Cultura

Muitos livros para poucos leitores

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

Chegam apressados. Calçam chinelos sobre as meias para se proteger do frio típico da época. Animados, entram lado a lado. Dirigem-se ao balcão colocado à entrada. Saúdam, educadamente, a funcionária. Pedem informações sobre como acessar o acervo bibliotecário.

24/07/2022  Última atualização 08H50
Cerca de 700 pessoas acessaram, este ano, o acervo bibliográfico da Biblioteca Provincial da Huíla © Fotografia por: DR
Depois de alguns segundos, a funcionária aponta, à distância, a prateleira com os livros desejados. Recebem permissão para entrar. Correm. "Meninos vão devagar... com calma”, alerta a bibliotecária, que abana a cabeça. Quais surdos, esgueiram-se entre as mesas e lá estão. Olham lentamente para a montra cheia de obras literárias.

Ansiosos, alguns dão voltas à prateleira de livros infantis. Escolhem os exemplares com capas coloridas. Satisfeitos, sentam-se à mesa nº 5, uma das 11 disponíveis no espaço de leitura. Ocupam quatro das 38 cadeiras já sem conforto devido ao desgaste provocado pela antiguidade. São os únicos leitores na biblioteca provincial da Huíla.

O silêncio do ambiente estimula a leitura.   Abrem os livros e folheiam as páginas. Cochicham. Mostram-se as ilustrações. "Olha esse boneco!”, mostra um dos meninos, enquanto ri do aspecto nada perfeito. "Já viram este desenho animado do meu livro?”, exibe outro rapaz aos demais.

Concentram-se, cada um, no livro que têm em mão. Percebe-se que Ivanilson João e Edson Calete "Dadi”, de 11 e 10 anos, lêem sem titubear. José Cassinda "Petilson” e Pedro António "Anderson”, de 12 e 11 anos, limitam-se apenas a folhear as páginas porque são iletrados.

Os três últimos foram convidados a visitar a biblioteca pelo primo Ivanilson, aluno da 6ª classe. Entusiasmados, aceitaram o convite para ver "os livros muito interessantes”.

Ivanilson João já esteve várias vezes na Biblioteca provincial. A primeira vez foi com os colegas. A visita de estudo aconteceu no ano passado. Aquele momento marcou o futuro engenheiro de Petróleos.

Agora, Ivanilson tornou-se um dos leitores assíduos. Sempre que possível vai à biblioteca, sozinho ou acompanhado. Desta vez, "arrastou” os primos. O aluno da Missão Católica do Lubango sente falta de uma biblioteca na sua escola.

"A nossa escola não tem biblioteca nem uma livraria. Lá só lemos manuais escolares. Uma vez visitamos esta biblioteca com o nosso professor. Desde então, venho aqui ler outros livros”, explica Ivanilson, enquanto lê "O Rei Catástrofe – Adalberto não pára quieto”, de autoria de Lewis Trondheime e Frabrice Parme.

Edson Calete "Dadi”, também aspirante a engenheiro de Petróleos, confirma o rico acervo da biblioteca provincial, sobretudo pelas opções de obras infantis.

 "Por acaso, aqui tem mesmo livros interessantes. O nosso primo nos falou sobre isso e quando convidou para vir à biblioteca provincial, achamos por bem chegar aqui para vermos”, confirma "Dadi”, mergulhado na estória "O homem que engoliu a Lua”, da autoria de Maria de Carvalho. 

José Bonifácio Cassinda "Petilson”, aluno da 4ª classe na escola nº 60, anseia por aprender a ler e escrever. Enquanto isso, o futuro torneiro se contenta e aprecia as ilustrações do livro "Adela e o Monstro”, de Wiktloof.

Pedro António "Anderson”, inserido nos módulos de aceleração escolar, sonha ser agente da Polícia Nacional, como o pai.  Anderson, que frequenta simultaneamente a 4ª e a 5ª na mesma escola, quer também aprender a ler para decifrar o teor do livro "O medo voou pela Janela e o Semba das pernas coloridas”, da autora angolana Cremilda de Lima.

À saída, os meninos foram informados pela funcionária de que é proibido a entrada de calções e chinelas. "Desta vez abrimos uma excepção. Pela próxima, não venham mais de chinelas e calções, entenderam bem, meninos?”, alertou. "Sim tia”, responderam em uníssono ao sair.

Acervo bibliográfico

O acervo da Biblioteca Provincial é o principal controlado pelo Gabinete da Cultura, Turismo e Juventude e Desportos. Nas prateleiras e caixas arrumadas nos cantos é possível encontrar livros de vários campos do saber, como cultura, ciência, religião e literatura, entre outros.

Constam do acervo obras classificadas por temáticas como Filosofia e Psicologia, Religião e Teologia, Ciências Sociais, Estatística, Matemática, Direito, Política, Tecnologia, Etnografia, Medicina, História, Literatura e outras. Há também publicações periódicas como revistas e séries do Diário da República.

O chefe do departamento de Cultura, Artes e Património Histórico e Cultural, Bernardino Hafeni Gabriel, informou que a Biblioteca Provincial possui um acervo bibliográfico calculado em 12 mil obras diversas. Quanto ao número de visitantes, disse que de Janeiro a Junho a Biblioteca recebeu a visita de 702 pessoas.

 

Consulta de manuais académicos

Francisco Pulo, estudante de Psicologia, é um dos que recorre à Biblioteca Provincial para a leitura de manuais académicos. "Sempre utilizo este espaço. Primeiro para revisar as minhas matérias. Só depois finalizo com algum livro, preferencialmente romance para relaxar a mente”, afirmou, antes de defender a modernização e actualização do acervo bibliográfico.

Washington Nascimento, professor de História de África, foi pesquisar documentos e livros históricos para enriquecer o conteúdo a leccionar no curso de mestrado no Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED) Huíla.

O professor brasileiro avalia que o acervo da Biblioteca Provincial tem pendor de arquivo histórico pela variedade de livros do século XX. "Esta biblioteca guarda documentação e livros significativos da história colonial. Não há muitos livros de história recente. Por isso, pode ser considerada como uma biblioteca arquivo”, afirmou.

O docente universitário defende mais investimento para melhor organização e tratamento arquivístico dos livros e documentos disponíveis. O académico sugere uma arrumação do acervo por tipologia, data, região e temáticas para evitar o acumulado de livros nas caixas, facto que dificulta a pesquisa.

"A parte de baixo está organizada. Mas falta melhor tratamento na parte de cima para organizar por região ou ano. É preciso limpar os documentos e livros com produtos adequados, pois são sensíveis à humidade. É preciso conservação e digitalização deste rico acervo”, defendeu.

A Biblioteca Provincial, situada no rés-do-chão do edifício do Gabinete da Educação, no Lubango, tem três funcionários. Bernardino Gabriel disse que o gabinete provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos apresentou ao Governo uma proposta para a construção de uma biblioteca e arquivo provincial de raiz.

"Se a proposta for aprovada, o Governo Provincial e a Administração Municipal do Lubango encarregar-se-ão de indicar o local para a sua construção. Neste momento, controlamos cerca de oito bibliotecas municipais e cinco salas de leitura pertencentes à Rede da Biblioteca Nacional”, disse.

Bernardino Gabriel admite a possibilidade de digitalização de todo o acervo tão logo haja condições financeiras, tecnológicas e humanas.

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