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Munícipes de Ndalatando defendem a divulgação dos locais turísticos

Manuel Fontoura | Ndalatando

Jornalista

Cidadãos da província do Cuanza-Norte defendem a valorização e divulgação dos locais turísticos e sítios históricos da região, tendo em conta que a maior parte é pouco conhecida e não está identificada, principalmente em Ndalatando, Cambambe e Lucala.

29/09/2022  Última atualização 07H50
Muitos sítios históricos e encantos naturais da província do Cuanza-Norte estão em estado de abandono e à espera de mais investimentos para atrair turistas © Fotografia por: Nilo Mateus | Edições Novembro | Ndalatando

"Actualmente, a maior parte dos jovens dá mais importância às matérias ligadas à formação académica e se esquece dos sítios históricos", disse Maurício Alexandre, estudante de História.

Acrescentou que, para melhor conhecimento dos locais turísticos e sítios históricos da província, o Governo deve conceber um programa bem estruturado, para que jovens e não só se interessem em conhecê-los, bem como o seu historial.

No Cuanza-Norte, onde é notória a presença de turistas estrangeiros, entre os locais mais visitados destaque para as Furnas do Zanga (Pedra Furada), as zonas balneares dos rios Luinha e Mucari, nos arredores da cidade de Ndalatando, além da "praia" do Kiamafulo e a Fortaleza de Massangano, em Cambambe.

Segundo o professor Julião Pedro, lugares como o Centro Botânico do Quilombo, a pequena "praia" do rio Lússue e o Miradouro da Lua, nos arredores da cidade, tidas como únicas opções de lazer para as pessoas que vivem em Ndalatando, deviam ser melhor aproveitados. 

De acordo com dados da Direcção Provincial da Cultura, os locais paisagísticos, bem como os monumentos e sítios do Cuanza-Norte são reconhecidos pelo Ministério da Cultura, fruto de um levantamento solicitado em 2008, estando a maior parte deles na comuna de Massangano (Cambambe), com placas de identificação, faltando, apenas, sinalizar os existentes nos municípios a Norte da província.

De referir que, na Igreja da Nossa Senhora da Vitória, em Massangano, o Instituto Nacional do Património Cultural descerrou, em Maio de 2009, uma placa de identificação, no âmbito de um projecto levado a cabo pelo Ministério da Cultura, visando o reconhecimento de todos os locais históricos do país. A direcção local da Cultura elaborou um programa para que todos os municípios unam esforços, para que os monumentos e sítios, muitos dos quais em estado de degradação e com capim à volta, sejam reabilitados, para que possam atrair mais visitantes.

A província do Cuanza-Norte possui, actualmente, 11 monumentos reconhecidos pelo Instituto Nacional do Património Cultural, a maioria localizados no município de Cambambe, com excepção da Igreja Santo António de Cahenda (Samba-Cajú).

Em Massangano estão ou estavam em estado de degradação a fortaleza e área residencial da Barragem de Cambambe e as igrejas da Nossa Senhora do Rosário e da Vitória, erguidas no século XVI, as ruínas do Tribunal de Massangano e a Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, do século XVIII, onde foram fabricados os primeiros canhões para a tropa portuguesa, assim como o Cruzeiro e moradia "Casa dos Bentes”. A Igreja da Nossa Senhora da Vitória, cerca de 40 quilómetros a Noroeste da velha cidade do Dondo, foi recuperada pela Missão Católica, cumprindo-se, assim, parte do compromisso firmado em 2010.

Locais históricos e turísticos

Dados da Direcção Provincial da Cultura dão conta que, além de Cambambe, todas as regiões da província albergam, pelo menos, um monumento ou sítios históricos, pouco visitados e/ou valorizados. No Cazengo, por exemplo, pode-se encontrar o Palácio Dom Teles Carreira e a casa de passagem do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, localizados no Quilombo, cerca de sete quilómetros a Sudoeste de Ndalatando, bem como as ruínas do Tribunal no Zavula, na região de Caculo Camuiza (Canhoca), Colónia de São João, tida no passado como casa penal dos negros de Angola e de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Ainda no Cazengo encontram-se as Furnas do Zanga, a casa que em 1942 serviu de primeira escola primária para brancos e negros, além de grandes quantidades de mármore.

Na comuna da Cerca (Golungo-Alto), existe o grande Fortim do Mussungo, antigo quartel colonial para a defesa das fazendas agrícolas, que, após a independência, em 1975, passou a ser o Centro de Instrução Revolucionária, que preparava as tropas das ex-FAPLA. No Cambondo (Golungo-Alto) encontram-se as casas duplas onde António Jacinto, nacionalista angolano e poeta de renome nacional, viveu durante muitos anos, além das grandes casas construídas de pedra na Kipemba, a três quilómetros da vila comunal.

