, As Gingas, Banda Maravilha, Semba Masters, Paulo Flores, C4 Pedro, Yuri da Cunha, Carlos Burity, Matias Damásio, Pérola, Ary, Yola Semedo, Puto Português, dentre muitos outros. Não me venham dizer que não faço parte da música angolana. Por exemplo, fiz a base do álbum "Luz” do Matias Damásio e a produção do "Amar Angola é Minha”, o disco do Paulo Flores e do Prodígio. "A Benção e a Maldição” também tem as minhas impressões. Trabalhei igualmente com outros artistas de outras paragens. E mais novos. Por exemplo em "Te Amo” da dupla são-tomense Kalema, que ficou viral com Cristiano Ronaldo a treinar ao som dela. Trabalhei com Djodje, Suraya Gomes e outros... Gosto de aprender com os mais-novos.

Fale da sua relação com Paulo Flores...

Ele é um irmão mais-novo. Tudo começou com o Pai Cabé, o responsável por manter-me fiel aos angolanos e cuidar do filho. A nossa amizade vem do tempo em que éramos magrinhos, olha, a mãe do Paulo fica aliviada quando estou nas digressões com ele. Os nossos filhos são amigos. Das várias parcerias ficou marcada a canção "Inocenti”, onde eu canto em crioulo da Guiné.
 
E o que tem em agenda?

A produção musical tem-me ocupado muito, mas tenho coisas preparadas. Trabalhei no novo disco do Yuri da Cunha, que está interessante. Ele explorou-me muito, ou seja, tirou muita coisa de mim. Participei em "Mantenha” (Cumprimento) com Mário Coppé. Acompanho nas calmas a produção da minha filha e do meu filho, mas deixo eles fazerem musicalmente o que querem. O meu foco de momento é o projecto MC-2 Guiné-Bissau, com o amigo Micas Cabral.


Para finalizar, fale das razões que o levaram a transportar a bandeira do seu país na sua guitarra?

Em 2002, foi para mostrar a esperança e fazer acreditar na Guiné-Bissau, levar gente para conhecer a Guiné-Bissau.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista