Reportagem

Morreu a Rainha Isabel II “a rocha sobre a qual a Grã-Bretanha moderna foi construída”

Morreu, ontem, aos 96 anos, a Rainha Isabel II, “a rocha sobre a qual a Grã-Bretanha moderna foi construída”, conforme considerou, ontem, a nova Primeira-Ministra britânica, Liz Truss.

09/09/2022  Última atualização 08H20
© Fotografia por: DR
A notícia foi confirmada, de forma oficial, pela casa real. "A Rainha morreu, pacificamente, em Balmoral, esta tarde”, refere o comunicado.

O falecimento acontece após a casa real inglesa ter emitido um comunicado onde deu conta do estado frágil de saúde da monarca.

"Após uma nova avaliação esta manhã, os médicos da Rainha estão preocupados com a saúde de Sua Majestade e recomendam que ela permaneça sob supervisão médica. A Rainha continua a sentir-se confortável e em Balmoral”, informaram a 8 de Setembro.

Assim que a notícia foi divulgada, os familiares da monarca dirigiram-se imediatamente para Balmoral. Os filhos - o príncipe Carlos, a princesa Ana, o príncipe André e o príncipe Eduardo - assim como o príncipe William, o príncipe Harry e a companheira, Meghan Markle, foram alguns dos destacados pela imprensa britânica. Kate Middleton não se deslocou de imediato, tendo optado por ficar em Windsor com os filhos (os príncipes George e Louis e a princesa Charlotte).

Também, ontem, após as notícias sobre o estado de saúde da Rainha, foi logo cancelado o tradicional "changing of the guard” (render dos guardas), que deveria acontecer fora do Palácio de Buckingham, na manhã de hoje.

No trono desde 1957, Isabel II já vinha a inspirar cuidados há meses. Desde o final do ano passado que tinha vindo a cancelar compromissos, alegando "problemas de mobilidade”.  Na celebração do Jubileu de Platina, comemorado oficialmente em Junho, a rainha também falhou alguns eventos.

O ano 2021 foi particularmente desafiante para a rainha. Para além de ter lidado com os efeitos da pandemia, que a obrigou a ficar em isolamento, a monarca chorou a morte do marido, o príncipe Filipe, que morreu aos 99 anos a 9 de Abril, na sequência de problemas cardíacos. Isabel II e Filipe de Edimburgo estiveram casados durante 74 anos.

 

O reinado mais longo do país

"Declaro diante de todos vós que toda a minha vida, seja longa ou curta, será dedicada ao vosso serviço”. No dia em que completou 21 anos de vida, a rainha Isabel II jurou aos súbditos uma vida de serviço até à sua morte.

Esse serviço estendeu-se por mais de 70 anos, sendo que Isabel II se tornaria a monarca com o reinado mais longo da história do Reino Unido.

Em Junho, súbditos e admiradores por todo o mundo celebraram sete décadas de sua majestade no trono com vários eventos que animaram o país durante quatro dias, terminando a 5 de Junho.

No encerramento, Isabel II surgiu na varanda do Palácio de Buckingham ao lado do herdeiro, o príncipe Carlos, de Camilla, do príncipe William, Kate Middleton e dos filhos dos duques de Cambridge. Por breves instantes, saudou o público com um sorriso, naquela que seria a sua última aparição na emblemática varanda.

 

Lágrimas com bandeira a meia haste em Buckingham

A bandeira britânica foi colocada a meia haste no Palácio de Buckingham, onde a multidão, ali reunida quando foi anunciada a morte da Rainha Isabel II, guardou silêncio e muitas pessoas choravam ao ouvir a notícia.

Na multidão, em frente ao palácio, que começou a aumentar à medida que passavam as horas depois dos médicos terem anunciado que o estado de saúde da Rainha preocupava, muitas pessoas choraram e outras ficaram em silêncio, disse um jornalista da France-Press no local.

Ao mesmo tempo, a BBC transmitia o hino britânico e a bandeira do Palácio de Buckingham, residência oficial em Londres de Isabel II, foi colocada a meia haste, sinal de luto.

À medida que a notícia da morte se espalhou, a multidão cresceu significativamente fora do Palácio de Buckingham, para aonde muitas pessoas se deslocaram sozinhas e outras em grupo com amigos, segundo a BBC.

  Transição da coroa vai durar dias

A transição da coroa da Rainha Isabel II para o herdeiro, o príncipe Carlos, está planeada há décadas e inclui formalidades que vão durar dias, segundo planos publicados ao longo dos anos pela imprensa.