No Quilombo dos Dembos (Ngonguembo) encontram-se a granja portuguesa, o Centro do Tumba, as quedas dos rios Lumbiji e Zenza, além da fazenda do Dala Kimbo, entre o município do Bula Tumba (Bengo) e a região de Cafuta, comuna de Camame, município de Ngonguembo, bem como grandes edifícios históricos que datam dos séculos XVII e XVIII. Na região da Pamba, no Lucala, à margem direita do rio com o mesmo nome, existe, também, um fortim, que foi um dos presídios onde se instalou a Administração do Ambaca, assim como as Furnas de Cacolombolo, localizadas na vila do Lucala, local muito visitado por turistas de vários pontos do país e não só.

Em Ambaca há um local também considerado histórico, onde havia uma árvore, cuja sombra, em meados do século XVIII, albergava a população vinda do Norte e Leste do país, que aproveitava para fazer as trocas comerciais. Foi igualmente em Ambaca onde Paulo Dias de Novais foi feito prisioneiro, quando ia combater contra as forças de Ngola Kiluange e caiu numa emboscada. Durante uma troca de prisioneiros, Paulo Dias de Novais foi solto e morreu tempos depois em Massangano, onde foi sepultado.

No Samba-Cajú encontra-se o histórico cemitério de Cahenda, que data desde os séculos XVII e XVIII, e a antiga capatazia, local onde se encontravam as tropas que trabalhavam para a administração colonial e que controlavam e reprimiam os negros que tentassem discutir os seus direitos e terras. 

Na comuna de Samba-Lucala, mais concretamente na região de Dala Capanga, encontra-se o local de onde, em 1959, a população negra, por reivindicar a usurpação das suas terras, pelas autoridades coloniais, enviou a Portugal uma carta anónima. O despacho vindo de Portugal autorizou que o Tribunal do Cuanza, em Ndalatando, na altura Salazar, enviasse para Samba-Lucala uma equipa para poder julgar brancos e negros em pé de igualdade. Quase metade dos brancos envolvidos, num total de 30, foram considerados culpados e algumas terras devolvidas aos negros. 

Em Caculo-Cabaça (Banga) pode-se encontrar as três pedras gémeas, onde se encontra o sinal de Ngola Kiluange, e a primeira capela construída pela Igreja Católica. Na região da Kivota, mais tarde Kicanga e actualmente Aldeia-Nova, a poucos quilómetros da sede municipal da Banga, encontra-se aquele que foi o primeiro Conselho Administrativo, uma casa construída de adobe, cujas paredes ainda existem. Na mesma aldeia há uma vala comum, com mais de 300 corpos. Na sede do Kikulungo encontra-se um cemitério construído em 1958, para brancos mortos em batalhas nas fazendas, abrindo-se algumas excepções a negros.

Em Kiquiemba (Bolongongo) encontram-se as grandes pedras que serviam de refúgio aos angolanos que lutavam contra os colonizadores portugueses, na sua maioria da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), enquanto no Terreiro a 150 metros encontra-se a vala comum onde foram enterradas mais de 500 pessoas, mortas em diferentes batalhas.

Hotelaria e Turismo

Ndalatando dispõe actualmente de cinco unidades hoteleiras a funcionar em pleno, nomeadamente o Términus, com 50 quartos, Miradouro, com 37, Rosa de Porcelana, 16, Camuaxi, 36, e Iu Hotel, com 12. Em Cambambe pode-se encontrar o hotel Zéus, 60 quartos, o hotel Cambondo, no Golungo-Alto, e o Piff-Paff, em Camabatela, ambos com mais de 40 quartos.

O director provincial da Hotelaria e Turismo, Diogo Nogueira, fez saber que a província controla 12 hospedarias, sete pensões, 205 restaurantes e 108 similares. Acrescentou que no município do Quiculungo, cerca de 140 quilómetros a Norte de Ndalatando, encontra-se em fase de acabamentos o projecto de construção de uma unidade hoteleira, com 27 quartos, num edifício com cinco pisos.

Deu a conhecer que a província recebe poucos turistas, devido ao reduzido número de unidades hoteleiras. "Nos seis primeiros meses deste ano recebemos 9.600 turistas, principalmente na velha cidade do Dondo, devido aos vários locais históricos que possui e a presença do rio Kwanza, com a praça da alimentação ao lado, para degustarem diferentes tipos de peixe, com realce ao cacusso, mussolo e a taínha". 

Segundo Diogo Nogueira, os turistas são atraídos pela Barragem de Cambambe e a vila de Massangano, que começa a ser muito concorrida, depois de algumas visitas de turistas americanos, brasileiros, britânicos e sul-africanos, além de pesquisadores da National Geography.

"Os cidadãos nacionais que visitam o Dondo são aqueles que estão em trânsito para o Huambo, Lubango, Malanje e Cuanza-Sul”, sublinhou, acrescentando que no período das efemérides, férias e finais de semana regista-se a presença de mais turistas na província, principalmente na cidade do Dondo, notando-se, actualmente, alguma movimentação de turistas no Lucala, propriamente na zona do Kiangombe, onde se encontram as Furnas de Cacolombolo.

Indicou a falta de meios de transporte e o mau estado das vias de acesso como factores que inibem o crescimento do turismo na região.

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