Cultura

Mister Nzila quer conquistar mercado angolano

Linho Nzila, isto é, o próprio Mister Nzila, pensa que 2020 é o ano para conquistar o público angolano, tal como o fez no Ghana, Gabão e Camarões, países onde já viveu e tem como principal sucesso a música intitulada “Kill Me”, que figurou no Top 10 do Ghana e Gabão.

12/04/2020  Última atualização 16H56
Arquivo do artista

Com quase duas décadas a viver nos países de origem de muitos dos imigrantes africanos que em Angola detêm o negócio das cantinas,aliás, é lá que fez parte da sua formação artística, Mister Nzila agora aposta na sua carreira musical em Angola. Ainda garoto, aos 11 anos, deixou o país e acompanhou o pai em missão de serviço em países como Togo, Gabão, Camarões, Ghana e Cote d’Ivoire.Fez uma licenciatura em Botânica mas não deixou a música, que, ainda criança, foi absorvendo em Angola, a que acrescentou o que bebeu do frenético ambiente musical dos três países onde cresceu. O português, inglês, kikongo, kimbundu, lingala, umbundu e expressões das línguas da África Ocidental, são usados nos seus temas, onde o amor, a paz, o quotidiano e o sentimento pan-africano, que o seu percurso de vida permitiu, estão em destaque.

Mestre Nzila reconhece que a sua inserção no mercado angolano não será fácil, pelo que, numa primeira fase,o seu trabalho na indústria petrolífera é o suporte não apenas para o seu sustento, mas para o financiamento do seu projecto musical.Nesta fase angolana já tem seis músicas gravadascom as sonoridadesAfro-House, Naidja, Raggamuffim, e Reggae, estilos muito apreciados no continente, a que acrescentou o Zouk, Kizomba e Ghero Zouk, que muito marcam o meio musical angolano e de outros países dos Palop.O momento agora é de divulgar os temas “Bokolo”,com Mestre Dangui, “Luzolo Kiami”, “Kill Me”e “Tudo Bala”. O actual Estado de Emergênciano país, por causa da Covid-19, não lhe permite, obviamente, fazer concertos, sendo a alternativa os programas televisivos.
O artista, que é um admirador de Bangão, diz que está a fazer esforços para introduzir no mercado uma versão sua do sucesso “Dioguito”. A música o remete aos tempos de distância e de saudade da terra mãe.Mestre Nzila garante que “Dioguito”, mais do que uma versão, será uma homenagem a Bangão, um artista que não atingia apenas os amantes da música angolana de raiz.  “Esta música é para recordar os passos do mais velho Bangão, um dos meus ídolos. Se ele estivesse em vida, seria o primeiro artista em Angola a cantar comigo”, frisa, revelando que está a tentar um acordo com a família de Bangão, no tocante aos direitos autorais.

Experiência de vida na diáspora

No seio familiar de Mestre Nzila, Tecula Muladi, um tio, nas terras do Mayombe, já animava os ambientes culturais. Foi com este espírito que em 1995 Nzila fez parte do grupo Osu Boys, no Ghana. Em 2018 teve um tema seu em 9º lugar num concurso internacional no Gana. Depois, na terra de Félix Houphoet Boigny,em 2000, na cidade de Yamoussoukro, capital política e onde está localizada a maior Basílica Católica,integrou o grupo Côté Gauche, expressão francesa que significa “o lado esquerdo”.
Nzila revela que a sua família “teve de viver em diferentes países da África Ocidental. Começamos no Ghana, a seguir fomos à Côte d’Ivoire, Togo e regressámos ao Ghana. Tínhamos de acompanhar o meu pai, porque ele tinha um cargo na embaixada de Angola nos referidos países”.
Mestre Nzila realça a livre circulação de pessoas na CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), que reforçou a sua ideia dum continente unido e aprofundou o seu amor pela diversidade cultural. O músico relatou-nos um incidente que teve na fronteira do Togo, dias depois do ataque que a selecção de futebol deste país sofreu em Cabinda, aquando do CAN de 2010. Alguns funcionários administrativos e cidadãos daquele país tentaram detê-lo por ser cidadão angolano, mas a onda de solidariedade de outros passageiros togoleses que o reconheceram como artista foi tão forte que as autoridades desistiram de o deter. Nzila conta esse episódio para realçar a força que o futebol e a música têm no continente africano.
Mas o seu lado musical nem sempre agradava à família, que estava preocupada com a sua formação académica e as possíveis consequências negativas para a posição profissional do pai.
“A minha mãe notou que eu estava a dar mais interesse à música. Então, aconselhou-me a me empenhar mais na formação académica”, observa, sublinhando que embora estivesse a estudar, participava nas actividades do grupo musical, mas com menos regularidade.
Em relação a um dos países onde residiu, o Ghana, Mestre Nzila diz que os músicos angolanos não estão atrasados em relação aos artistas daquele país, porque, argumenta, o mercado angolano é competitivo. “Em Angola, os artistas cantam vários géneros. Quando estava no Ghana, costumava acompanhar músicos nacionais como Cabo Snoop e Os Detroia, estes que têm a famosa música ‘Bela’ à qual faço referência nas estrofes de uma minha música”.