Segundo os planos conhecidos, a "Operação Spring Tide” ("Mudança de Maré”, na tradução em português) começa com a audiência da Primeira-Ministra, Liz Truss, em funções também há poucos dias, com o novo Rei, que adoptou o nome de Carlos III.

A proclamação pelo Conselho de Ascensão deverá acontecer um dia mais tarde e lida no Palácio de St James e na Bolsa de Valores (Royal Exchange), confirmando Carlos como Rei, o qual reunirá mais tarde com a Primeira-Ministra e o Governo.

Entretanto, o Parlamento será convocado para emitir uma mensagem de condolências e os deputados prestarem homenagens na Câmara dos Comuns. Os trabalhos parlamentares serão depois suspensos por dez dias.

Três dias após a morte, o Rei Carlos iniciará uma viagem de vários dias pelo Reino Unido, com paragens na Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, antes de regressar a Londres para o funeral de Estado de Isabel II, previsto para 10 dias, planos que ainda estão por se confirmar.

Não existe um calendário para uma cerimónia oficial de coroação, a qual poderá acontecer até um ano após a sua adesão.

 

Planos para o luto e funeral

A morte da Rainha Isabel II, ontem, aos 96 anos desencadeia a chamada "Operação London Bridge”, planeada há décadas e cujos detalhes foram revelados ao longo do tempo por alguns meios de comunicação, embora os planos oficiais continuem por anunciar.

A tradição manda que a notícia seja objecto de uma "Notificação Oficial” da morte nos portões ou num cavalete, como tem sido feito mais recentemente nesse tipo de anúncios, e a página electrónica da família real em cores de luto, com uma declaração a confirmar o óbito.

As bandeiras nacionais nos edifícios públicos serão colocadas a meia haste, os sinos das igrejas soados e o Parlamento britânico, em Londres, e as assembleias regionais da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte suspensas.

Os planos ainda estão por se publicar mas, de acordo com o que se sabe, a Primeira-Ministra, Liz Truss, deverá fazer uma comunicação ao país e encontrar-se com o novo Rei, Carlos, cujo título oficial ainda está por determinar.

O corpo de Isabel II será transportado do Castelo de Balmoral, na Escócia, onde morreu, para Londres, por comboio ou avião, para o Palácio de Buckingham, seguindo-se, depois, pelas ruas de Londres para o Palácio de Westminster, onde ficará em câmara ardente durante três dias.

O dia do funeral de Estado, na Abadia de Westminster ou na Catedral de São Paulo, deverá ser declarado Dia de Luto Nacional e dois minutos de silêncio observados por todo o país.

O corpo será então transportado em desfile em Londres e em Windsor, onde será, finalmente, sepultado no Castelo de Windsor, na Capela em Memória do Rei Jorge VI, junto ao pai.

O retrato da Rainha em locais públicos terá uma fita preta durante o período de luto de um mês antes de ser trocado por um retrato do novo Rei.

As flores depositadas nos palácios reais e em redor de edifícios públicos serão removidas após o funeral de Estado.

Carlos III: Conheça a história do novo monarca britânico

Carlos III (é assim que passa a ser chamado o novo Rei), o primogénito de Isabel II, assume aos 73 anos as funções de Rei, tarefa para a qual se preparou toda a vida, numa altura em que já assumia deveres públicos importantes da monarca britânica.

Durante anos, especulou-se que a Rainha Isabel II, falecida ontem, poderia renunciar a favor do filho, como fizeram outros monarcas europeus - Espanha, Bélgica ou Países Baixos -, ou até favorecer uma passagem da coroa directamente para o filho de Carlos, príncipe William, mais jovem.

Entretanto, o que aconteceu nos últimos tempos foi uma "transição constitucional não oficial”, segundo o jornalista Robert Jobson, em que a Rainha permaneceu como Chefe de Estado e o príncipe Carlos assumiu mais deveres públicos importantes.

Com o evidente peso da idade da Rainha, a monarquia britânica entrou nos últimos meses numa fase de transição com mais responsabilidades atribuídas ao príncipe herdeiro Carlos, mas sem a necessidade de uma abdicação formal.

Carlos III, que é o primeiro filho de Isabel II e do já falecido príncipe Filipe, duque de Edimburgo, nasceu em 14 de Novembro de 1948, no Palácio de Buckingham, em Londres.

Carlos tinha três anos quando o seu avô, o rei George VI, morreu em 1952. A sua mãe foi proclamada rainha da Inglaterra e posteriormente coroada na Abadia de Westminster em 2 de Junho de 1953.

