Cultura

Museu do Dundo divulga potencial das peças recuperadas na Europa

Armando Sapalo | Dundo

Jornalista

Com um acervo etnográfico de maior dimensão científica, cultural e histórica, o facto de ter sob à sua guarda colecções de história natural e arqueológicas, o Museu Regional do Dundo ostenta o estatuto de uma instituição multidisciplinar a julgar pela abrangência na preservação e divulgação dos costumes das comunidades etnolinguísticas lunda e cokwe.

10/08/2022  Última atualização 11H49
Oito peças do acervo do museu foram recuperadas em 2018 pela Fundação Sindika Dokolo © Fotografia por: Benjamim Cândido/ Edições Novembro

Desde 2015 que o Ministério de tutela e a Fundação Sindika Dokolo firmaram uma parceria para a recuperação das peças roubadas no Museu  Regional do Dundo  e levadas  clandestinamente  para a Europa.

Em Novembro de 2018, a Fundação Sindika Dokolo  entregou 8 peças ao então Ministério da Cultura,  das que tinham sido ilicitamente exportadas  e que pertencem ao acervo do Museu Regional do Dundo.

De acordo com o diretor-geral do Museu, Ilunga André, na sequência da  recuperação das peças, foram apresentadas, publicamente, em Bruxelas, capital da Bélgica, durante uma conferência de imprensa em que estiveram representantes do Ministério de tutela e da embaixada de Angola naquele país europeu.

A apresentação  aos proprietários, no caso o Museu Regional do Dundo e comunidades locais  da região  leste de Angola, aconteceu a 12 de Abril de 2019, na comunidade do grupo etnolinguístico  Lunda e Cokwe.

Ilunga André esclareceu que a principal fonte documental que serviu de base para a localização  e identificação das peças foi  o livro de Marie-Louise Bastin, intitulado "Art décoratif Tshokwe” ,  publicado em 1961.

A Fundação Sindika Do-kolo, responsável pela recuperação das peças, teve a colaboração de outras instituições especializadas  como o Museu de África  Central  de Tervuren, na Bélgica,  a  Interpol  entre outras instituições internacionais.

Ilunga André explicou que as peças podem ser apreciadas pelo público a qualquer momento pois encontram-se na sala de exposição permanente, onde os visitantes podem apreciar o potencial do acervo do Museu do Dundo.

Do acervo  museológico constam a cadeira  cokwe  (Ngundja),  a máscara feminina (Mwana Pwo) , a máscara (Cihongo),  estatueta cokwe Luena (kaponya wa pwo), taça de comida do  tipo Panda (Panda), (Ymbia Kaponya wa pwo), cachimbo cokwe (Pexi wa Makanya) e Banco redondo  (Citwamo  ca xiki mutwe  wa mukixi  wa cihomgo).

Instituição clama por  efectivos de segurança

O Museu Regional do Dundo precisa de recrutar no mínimo seis vigilantes para garantirem a segurança e protecção quer da instituição quer do acervo, que engloba mais de 10 mil peças etnográficas e 30 mil de história natural (Biologia).

Além dos vigilantes em falta, não existem técnicos suficientes, no universo de mais de 80 funcionários de distintas especialidades, que a instituição deve ter como força de trabalho, com base no estatuto orgânico do Museu do Dundo.

Estão em falta especialistas nas áreas de biologia, arqueologia, antropologia, técnicos em restauração e conservação de peças, guias e trabalhadores administrativos.

Actualmente, o número de trabalhadores é inferior a 20, uma preocupação já foi reportada ao titular do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, segundo o director da instituição.

O Museu Regional do Dundo compreende três áreas de investigação, designadamente Arqueologia, História Natural (Biologia) e Etnografia.

Depois da conclusão das obras do depósito geral, vai ser feito um novo inventário do actual acervo com a finalidade de aferir o número de peças existentes.

O acervo de arqueologia nunca foi inventariado, mas há perspectivas de que esta actividade vai ser feita após a  conclusão das obras do edifício que vai albergar o depósito-geral do Museu.

De acordo com o director-geral, para garantir maior protecção do vasto acervo disponível e, sobretudo nas salas de exposição, é urgente a contratação de mais quadros para a instituição.

