Opinião

Mudanças

Caetano Júnior

Jornalista

O desejo de mudanças está enraizado no ser humano. Pode ser da eterna necessidade de aspirar a mais, de querer o melhor, de perspectivar o óptimo, sobretudo para si mesmo.

21/11/2021  Última atualização 09H16
É assim desde os primórdios da humanidade, quando as necessidades a satisfazer não passavam das vitais, então consumadas com a caça e a recolecção, a habitação em grutas e cavernas e o vestuário, a resumir-se a pele de animais.

Do passado distante, do arco e da flecha, o mundo registou um salto assustador, assim como mudou a perspectiva do ser humano de encarar a vida. De tal forma que as aspirações supremas de ontem há muito estão expiradas, vencidas, ultrapassadas pela permanente actualização das necessidades, que, agora, vão para lá do comer, do vestir e da protecção de uma choupana. Nestes tempos, o conceito de existência abarca elementos impensáveis até mesmo há poucas dezenas de anos, saltando dos meramente vitais, para outros, inclusive os de âmbito psíquico-emocionais, como a paz e a estabilidade, pessoal ou geral, individual ou colectiva.

De tal forma ensurdecedor é o clamor por mudanças, comprovado em manifestações, protestos, greves, marchas, vigílias, debates na Imprensa e em Redes Sociais pelo Mundo, que fica a certeza de que a contestação assola inclusive países primeiro-mundistas, resolvidos, desenvolvidos, enfim, idosos em democracia. É inacreditável que não exista, no globo, uma terra onde a paz social e a fraternidade vinguem, deixando a quase totalidade da população agradada com quem dirige e com o curso do processo político e governativo. Soa a insatisfação mundial, parece o inconformismo de hemisfério a hemisfério. É o rebuliço dos governados. É também o cenário que comprova a insaciabilidade do ser humano: nunca está satisfeito; há-de querer sempre mais.

Existem países que se conhecem de um passado de desigualdades, de injustiças, de desequilíbrios gritantes na distribuição dos recursos, dos rendimentos, que acabaram por beneficiar sempre minorias e elites criadas para desafiar os equilíbrios que se aconselham. Hoje, estas mesmas nações alteraram positivamente o quadro: reduziram as desigualdades sociais, promoveram a justiça e criaram novas oportunidades para os cidadãos, em contextos nos quais as liberdades, de expressão, de pensamento, de imprensa e de ir e vir, são ganhos reconhecidos.  Mas nem por isso viram baixar o tom do clamor por mudanças, quando estas são sentidas a toda a hora, no pulsar do quotidiano. São, na verdade, gritos da intolerância, de quem sequer pondera conceder oportunidades, pelo menos em nome do "benefício da dúvida”. 


Portanto, o desejo de mudanças está mesmo enraizado nas profundezas do ser humano. É um grito natural para que algo se altere, mas nem sempre se sabendo o quê, concretamente. Parece até que virou hábito apelar à mudança, simplesmente para que não sejamos conotados com o passivismo nocivo ao desenvolvimento; para que nos não acusem de inércia anti-revolucionária e de concorrer para que se perpetue a situação. É também o reclamar por empatia, que muitas vezes nos move.

Por isso, é preciso ter cuidado com o fundo do desejo que nos move. As mudanças acarretam riscos. O porvir é um território desconhecido, como o é todo o contexto novo e inexplorado. O perigo de nos juntarmos a uma tormenta é real. O presente é um espaço concreto, é um ambiente conhecido, sob o qual temos algum domínio, mesmo limitado às circunstâncias que nos cercam e às ferramentas de que dispomos para dar resposta aos desafios. O hoje e o agora são palpáveis, mesmo dentro da abstracção que encerram, porque conhecidos. E se nos batemos para os mudar, convém conhecer o que pretendemos, o que queremos que se altere de facto e como pode ser feito.

É, igualmente, importante que não permitamos que interesses alheios às nossas convicções nos influenciem e nos carreguem ao eventual novo contexto. Assim, não seria, nunca, a materialização dos nossos anseios. A prudência é, pois, conselheira nestes tempos de exaltação do livre arbítrio e do exercício pleno da cidadania. Pior que escolher mal é ajudar a sustentar e a concretizar sonhos de mudanças alimentados por quem desenha as suas próprias ambições, no conjunto das quais sequer estamos incluídos. E somos assim enredados numa teia urdida por estranhos.

Hoje e agora, contam-se às milhares as pessoas arrependidas de mudanças que se deram (em alguns casos ajudaram a promovê-las), em casa, no local de trabalho, na escola, na localidade, no país. Porque, até pensarem na mudança - ou até alguém ter decidido por elas - desconheciam que viviam, afinal, alguma estabilidade, alguma paz, alguma tranquilidade, apesar das situações desafiantes, normais em sociedades.


Desenterremos, pois, a réstia de sensatez que ainda nos faz seres pensantes, se é intenção radicalizar o pensamento. Mudar pode ser um imperativo, mas ponderar eventuais perdas e ganhos é fundamental. A convicção deve estar acima de qualquer leviandade.

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