Sentido apurado de oportunidade

Mister Nzila afirmaque, em termos de música, o mercado angolano está bem, mas gostaria que os promotores de eventos investissem mais nos novos talentos. “A música é uma cultura e tenho notado que os novos talentos não têm tido oportunidades e, por isso, não são vistos. Os músicos que mais sobressaiem são aqueles que já são conhecidos no mercado”, observa, lamentando que os promotores não têm a cultura de entrar nos bairros suburbanos para pesquisar novos talentos.
Mister Nzila diz que 2020 é o momento exacto para a sua afirmação em Angola, depois de ter estudado o mercado nacional. Reconhece que não é fácil, para um músico que veio do exterior, entrar no mercado e lançar uma música. “Foi necessário pesquisar as tendências e o ambiente musical. Penso que também foi uma oportunidade para mim, porque eu faço a vibe (estilo) Nadja, que está a bater”, explica, afirmando que percebeu qual era o momento oportuno para lançar a sua música.
A letra e a direcção artística de “Kill Me” foram feitas no Ghana, mas a produção da música foi feita em Luanda pelo angolano Dj Fila. Depois da sua produção, conta, a música foi masterizada no Ghana. “Kill me’ significa, vulgarmente, “Mata-me”. No entanto, o conteúdo da música não é este. Ou seja, é “Keep the voicelow and whith love”, que quer dizer “mantenha a voz baixa e com amor’, elucida, reforçando que a mensagem refere-se a um casal que está em briga e a ideia subjacente é que o melhor momento para se reconciliar é quando os ânimos estão mais calmos.
Mister Nzila dá a conhecer que “KillMe” foi seleccionada para concorrer ao Top 30 Ghana. “Atingimos o nono lugar, que é muito bom para uma música que veio do exterior do Ghana”.
“Temos muitos músicos angolanos que fazem boamúsica. Se calhar, o mercado ghanês é que ainda não está atento ao nosso trabalho. Estamos a perder um pouco de peso, relativamente ao mercado da África Ocidental”.
Segundo Mestre Nzila,se um artista que esteja a fazer sucesso, neste momento, em Angola, for a um país da África Ocidental, não o vão perceber, porém, “se for o músico Cabo Snoop já o vão reconhecer, porque ‘Windeck’ foi e é uma febre nessa região”.
O artista, que esteve nas posições cimeiras de alguns tops da África Ocidental, gostaria que outros músicos angolanos apostassem nessa zona de África, que tem lançado as últimas grandes estrelas do showbiz africano, com a nova geração de artistas nigerianos na frente, e levado estrelas de outros pontos do continente, como África do Sul, Tanzânia e RDC, a fazerem parceria.

“Atirar a matar”

Com vários temas seus a passar nos canais de televisão e em programas de rádio, um dos trabalhos mais recentes de Mister Nzila é uma parceria com Mestre Dangui, “Bokolo”.
Mister Nzila, neste momento, está a trabalhar num projecto com o músico Menover, pertencente ao Santa Máfia, grupo que detém a autoria do sucesso “Moça do Ginásio”.
“Este projecto é de cinco músicas, mas já realizamos duas. As coisas estão a correr bem. Mas continuo a cantar a solo, porque este é apenas um projecto”, esclarece, acrescentando que a sua prioridade, até pouco antes de decretado o Estado de Emergência, era apostar em concertos musicais, sobretudo na capital do país.
Mister Nzila aproveitou a conversa com o repórter do Jornal de Angola para dar a conhecer que está nos acertos da parte final do seu “maxi single”, que comportará quatro faixas, uma das quaisvirá a ser, provavelmente, a sua versão de “Dioguito”, de Bangão.
O músico garante que está apostado em fazer vincar a sua carreira no país natal. E vai mesmo mais longe, dizendo metaforicamente, com ênfase, que pretende “atirar a matar”, tal como o fez na África Ocidental, o seu segundo lar.

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