O monarca tem três irmãos: a princesa Ana; André, duque de Iorque; e Eduardo, conde de Wessex.

Depois de iniciar os seus estudos no Palácio de Buckingham em 1956, Carlos estudou na Hill House School de Londres. Em 1958, ingressou, como interno, na Cheam School em Berkshire. Enquanto estava em Cheam, recebeu da Rainha o título de príncipe de Gales -- mas a investidura só ocorreu em 1969 - e de conde de Chester.

Em 1962, iniciou o seu primeiro período em Gordonstoun, em Elgin, na Escócia, onde o seu pai também estudou.

Em 1966, Carlos fez intercâmbio na Geeolong Grammar School, em Melbourne, na Austrália, e em 1967 ingressou no Trinity College de Cambridge, onde estudou Antropologia e História, concluindo a licenciatura em 1970.

Também passou um semestre na University College of Wales, em Aberystwyth, no País de Gales, onde aprendeu galês. Entre 1971 e 1976 frequentou o Royal Naval College Dartmouth.

Carlos casou-se com Lady Diana Frances Spencer, filha do 8.º conde Spencer e de Frances Ruth Burker, filha do 4.º Barão de Ferny, em 29 de Julho de 1981 na catedral de St. Paul, em Londres.

Carlos e Diana tiveram dois filhos: o príncipe William, duque de Cambridge, que agora é primeiro na linha de sucessão ao trono britânico, e o príncipe Harry, duque de Sussex.

O casal divorciou-se em Agosto de 1996 e um ano depois, na noite de 31 de Agosto de 1997, Diana -- que manteve o título de princesa de Gales - morreu num grave acidente de carro, em Paris, provocando uma grande comoção no Reino Unido.

Em 9 de Abril de 2005, Carlos casou-se numa cerimónia civil, em Windsor Guildhall, com Camilla Parker Bowles, com quem já mantinha um relacionamento desde o ano de 1994. Como Camila é divorciada, acabou por receber o título de duquesa de Cornualha.

O agora Carlos III -- um defensor das causas ambientais - possui diversos títulos de nobreza: além de príncipe de Gales e conde de Chester, é ainda conde de Carrick, duque da Cornualha, duque de Rothesay e barão de Renfrew, lorde das Ilhas, príncipe e Grande Regente da Escócia.

Carlos é patrono ou presidente de cerca de 400 organizações e apoia projectos em diversas áreas, entre as quais: Educação, Saúde, Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

O príncipe Carlos, herdeiro do trono britânico, irá assumir a posição para a qual se preparou durante toda a sua vida. Aos 73 anos, o filho mais velho da soberana e do príncipe Filipe de Edimburgo será rei e ao seu lado estará Camilla, que será rainha consorte, conforme era desejo de Isabel II, segundo um comunicado emitido este ano.

O Rei Carlos III qualificou, ontem, a morte da "querida mãe”, a Rainha Isabel II, como "um momento de grande tristeza” para toda a família, segundo um comunicado.

"A morte da minha querida mãe, Sua Majestade a Rainha, é um momento de grande tristeza para mim e todos os membros da minha família”, refere, acrescentando que era uma "monarca acarinhada e uma mãe muito amada”.

"Sei que a morte dela vai ser sentida por todo o país, reinos e na Commonwealth e por inúmeras pessoas em todo o mundo. Durante este período de luto e mudança, a minha família e eu seremos confortados e suportados por saber do respeito e profunda afeição pela Rainha”.

  Rainha era "admirada em todo o mundo pela sua liderança”

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) já reagiu ao óbito da Rainha Isabel II. Através de uma publicação na rede social Twitter, António Guterres destacou que a monarca era "admirada em todo o mundo pela sua liderança e devoção”.

O diplomata, por essa via, afirmou ter ficado "profundamente entristecido com a morte de Sua Majestade”, fazendo questão de recordar a sua "dedicação inabalável e vitalícia”, que "será lembrada durante muito tempo”.

António Guterres ressalvou ainda que a Rainha Isabel II "era uma boa amiga das Nações Unidas e uma presença tranquilizadora ao longo de décadas de mudança”.

Esta foi uma das primeiras declarações internacionais a surgir na sequência da morte da monarca.

 

Reacções de outros líderes mundiais

O Presidente francês, Emmanuel Macron, destacou que a Rainha Isabel II "incorporou a continuidade e a unidade da nação britânica por mais de 70 anos”, salientando também a amizade com França.

"Recordo-me de uma amiga da França, uma rainha de copas que marcou para sempre seu país e o seu século”, sublinhou o Chefe de Estado francês, numa nota na rede social Twitter.

