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Moçambique: Bispo de Pemba alerta para o perigo da criação de “indústria do sofrimento”

O bispo António Juliasse Sandramo, administrador da diocese de Pemba, Norte de Moçambique, alertou, ontem, para o perigo de criação de “uma indústria do sofrimento” que dissipa a ajuda humanitária, apelando à canalização da ajuda aos necessitados.

24/07/2021  Última atualização 06H00
© Fotografia por: DR
"Quando há situações de sofrimento, pode ser criada uma indústria do sofrimento, que se aproveita do sofrimento do povo”, afirmou Sandramo. A indústria do sofrimento, prosseguiu, pode ser montada por organizações de apoio humanitário, através da instalação de estruturas de funcionamento pesadas e que pagam salários elevados aos trabalhadores. 

Estas entidades podem canalizar mais recursos para a sua máquina do que para as populações em situação de necessidade, sustentou aquele bispo. 

O administrador da diocese de Pemba avançou que a prioridade deve ser o apoio às vítimas da violência armada, em Cabo Delgado, cuja capital é Pemba. 

"A disponibilidade de bens para a ajuda humanitária também pode atrair a tentação de desvios, num país com níveis de corrupção endémicos”, acrescentou. 

"Este risco de desvio de ajuda humanitária existe, com os níveis que nós temos de corrupção em Moçambique, isso leva que o risco se torne maior”, afirmou. 

Sandramo assinalou que o país deve trabalhar para "as ajudas que são anunciadas, em nome dos deslocados de Cabo Delgado, sejam verdadeiramente orientadas para minorar o sofrimento deste povo e nada mais do que isso”. 

Grupos armados aterrorizam a província de Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo Estado Islâmico. Há mais de 2.800 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos ACLED, e 732 mil deslocados, de acordo com as Nações Unidas. 
Respeito pelos direitos humanos 

Juliasse Sandramo pediu respeito pelos direitos humanos às tropas estrangeiras destacadas na província, alertando para o risco de agravamento da violência. 

 "Toda a acção que deve ser feita pelas forças militares estrangeiras é no sentido de restituir a paz e nada mais do que isso e deve ser feito no respeito à vida da pessoa humana”, afirmou Sandramo, em declarações à Lusa. 

O bispo católico defendeu que a intervenção militar estrangeira não deve resultar na perpetuação da violência e cometimento de abusos contra a população. 

"Que a violência não continue e que tudo isso não provoque mortes de pessoas”, sublinhou. O administrador da diocese de Pemba enfatizou que a presença de militares estrangeiros abre um novo ciclo na guerra contra grupos armados, alertando para a imprevisibilidade do desfecho. 

"A nossa província de Cabo Delgado entrou para um novo ciclo em relação a esta violência que vivemos,  inaugurado com a entrada de forças estrangeiras para apoiar as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique no enfrentamento desta situação”, destacou António Juliasse Sandramo. 

"É um novo ciclo em que nós só estamos a ver o começo, mas não sabemos qual vai ser o curso e nem sequer também o fim”, referiu. A Igreja Católica, continuou, vai acompanhar a evolução da situação, com confiança e oração a Deus, para o fim do conflito. 

Um contingente de mil militares e polícias do Ruanda encontra-se em Cabo Delgado há duas semanas para o combate aos grupos armados que protagonizam ataques na província, no quadro de um acordo bilateral entre o Governo moçambicano e as autoridades de Kigali. 

No âmbito de um mandato outorgado pelos chefes de Estado e de Governo da SADC, a organização regional vai destacar para Moçambique um contingente militar para combater insurgência, descrita pelo Governo moçambicano e entidades internacionais como "terrorismo”. 

Não é publicamente conhecido o número de militares que a organização vai enviar a Moçambique, mas peritos militares já tinham avançado que a missão deve ser composta por cerca de três mil homens. 

Grupos armados aterrorizam a província de Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo Estado Islâmico. Há mais de 2.800 mortes segundo o projecto de registo de conflitos ACLED e 732.000 deslocados de acordo com as Nações Unidas. 

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