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Moradores do distrito urbano 11 de Novembro clamam por melhores serviços

Bairro do Compão. “Aqui não há nada. Sobrevivemos como podemos e a vida anda assim mesmo, com todos os nossos problemas”, desabafou Cristiano João, de 34 anos, que apesar das condições precárias afirma que já está habituado. “Estou aqui desde pequeno. É aqui onde passei os melhores momentos da minha infância”, explica, para acrescentar que no Distrito Urbano 11 de Novembro, no Cazenga, os problemas aumentam à medida que o tempo passa.

16/07/2020  Última atualização 11H56
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No Compão não há escolas. As vias de acesso estão de-gradadas e o fornecimento de água potável é deficiente. Entre outros problemas, ali existe apenas um posto de saúde em funcionamento. Cristiano João afirma que a criminalidade é, também, um problema sério, que está a tirar o sono aos moradores.

“Os jovens não querem estudar, trabalhar ou aprender alguma profissão. Abraçaram a delinquência e perderam o medo. Criam pânico no bairro. Realizam assaltos a qualquer hora do dia, muitas vezes à mão armada e, também, lutam entre grupos”, disse, acrescentando que a falta de iluminação pública é um dos factores que contribui para o aumento da criminalidade na zona.
O bairro conta com uma esquadra policial, mas o nú-mero de efectivos é insuficiente para fazer o patrulhamento. Cristiano conta que, há dias, um homem perdeu o olho por não aceitar entregar 50 Kwanzas aos marginais. “Furaram-lhe as vistas. Isso está muito mal. Todos temem que, a qualquer momento, também podem ser vítimas de assaltos”, disse.

Segundo o morador, o único posto de saúde em funcionamento na localidade não tem capacidade técnica e humana para atender a procura de populares, que se vêm obrigados a sair do bairro em direcção a outras localidades do Cazenga, em busca de melhores serviços de assistência médica e medicamentosa no hospital dos Cajueiros, e nos centros de saúde da Ana Paula, Progresso, 11 de Novembro, Somague, entre outras unidades sanitárias.
No bairro do Compão, as ruas estão sempre alagadas. Por falta de esgotos, as águas residuais não encontram saídas e a situação piora no tem-po chuvoso: casas inundadas, ruas intransitáveis e muito lixo. Não há contentores. Com esses problemas todos, surgem muitos casos de malária na zona.

Apesar de a Empresa Pú-blica de Águas de Luanda (EPAL) proceder à instalação de torneiras em várias moradias, no âmbito do projecto de 700 mil ligações domiciliares, a maioria dos moradores en-frenta dificuldades para ter o produto em casa.
Os que não construíram tanques ou não dispõem de grandes reservatórios de água, nas suas residências, são obrigados a percorrer longas distâncias. Sobre o projecto em causa, o morador Cristiano João explica que “nos primeiros meses o produto correu normalmente, mas depois deixou de sair. Os que têm tanques vendem água aos vizinhos”.

Outra moradora, Maria António, 30 anos, lamenta do estado em que se encontram as ruas do bairro do Compão. “As estradas desapareceram. Só restam lombas e buracos. Quem não tem carro próprio anda de moto táxis, porque os taxistas não circulam por estas ruas”, diz, para reclamar do aumento significativo dos níveis de criminalidade. “Nem consigo ficar à vontade, parada no portão da minha casa. Se não são os marginais que aparecem, será a poeira a correr comigo”, afirma Maria António.

A moradora conta que os jovens, por falta de ocupação, além de roubarem, passam o dia nas ruas a consumir drogas e bebidas alcoólicas. “Também as meninas, por não haver aqui locais de lazer e, por falta de ocupação, engravidam muito cedo”, sublinha Maria António, que diz ter sobrinhos de 7 e 8 anos, que nunca foram matriculados numa escola.
“Não há dinheiro para matriculá-los num colégio privado, e por esse motivo, eu e os meus irmãos que já concluíram o ensino de base, estamos a en-siná-los à ler e escrever”, re-vela. Maria António realça que isso é o mínimo que podiam fazer, para as crianças não crescerem analfabetas.

Um bairro sem escolas

O coordenador do bairro, Yangalele Samuel, confirma que não existem escolas públicas no Compão, situação que “empurra” muitas crianças para fora do sistema de ensino, principalmente aquelas cujas famílias estão desprovidas de recursos financeiros, para as matricular em colégios privados.
“Deparamo-nos com vários problemas que há muito criam constrangimentos aos moradores, e todos nós gostaríamos que fossem solucionados”, afirmou Yangalele Samuel, visivelmente insatisfeito com o estado das vias de acesso ao bairro.
Yangalele Samuel aguarda ansioso pela construção, nos próximos dias, de uma unidade de saúde de referência, no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM).