Máscara "Cihongo”

"Cihongo” é uma máscara que simboliza riqueza e fertilidade dos chefes, sendo a mais importante  entre as máscaras desta categoria artística.  Segundo o director-geral do Museu do Dundo, a máscara "Cihongo”  é ocasionalmente usada pelo próprio chefe, com mais frequência pelo filho deste, e que actualmente pode ser ostentada por qualquer outro dançarino.

Cadeira "Citwamo ca mwata"

Trata-se de um banquinho redondo, feito de madeira "muxiyi”, com base lisa, cadeira cokwe (Ngundja).

Segundo o director do Museu do Dundo, a cadeira de soba ou "citwamo ca mwata” é um modelo de pequeno tamanho, com assento de couro. As travessas estão esculpidas com figuras em friso, talhadas na massa retratando cenas diversas que traduzem aspectos correntes da vida dos nativos,  inspiradas em tradições da antiga corte dos sobas cokwe, "Mwatxissengue”, que restabeleceram o seu último Estado, na região do Itengo.

No espaldar da cadeira vê-se uma cabeça de bailarino  esculpida e duas cabeças, uma de homem, outra de  mulher, nos topos das pilastras do espaldar. A cadeira pertenceu ao soba Sangime,  que viveu na  área do Chitato, e que segundo os mais velhos,  herdou  do seu tio, sublinhou Ilunga André.

Taça Panda e cachimbos

Entre os cokwe, a taça "Panda” serve para cozer mandioca e outros alimentos, cuja figura feminina (kaponya wa pwó)  exibe  também a representação da tatuagem denominada  "mukonda”, sob a forma de duas nervuras horizontais que atravessam o baixo-ventre.

Por sua vez, os cachimbos coroados por uma cabeça, com  dois lóbulos laterais em saliência que  simulam cabelos volumosos e atados de cada lado de uma parte anterior em forma de leque,  estão, também, entre as peças de valor dessa comunidade.

Para o cachimbo, são preparados tabaco e fumado em todos os em encontros importantes,  passando de boca a boca, a partir do chefe da tribo. Esse acto, de fumar cachimbo, simboliza a amizade,  fraternidade e solidariedade das autoridades tradicionais.

"Kaponya wa pwó”

A escultura da mulher  com os pés apoiados numa base, braços ligados ao corpo e mãos pousadas nas ancas, faz parte do conjunto das oito peças do Museu Regional do Dundo, recuperadas na Europa, pela Fundação Sindica Dokolo.

Para o director do Mu-seu, a peça representa o importante papel que a mulher desempenha na sociedade, incluindo a grandeza e o conhecimento da  arte  cokwe no contexto internacional, até no embelezamento de  palácios nobres.

Máscara "Mwana Pwo”

A máscara "Mwana Pwo” traduz uma face de mulher; o termo "Mwana Pwo” significa rapariga. Essa máscara simboliza a beleza e a figura da mulher.

O uso coincide com zonas de antigo regime social de matriarcado, sendo frequente no nordeste da Lunda-Norte. Embora represente uma mulher, o bailarino desta máscara, como de todas outras, é sempre um homem.

A máscara, segundo Ilunga André, é, possivelmente, a mais estimada dos povos do leste de Angola. A máscara tem nas orelhas e na parte nasal, canudos de caniço entalhado que representam um dos mais antigos adornos do corpo, a par das tatuagens de padrão lunda e cokwe.

Por baixo do queixo da máscara, vê-se a gola de rede que serve para prender ao rosto do bailarino que se reveste da mesma rede. "Mwana Pwo” é um símbolo da graça do sexo feminino, e os bailarinos desta máscara são profissionais, pos embora que  ela representa a beleza e o encanto da mulher cokwe, numa sociedade tipicamente matrilinear em que não são  elas  que governam, mas tudo passa pelo lado materno.

Pelo realismo da sua beleza e requinte, "Mwana Pwó” constitui uma das mais belas e conhecidas máscaras que Angola, na óptica do director-geral do Museu do Dundo.

Banco redondo

Trata-se de um banquinho redondo, feito de madeira, com base lisa, monobloco. O pé tem  a forma de cabeça da máscara "Cihongo”. A peça provem do grupo  Xinji, na região de Kamaxilu, sobado de Kasemene.

Constitui um modelo típico do mais tradicional banquinho dos cokwe, segundo o director-geral,  Ilunga André,  sendo também  usado pelos sobetas e pessoas sob sua jurisdição.

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