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Moradores da Boa-Fé desprezam restrição

Alheio ao conjunto de restrições definidas no Decreto Presidencial sobre o Estado de Emergência, muitos moradores do bairro Boa-Fé, no Distrito Urbano da Estalagem, município de Viana, mantêm a mesma rotina. É o caso de José Nzagi.

16/04/2020  Última atualização 14H00
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Sentado do lado de fora do portão da casa onde mora, e distante de qualquer preocupação, aprecia uma bebida alcoólica ao mesmo tempo que acompanha o vai e vem dos transeuntes. Minutos depois é flagrado a entrar e sair do interior da sua residência com meia dúzia de latas de cerveja. De seguida, caminhou em direcção a estrada principal que liga o bairro à Avenida Deolinda Rodrigues, ao encontro de um grupo de amigos.
Das restrições definidas no Decreto Presidencial, sobre o Estado de Emergência, consta as concernentes aos direitos de circulação e às liberdades económicas, com a finalidade de se prevenir e conter a transmissão do vírus, principalmente através da circulação comunitária. Contudo, existem excepções que, entretanto, não se enquadram no comportamento de José Nzagi e muitos outros moradores da Boa Fé.
Na manhã de segunda-feira, 6 de Abril, o ambiente era de agitação no bairro. O relógio assinalava 11 horas e 18 minutos. Centenas de moradores da Boa Fé e bairros próximos, na sua maioria mulheres, inundavam os principais pontos de venda, particularmente de produtos alimentares e bebidas alcoólicas.
O distanciamento de um metro e meio de distância entre os cidadãos era completamente ignorado. Perdidos no seu mundo, uns dedicavam-se à venda de toda a gama de produtos e outros procuravam algo para comprar ou comer. Mas havia, também, um pequeno grupo, que passava o tempo todo em animadas conversas, enquanto os mais pequenos entretinham-se nas brincadeiras.
Isabel, ao que se supõe, faz parte das excepções. O receio de contrair o novo coronavírus era uma certeza no seu olhar, quando foi surpreendida a comercializar utensílios de higiene, próximo ao campo da equipa de futebol dos Escorpiões. De estatura acima da média, a jovem de 32 anos diz ouvir constantemente na rádio e na televisão, a actualização do número de mortes e infectados, assim como as formas de contágio da doença. Só que não consegue livrar-se da tentação de sair à rua.
Isabel tem consciência do risco diário a que se expõe e, por isso, segundo afirma, procura sempre tapar o nariz e a boca com uma máscara, sem descurar as demais medidas de prevenção. “Não posso ficar fechada em casa. Se não sair, eu e os meus filhos passamos fome”, declarou.
No bairro Boa Fé, em plena vigência do Estado de Emergência, espanta o número de cidadãos, que pelos mais variados motivos, desobedecem as orientações previstas no Decreto Presidencial. Vezes há que, nem a presença dos efectivos da Polícia Nacional os leva a mudar de atitude.
“É só observar como as pessoas circulam e fazem a sua vida normal. Aqui não se cumpre absolutamente nada e a quarentena é para esquecer. Sou moradora deste bairro e peço às autoridades competentes a prestar maior atenção ao cumprimento das medidas de prevenção”, pediu Rosa Marcolino, que sublinhou estar a acompanhar a situação com enorme preocupação.

 

Mais rigor
no cumprimento

O médico infectologista, Pelinganga Baião, pede medidas mais vigorosas da parte das forças de defesa e segurança, para conter o elevado fluxo de pessoas que desobedece as medidas de restrição definidas no decreto presidencial sobre o Estado de Emergência.
“Estamos diante de uma doença altamente letal cuja dimensão muitos cidadãos têm estado a ignorar”, alertou. Pelinganga Baião manifestou preocupação com a atitude dos cidadãos que alegam que a Covid-19 é uma doença de gente abastada ou algo parecido, tendo considerado oportuna a entrada em vigor do Estado de Emergência.
No mesmo pensamento alinha a especialista em saúde pública, Catarina Pataca. Bastante surpreendida com o aglomerado de cidadãos que circulam com toda a normalidade, nas ruas dos distritos do Zango, Golfe 2, no Lar patriota, entre outros pontos da capital do país. A profissional de saúde exige uma outra abordagem das autoridades, para inverter o quadro. Catarina Pataca lembrou que, até então, os casos positivos detectados no país são todos importados. No entanto, teme o surgimento do contágio comunitário.
“A quarentena obrigatória e a saída de casa, somente nos casos de estrita necessidade, servem para evitar a propagação do vírus nos bairros. Se conseguirmos conter o vírus, será uma vitória para o país”, considerou Catarina Pataca, que reiterou o apelo para a lavagem regular e constante das mãos com água e sabão, e uso do álcool gel, para se evitar os níveis de propagação registados em países como os Estados Unidos da América, Itália e Espanha.

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