Cultura

Musicalidade e arte dos múltiplos ofícios de Cirineu Bastos

Jomo Fortunato

Jornalista

Embora não tenha registado a sua obra em disco, enquanto intérprete, Cirineu Bastos é, inequivocamente, uma fi-gura carismática do meio artístico luandense, e esteve muito próximo das formações culturais mais prestigiadas da história da Música Popular Angolana.

26/10/2020  Última atualização 07H00
© Fotografia por: Vigas da Purificação| Edições Novembro
Considerado um homem de múltiplos ofícios, Cirineu Bastos iniciou a sua carreira artística como bailarino, tendo optado depois pela representação teatral, e, só mais tarde, associou ao conjunto dos seus dotes artísticos, o exercício do canto. Foi nesta primeira fase da sua titubeante trajectória, que Cirineu Bastos emocionava as plateias femininas, interpretando sucessos do cantor brasileiro, Roberto Carlos.

Estávamos numa época em que surgiam nos bairros, pe-quenas formações culturais que invertiam a tendência de assimilação pacífica da cultura portuguesa, valorizando os aspectos culturais mais representativos da angolanidade. É assim que Cirineu Bastos, optando por enaltecer a profundidade dos aspectos identitários da sua cultura, juntou-se ao grupo "Nzagiuaxikelela”, finais de 1957, com Tiozinho Miranda, guitarra, Voto Neves, viola baixo, Quim Miranda, mukindo, Vum-Vum, guitarra e voz, e Belita da Silveira, bailarina. 

Convidado por Mário Clington e José Oliveira de Fontes Pereira, conhecido por Malé Malamba, Cirineu Bastos integrou, em 1959, o grupo "Fogo Negro”, formação musical onde, para além de ter sido bailarino, porta-bandeira e cantor, diz ter começado a sua paixão pelo lirismo da Música Popular Angolana. "Foi no "Fogo Negro”que interpretei as canções: "Malalanza”, "Nzambiiami”, e "Sembistas”, temas que marcaram momentos cruciais da existência do grupo”, recordou, nostálgico.

Embora tenha estado distante dos estúdios de gravação,   Cirineu Bastos esteve sempre próximo dos palcos e das pistas de dança, influenciado por Ezequiel de Almeida, seu primo, figura conhecida da Direcção do grupo teatral e musical, "Bota-Fogo”, que o levou para o universo da dança, tendo frequentado as famosas farras do terraço do mais-velho Jacinto, no Bairro Marçal.

Filho de Evaristo Honório Bastos Júnior e de Carolina Rodrigues de Almeida, Cirineu Cruz de Jesus Honório Bastos nasceu em Luanda, no dia 25 de Abril de 1945, e fez das tertúlias, muito frequentes na sua época de juventude, uma fonte de conhecimento e paixão pelas coisas culturais an-golanas. " O exercício do canto era uma forma de liberdade e de expressão das manifestações da alma da minha geração. Daí que tenha sido impossível ficar indiferente a um movimento cultural, cujos reflexos constituem, hoje, a marca do nosso orgulho, enquanto sujeitos e protagonistas da nossa história cultural”,  argumentou Cirineu Bastos.


Carreira   
Depois de ter passado pelo "Fogo Negro”, Cirineu Bastos decidiu enveredar por uma carreira a solo, como cantor, no agrupamento os Gingas, sua primeira formação, onde encontrou o Duia, viola solo, Kiavulanga, voz e dikanza, Kaculo Kalunga, puíta, em 1964, tendo acompanhado, depois, as primeiras apresentações públicas dos "Negoleiros do Ritmo”, com Dionísio Rocha, voz, Zé Fininho, dikanza, Almerindo Cruz, guitarra ritmo e voz, Joãozinho Morgado, tumbas, e Mário Fernandes, guitarra solo. CirineuBastos esteve próximo do África Show, de Massano Júnior, Kiezos, de Márito Arcanjo, e "Os cunhas”, onde o vocalista principal era o cantor e compositor Sabú Guimarães, seu amigo de longa data. Cirineu Bastos passou ainda pelo "Ndimba Ngola”, conjunto que o acompanhou na inauguração do Club do Forte Santa Rita,  em Moçâmedes, num elenco em que figurava o cantor Elias dya Kimuezo, e as cantoras Lourdes Van-Dunem, Belita Palma e Olga Baltazar.


Política
Cirineu Bastos não permaneceu alheio à revolução, e aos ventos de mudança social e política que se seguiram ao advento da independência. É assim que na província da Huíla, depois de ter estado no Lobito, como cantor residente do espaço de entretenimento denominado "Comodoro”, e depois no "Calema”, reencontrou dois colegas da banda "os Cunhas", entre eles o Cestinho Weba, órgão, e Rui Cunha, viola Ritmo,  e decidiram, por unanimidade criar, em 1974,  o agrupamento "Valódia”, em que se juntaram Octávio Kudimá, voz e tumbas, Rui Mário, viola solo, e Juca Morgado, vocal e dikanza, formação que interpretava canções de natureza política, mais conhecidas na época.

