Cultura

Museu Cesária Évora continua sem alicerces

O futuro Museu Cesária Évora continua a ser uma prioridade para a Rede Nacional dos Museus de Cabo Verde, mas até hoje só está no papel, devido ao desentendimento com os herdeiros, já que o intuito da instituição é reunir, na casa da antiga cantora, todo o espólio.

04/01/2022  Última atualização 09H40
Instituição museológica em memória da cantora é prioridade mas há dez anos não sai do papel © Fotografia por: DR
Por ser um museu biográfico, em que o acervo é particularmente relacionado com a vivência da personalidade, o processo torna-se complicado porque não é uma intervenção que o Ministério da Cultura de Cabo Verde, nem o Instituto do Património Cultural daquele país possam fazer. "É preciso que haja esta vontade também dos herdeiros”, disse à Lusa a directora da Rede Nacional dos Museus de Cabo Verde, Samira Baessa.


Cesária Évora nasceu no Mindelo, em 27 de Agosto de 1941, cidade onde também morreu, em 17 de Dezembro de 2011; é considerada, pela divulgação da morna, a cantora de Cabo Verde com maior reconhecimento internacional.
A Associação Cesária Évora assegurou, em Novembro do ano passado, que o espólio da artista está preservado à espera da concretização do Museu Cesária Évora, na sua casa, no Mindelo, prometido desde o falecimento da "diva dos pés descalços”, há dez anos.


"O maior desejo da associação é ter um lugar condigno em São Vicente, onde todos os que vierem a Cabo Verde procurar por vestígios de Cesária os encontrem em boas condições, num verdadeiro museu. A ideia, que já apresentámos ao Governo e esperamos, com algum financiamento, mesmo que internacional, é dar maior abrangência ao espaço”, explicou o produtor José (Djô) da Silva, presidente da associação.


A associação, a família da cantora e várias entidades de Cabo verde promovera, no Mindelo, até ao passado dia 19 de Dezembro, um programa de homenagem à "diva dos pés descalços”, para assinalar os 80 anos do seu nascimento e os dez anos da sua morte.


Samira Baessa informou que há uma negociação entre o Ministério da Cultura e a família no sentido de ampliar o conteúdo exposto actualmente no Núcleo Museológico Cesária Évora, situado na cidade do Mindelo, criado para servir como primeiro espaço do museu. No entanto, dez anos após a morte da cantora, e seis anos após a fundação do núcleo, o museu continua sem data para ser construído.


Para já, explicou, a instituição prevê investir em "melhorias” na estrutura do Núcleo Museológico Cesária Évora e no espólio. "Queremos colocar suportes mais atractivos, porque estamos agora a implementar os novos projectos museográficos. Mas, tendo em mente a possibilidade de termos um projecto num outro espaço mais amplo, inclusive com um espólio mais alargado, a recolher junto da família, pensamos neste momento fazer esta intervenção de melhorias no edifício, para que continue a acolher os visitantes, aguardando esta negociação com os intervenientes para chegarmos a um projecto que espelhe a importância de Cesária Évora e do espolio”, apontou.


O interesse para instalar o museu na casa de Cesária Évora, onde a cantora viveu, no Mindelo, entre o tempo dos concertos, que realizava por todo o mundo, mantém-se, disse Samira Baessa. Neste momento, recordou, o conteúdo relacionado com a cantora está espalhado por três espaços em particular: o Núcleo Museológico, a exposição no Palácio do Povo, de Francisco Rocha, que tem mais de 20 anos de recolha de fotografias, certificados internacionais e outros objectos pessoais como os vestidos da cantora, bem como na casa onde viveu a artista.


"Não havendo uma boa articulação entre estes intervenientes que possuem o mesmo objectivo, quem demanda à cidade, os visitantes, os turistas acabam por ter uma dispersão em relação aos espaços”, lamentou, reconhecendo que o número de visitantes do actual núcleo museológico não é o desejável.


Ainda assim, acredita que há uma grande afluência à própria casa, embora o espaço interior não esteja aberto a visitas, pelo que reunir todo o espólio num único local seria uma mais-valia. "Fazendo um projecto organizado que crie um roteiro, mas destaque o espaço como sendo o local onde está o espólio da artista, bem preparado para as pessoas conhecerem melhor a história de Cesária. Por isso tem de ser um espaço auto-sustentável, capaz de trabalhar toda a vocação do museu na perspectiva da educação, turismo, empoderamento feminino e dar a motivação que a figura da Cesária Évora possa representar para a cidade, o país, e internacionalmente, inclusive para a morna, que é Património da Humanidade”, sublinhou.


O núcleo, recordou, foi "criado sempre com a ideia de vir a transformar-se, a curto ou médio prazo, num projecto mais amplo”. "Só que tratando-se de um projecto em que há herdeiros, a família, há diálogo, tem que se esperar e conseguir o retorno e isso leva tempo e por isso se calhar alguma demora na decisão”, apontou, embora acredita que haja um consenso em breve.


O actual Núcleo Museológico foi criado em Maio de 2015, precisamente no edifício construído dez anos antes para então ser a residência da artista Cesária Évora. "O edifício conhecido como a Casa do Artista foi oferecido à Cesária Évora no dia 17 de Janeiro de 1995, pronta a habitar. A cantora recebeu as chaves das mãos do presidente do Instituto Nacional da Cultura, Mário Fonseca, e do presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Onésimo Silveira”, recorda o historial do espaço, colocado na parede, logo à entrada.


O técnico do Instituto do Património Cultural de Cabo Verde e actual responsável do núcleo, Júlio Martins, explicou à Lusa que Cesária Évora "nunca chegou a morar na casa e quem lá viveu foi a filha”. "Na altura era para ser a casa de Cesária enquanto estivesse viva. No entanto, quando terminaram o projecto ela já tinha a sua casa própria e não chegou a viver lá, mas sim a filha e a neta”, frisou.


Actualmente, o trabalho do núcleo tem sido virado para o turismo, mas também na pedagogia, explicou. No espaço, acrescentou, encontram-se objectos profissionais e pessoais da cantora, desde vestuário a objectos de uso doméstico, fotografias e cópias das músicas que interpretou ao longo da carreira.

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