O Presidente da República e o Primeiro-Ministro portugueses também já prestaram a sua homenagem a Isabel II.

 

Exemplo de coragem

Marcelo Rebelo de Sousa manifestou "profunda e sincera consternação” pela morte da rainha do Reino Unido e elogiou o seu "exemplo de coragem” e "inabalável sentido de serviço público”, numa mensagem ao Rei Carlos.

Segundo o Chefe de Estado português, Isabel II "permanecerá para todos um exemplo de coragem, de dedicação, de estabilidade e de inabalável sentido de serviço público, como o foi ao longo dos seus mais de 96 anos de vida e 70 anos de reinado”.

Já António Costa apontou que o "reinado de 70 anos marcou a história britânica desde a Segunda Guerra Mundial” e deixou "sinceras condolências à Família Real e ao povo do Reino Unido”.

Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá, destacou que a monarca "foi uma presença constante nas nossas vidas – e seu serviço aos canadenses permanecerá para sempre uma parte importante da história do nosso país”.

O Primeiro-Ministro belga, Alexander De Croo, descreveu a Rainha Isabel II como "um farol de estabilidade e dignidade para o povo britânico”.

No Reino Unido, a Primeira-Ministra britânica, Liz Truss, recordou a monarca como "uma inspiração pessoal” que marca uma nação e o mundo. Para Truss, Isabel II foi "a rocha sobre a qual a Grã-Bretanha moderna foi construída” e o "próprio espírito” do país.

 

Poder único

O ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, também prestou homenagem à monarca que fica "no coração de cada um de nós”. "Este é o dia mais triste do nosso país porque ela tinha o poder único e simples de nos fazer felizes”, escreveu Boris Johnson, num comunicado publicado na rede social Twitter. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, destacou "a importância dos valores” legados pela rainha Isabel II a "um mundo moderno com o seu serviço e compromisso”.

"Os nossos pensamentos estão com a família real e todos aqueles que choram a Rainha Isabel II no Reino Unido e em todo o mundo. Nunca deixou de nos mostrar a importância de valores duradouros num mundo moderno com o seu serviço e compromisso”, escreveu Charles Michel, no Twitter.

A Casa Branca expressou "os seus sentimentos” à família da Rainha Isabel II, bem como ao "povo do Reino Unido”. "Os nossos sentimentos e pensamentos estão com a família da Rainha (...) e com o povo do Reino Unido”, disse Karine Jean-Pierre aos jornalistas, no final do briefing diário da administração norte-americana.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, e a Primeira-Dama, Jill Biden, emitiram um comunicado sobre a morte da rainha, descrevendo-a como "mais do que uma monarca”.

 

Liderança altruísta

Já o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, lamentou, ontem, a morte da Rainha Isabel II, destacando que, ao longo de mais de 70 anos, a monarca exemplificou uma "liderança altruísta e de serviço público”.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, elogiou o "contributo único” da Rainha Isabel II "para a construção da paz e da reconciliação”, sublinhando que a monarca "supervisionou os principais eventos dos séculos XX e XXI”.

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, expressou as mais "sinceras condolências” em nome do povo ucraniano pela "perda irreparável” que representa a morte da Rainha Isabel II.

 

Legado de prosperidade

O antigo Presidente norte-americano, Donald Trump, elogiou o "extraordinário legado de paz e prosperidade” que a Rainha Isabel II. "O seu sentido de liderança e diplomacia ajudou a estabelecer e fortalecer as alianças com os Estados Unidos e outros países em todo o mundo”, destacou o antigo Presidente norte-americano, na sua plataforma Truth Social.

O Primeiro-Ministro de Israel, Yair Lapid, e o Presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, endereçaram  condolências à família real britânica, destacando o "legado incomparável” que "moldou um século” da história.

"Em nome do Governo de Israel, envio as minhas condolências à família real e ao povo do Reino Unido pela morte de Sua Majestade a Rainha Isabel II. Deixa um legado incomparável de liderança e serviço. Que a sua memória seja uma bênção”, escreveu Lapid no Twitter.

Âncora de estabilidade

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestou "profunda tristeza” considerando que a rainha Isabel II foi uma "âncora de estabilidade” nos tempos mais difíceis.

Recorde-se que a notícia foi conhecida após membros próximos da família real terem viajado, ontem, subitamente, para Balmoral, para estar com a Rainha, após um comunicado dando conta da preocupação dos médicos com o estado de saúde da monarca, de 96 anos.

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