Em 1982, cantou para uma plateia de importantes políticos angolanos, a canção "Engraxador”, sob a forma de representação teatral, um tema de denúncia social com texto do escritor Jofre Rocha, e música de António Pascoal Fortunato (Tonito), do qual reproduzimos o texto integral: Cedo de manhã/ fome na barriga/ caixote na mão/ lá vai ele trabalhar/ preta ou castanha/ tem pomada branca/olha a graxa patrão/ escola dele é a rua/ livro é só tinta e escova/ a tabuada lhe é fácil/ sai graxa patrão/ pode sentar freguês/ sapato fica bem limpo (…) Escrita em plena época colonial, o "Engraxador” acabou por ser uma canção de protesto, pela ousadia do conteúdo textual, constituindo uma alerta à condição dos mais pobres, e à desigualdade de oportunidades no acesso ao ensino, uma prática do sistema colonial português.

Cinema
Cirineu Bastos experimentou o cinema, tendo participado no filme "Massacres da Kiminha”, e na primeira versão do "Comboio da Canhoca”, dois filmes do realizador Orlando Fortunato, onde contracena com o cantor Beto Gourgel, tendo feito parte do elenco das telenovelas: "Entre o crime e a paixão”, como "Tio Zé”, e "Minha Terra, nossa mãe”, como agente Mateus. No dia 15 de Maio de 2007, a Televisão Pública de Angola estreia o "Comba”, uma telenovela, em dez capítulos, baseada na obra homónima do escritor Manuel Rui, onde Cirineu Bastos representou a figura do "De Risco”. A estória do "Comba” começa com o funeral do falecido, no qual duas viúvas, rivais, Dona Vaca (Yolanda Viegas) e Dona Márcia (Emília Luvualu), disputam a herança do finado. A telenovela é uma sátira sobre os hábitos actuais dos ambientes de óbitos luandenses, caracterizados pelo desrespeito aos costumes da moral tradicional.

Realizado por Mariano Bartolomeu, com guião de José Silvestre, o "Comba” é, igualmente, uma reflexão sobre as consequências do direito de herdade, causadas pelo falecimento do ente que, em vida, detém o poder económico nas famílias angolanas. Com Dionísio Rocha e José Massano, Cirineu Bastos participou ainda nas peças "Dois calús em mandinbinza” e "Nzambiya Tubia”.


Concertos
Cirineu Bastos participou em importantes concertos e festivais, na história da sua carreira, muitos dos quais representando Angola, em vários países. É assim que em Novembro de 2000, integrou o grupo artístico convidado para as festividades do 25º aniversário da independência de Angola, em Portugal, integrando um elenco constituído por Carlos Lamartine, Vate Costa, Lulas da Paixão, acompanhados por uma banda musical dirigida por Botto Trindade e Gregório Mulato, Kituxi e seus acompanhantes, e os gastrónomos João Gonçalves, e Júlio Lucas. O certame incluía uma amostra discográfica de Música Popular Angolana das "Produções Teta Lando”. No dia 23 de Novembro de 2002, Cirineu Bastos juntou-se à Banda Maravilha, no Clube de Imprensa de Brasília, nas festividades do vigésimo sétimo aniversário da Independência Nacional, num concerto organizado pela direcção do Sindicato dos Jornalistas Brasileiros.

 Em Luanda,  destacamos a participação de Cirineu Bastos no dia 26 de Janeiro de 2004, na primeira edição do programa "Caldo do Poeira”, da Rádio Nacional de Angola, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, num concerto de homenagem aos 428 anos da cidade de Luanda, onde participaram Elias dya Kimuezo, Nelo Bastos, Zé Agostinho, Nelito Bangão, Chico Montenegro, e Tino dya Kimuezo, acompanhados pelas bandas Movimento e Marissol, artistas que cantaram as belezas e encantos da cidade de Luanda. Neste concerto, de pendor revivalista, foram recordadas as canções: "Angola África”, "Luanda capital”, de Urbano de Castro, "Avenida Brasil”, de Óscar Neves, e "Minha Cidade”, de Dionísio Rocha, num vasto repertório constituído por cerca de trinta e cinco canções, cujas letras abordam assuntos relacionados com a cidade de Luanda.


 "Uma excelente mão na culinária” segundo Filipe Mukenga    

O cantor e compositor Filipe Mukenga, que conviveu com Cirineu Bastos nos tempos de juventude e nas tertúlias do Bairro Indígena, nos anos sessenta, recordou a figura do artista nos seguintes termos, "Conheci o Cirineu Bastos em finais dos anos cinquenta no bairro indígena e depois no seio da família Mangueira. Ele sempre foi uma figura incontornável e muito popular no nosso meio urbano e artístico, fundamentalmente pelo modo como sempre entendeu apresentar-se vestido perante os amigos, festas e espectáculos em que participava. Cirineu Bastos é um artista a quem Deus entendeu contemplar com vários dotes e múltiplas habilidades.

Note-se que desenha e costura as suas roupas, um tipo de indumentária que tem características muito peculiares. Neste sentido, ele bem poderia ser um estilista de renome, a nível de qualquer estilista estrangeiro, pois, desde muito cedo, revelou muita criatividade no domínio da moda, e, no Grupo Teatral Ngon-go, revelou-se nos idos anos cinquenta e sessenta, um excelente bailarino, actor e cantor. Quando foi  mobilizado para o cumprimento do serviço militar obrigatório, no exército colonial português, Cirineu Bastos apresentou uma outra faceta que pouca gente conhecia, ou seja, a de possuir uma excelente mão na culinária. Cirineu Bas-tos é um grande amigo, homem pleno de dotes ar-tísticos e, com pena minha, anda de certo modo esquecido nos "escaparates” mais visíveis da cultura angolana. Estarei sempre do seu lado, tanto como amigo como companheiro da vida artística.”

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