A melhoria no fornecimento de energia eléctrica, abastecimento de água potável e saneamento básico são outras das exigências feitas pelos moradores do Distrito Urbano 11 de Novembro. Os problemas são antigos e, no seio dos residentes, a expectativa numa solução definitiva enfraquece ano após ano. “Por exemplo, se a iluminação pública fosse mais eficiente, acredito que a delinquência não seria assim tão acentuada”, assevera Joaquim Fernandes, morador há 12 anos.
O administrador do Distrito Urbano 11 de Novembro, Célsio de Carvalho, afirma que o abastecimento de água está entre os principais desafios da administração local do Estado, tendo destacado a implementação do projecto de 700 mil ligações domiciliares na zona. Fez saber que, no âmbito do referido projecto, a Empresa Pública de Águas (EPAL) já cadastrou um total de 13.522 beneficiários. A distribuição de água é feita pela rede de canalização domiciliar.

“As principais dificuldades estão na regularização das facturas e garimpo. A EPAL tinha em carteira a implementação de contadores pré-pagos, mas até agora não houve qualquer aplicabilidade”, disse.
Confiante no futuro, Célsio de Carvalho destacou a existência de um projecto de reabilitação das vias rodoviárias no distrito, que, no entanto, carece de aprovação da Administração Municipal do Cazenga.
Desprovido de um projecto sustentável que visa a melhoria do saneamento básico, o administrador assegurou que têm sido realizadas acções regulares de remoção de areia, lodo e resíduos sólidos ao longo das valas de drenagem e bacias de retenção.

Novo centro de saúde

Ainda no âmbito do PIIM, o administrador distrital confirmou ao Jornal de Angola que está prevista a construção de um centro de saúde de referência, na localidade. Celsio de Carvalho disse que a única ambulância que circulava na zona avariou, e há escassez de materiais de biossegurança para a prevenção e combate à Covid-19.
Apesar disso, lembrou que existem outras medidas, dentre elas a criação de uma equipa de gestão para dar resposta ao surgimento de eventuais casos da pandemia no distrito, bem como a formação de Agentes de Desenvolvimento Comunitário e Sanitário (ADECOS) que vão sensibilizar os munícipes sobre a necessidade de observação das medidas de prevenção.

De acordo com o responsável, à falta de médicos acresce as preocupações que os moradores enfrentam há anos. Segundo apurou o Jornal de Angola, as unidades sanitárias da circunscrição funcionam dentro da normalidade, como são os casos do Centro de Saúde da Paz, que congrega todos os serviços primários de saúde, e o posto do Compão.
No distrito, o sector da saúde conta com um total de 17 enfermeiros, 67 técnicos de diagnóstico, um médico, duas lavadeiras, três cozinheiras, quatro empregadas de limpeza e um jardineiro.
Com uma extensão territorial de 9,598 quilómetros quadrados, o Distrito Urbano 11 de Novembro foi criado à luz do Decreto Presidencial nº 18/16 de 17 de Outubro. A sua população, estimada em 198.833 habitantes, está distribuída pelos bairros da Mabor, Cardoso, Cândua, Mulemba, KM 14, Kawelele, Compão e Bandeira.

Milhares fora do sistema de ensino

Dados das autoridades do Distrito Urbano 11 de Novembro indicam que mais de 2.500 alunos encontram-se fora do sistema normal de ensino. Pela primeira vez, desde a criação da zona, vai ser construída uma escola do ensino primário no bairro do Compão, para acolher centenas de crianças.
Yangalele Samuel diz que são necessárias mais escolas e o Governo deve trabalhar afincadamente na melhoria da qualidade do ensino. “A construção da escola vai permitir em-pregar alguns jovens do bairro ou distrito”, disse.

Segundo o administrador Célsio de Carvalho, para fazer face à escassez de vagas no sector da Educação, são necessárias 36 salas para o Ensino Primário, enquanto para o Primeiro e Segundo Ciclo do Ensino Secundário a necessidade é de 68, mais duas para o ensino técnico. Informou que, actualmente, o distrito conta com sete escolas do ensino primário, duas do primeiro ciclo e três do segundo.
“Ainda assim, existem sete escolas de diferentes níveis de ensino, dos quais cinco do ensino primário e primeiro ciclo e duas do primeiro e segundo ciclos do ensino secundário. No âmbito do PIIM, a localidade foi contemplada com uma escola de 12 salas, para acolher algumas centenas de crianças do ensino primário”, anunciou.

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