Sociedade

Mulher morre num hospital após “tentar” cura em igreja

Roque Silva

Jornalista

A família de uma mulher, que perdeu a vida por ter chegado ao Hospital Geral de Luanda (HGL) já em estado crítico, depois de ter permanecido, quase uma semana, numa igreja, em actividade no Zango II, município de Viana, apresentou, há dias, uma queixa-

22/01/2022  Última atualização 07H55
Milagres e garantias de prosperidade têm estado a arrastar muitas pessoas a seitas religiosas © Fotografia por: DR
crime contra o marido da senhora, um pastor, para que seja responsabilizado criminalmente pela morte, ocorrida a 14 de Janeiro.
De acordo com uma filha da malograda e enteada do pastor, que preferiu não ser identificada, a queixa-crime é sustentada com a alegação de que a mãe foi vítima de "cárcere privado”, na Igreja Pentecostal Coração Profético - o Poder de Deus, para onde Joana João Andrade, de 42 anos, foi levada pelo marido para apenas receber "trabalho espiritual”, para a cura da doença de que padecia, tese contestada pelo acusado, que alegou não ser prática da Igreja o recurso à "medicação espiritual”.

A filha de Joana João Andrade denunciou que a mãe foi mantida "refém” pelo marido, Hélder Vasco Cortez, que "não a deixava sair da igreja por nada”, com a promessa de cura à base de "trabalho espiritual”.

Com o estado de saúde a inspirar cuidados médicos, caracterizado por inflamação da barriga, a mulher acabou por ser levada pelo marido, cerca de uma semana depois, por insistência da família, para o Hospital Municipal do Zango, de onde saiu, no mesmo dia (11 de Janeiro), para a casa em que vivia, no Zango IV.

No dia seguinte, o quadro clínico da mulher agravou-se, sendo o motivo da sua entrada no Hospital Geral de Luanda, onde foi submetida a uma intervenção cirúrgica de emergência, por, segundo a filha, ter chegado àquela unidade hospitalar pública com "os intestinos perfurados, de onde saía um líquido preto”.
A morte da mulher, ocorrida quatro dias depois da realização da cirurgia, é atribuída pela família ao pastor, por ter mantido a esposa na igreja sem receber nenhum tipo de assistência médica durante cerca de uma semana.

Revoltada, parentes de Joana João Andrade, sobretudo a do lado materno, disseram ao Jornal de Angola que esperam por justiça, para que a conduta do pastor, de 36 anos, não fique impune, tendo alguns dos familiares admitido que a Igreja Pentecostal Coração Profético - o Poder de Deus esteja a exercer actividade religiosa ilegalmente.

O corpo de Joana foi sepultado quarta-feira, no Cemitério de Sant’Ana. Antes deste fatídico acontecimento, a mulher viveu com o pastor por oito anos, em cujo período fizeram três filhos, nenhum dos quais está vivo, informou a enteada do pastor, acentuando que o terceiro filho morreu aos dois anos, no dia 21 de Dezembro passado.

Marido nega acusações

Contactado na quinta-feira, por telefone, Hélder Vasco Cortez, que se identificou como "profeta”, desmentiu que a sua esposa tenha sido mantida em "cárcere privado” e disse não ser também verdade que tenha permanecido cerca de uma semana no templo, argumentando que "ela ia para a igreja e voltava para a casa”.

"Se eu tivesse mantido a minha mulher como refém, a família dela teria ido à igreja fazer confusão, aproveitando-se do facto de a igreja estar mesmo ao lado de uma esquadra policial”, sublinhou Hélder Vasco Cortez, que, citando o boletim de óbito, passado pelo HGL, disse terem sido causas da morte da esposa a hepatite e a malária.

HGL confirma chegada tardia de paciente

O programa "Fala Angola”, da TV-Zimbo, passou, na quinta-feira, uma peça sobre o caso, em que se ouviu a direcção do hospital, que confirmou ter recebido a mulher "já bastante debilitada”.

A reportagem passou imagens do recinto da igreja, em cuja fachada central está escrito "Igreja Pentecostal Coração Profético – o Poder de Deus”, cujo nome o pastor disse ao Jornal de Angola não ser o da igreja a que pertence. "A minha denomina-se Igreja Ministerial Cristã”, esclareceu o viúvo.

A filha da malograda e mais alguns familiares disseram que a igreja onde a vítima foi mantida, como alegam, em "cárcere privado” não se chama Igreja Ministerial Cristã, como avançou o pastor Hélder Vasco Cortez.

O nome Igreja Ministerial Cristã foi avançado pelo pastor depois de muita insistência do repórter, que soube, também, do próprio que a seita mencionada "está em processo de legalização”.

Ontem, o jornal tentou, mas sem êxito, contactar o responsável pelo Sector da Cultura do município de Viana, para dar alguma informação sobre a situação jurídica de ambas as instituições religiosas, uma citada pela família de Joana João Andrade e outra apontada pelo pastor Hélder Vasco Cortez.

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